Turismo, projetos e desgraças: entendendo a atualidade de nossas ferrovias
Turismo, Ferrovias, Projetos e Desgraças.
Entendendo o presente de nossas ferrovias.
Por Sam Heughan Niall
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O Movimento Trilhos do Rio já fez inúmeras postagens explicando o passado das ferrovias no Brasil e o motivo de terem desaparecido. Dessa vez falaremos do presente, explicar os motivos de mesmo depois da extinção da RFFSA nada de significativo ter acontecido.
Esse texto infelizmente é para poucos. A leitura dele exige enorme atenção e sem paixões, uma absoluta racionalidade. Mostra a origem do desastre atual do nosso sistema ferroviário. Leiam com calma. Disponibilizamos aqui muitas informações, principalmente nos links para outras postagens nossas. Aproveitem bastante.
Abordaremos aqui diversos assuntos aparentemente sem conexão, mas certamente quem ler até o final vai entender o entrelaçamento de tais assuntos.
Abaixo vídeo da Youtuber Nanda Guardian, embora ela seja conhecida pelas suas posições políticas e econômicas, esse vídeo trata de um assunto que nada tem a ver com o que ela fala normalmente, mas é assunto bem relevante.

Percebem que além da tragédia, quando a Nanda fala dos números de turistas que visitam Orlando e dos que visitam o Rio de Janeiro? Orlando recebe 70 milhões de visitantes por ano, contra 12 milhões de visitantes por ano no Rio de Janeiro. Percebem uma diferença absurda causada por fatores conhecidos como a insegurança e o prejuízo que isso causa ao país?
Mas existe também como fator preponderante dessa diferença nossa péssima estrutura logística, e ausência total de ferrovias ligando a capital ao interior e a outros estados como Minas Gerais aqui do lado.
Recentemente em um evento, um profissional lotado em um órgão público da capital orgulhoso em descrever suas qualificações, informa ter mestrado em transportes e que transportes de passageiros não dão lucro.
Será que esse profissional tem conhecimento de que desde Floriano Peixoto, nosso segundo presidente, foram criadas leis que muito prejudicaram o caixa das empresas ferroviárias com gratuidades e tabelamentos?
Será que esse profissional também sabe que não existe um histórico sobre empresas ferroviárias tendo lucro nesse tipo de transporte simplesmente porque os governos que se sucederam no país desde a Proclamação da República, passando por Getúlio Vargas usaram e abusaram de leis que muito prejudicaram as empresas ferroviárias em seu desenvolvimento, culminando com a criação da RFFSA.
Estamos falando aqui de transporte regional e não do transporte urbano onde durante 20 anos tivemos a Supervia sendo uma empresa lucrativa que só decaiu nos últimos anos, mas aí já é outra história.
Um empresário, quem quer que seja ele, se quiser comprar ou construir uma escola ou um hospital terá informações atuais e históricas destes setores que embora regulados tem uma história de lucros e prejuízos e os respectivos motivos e nas ferrovias isso não acontece. No setor ferroviário temos apenas mais recentemente o histórico da RFFSA que foi uma empresa estatal que tinha o monopólio do setor e que durante sua existência nunca deu lucro.
Será que esse profissional também tem conhecimento de que nos últimos 40 anos com exceção do governo passado as pessoas nomeadas para órgãos públicos como a ANTT tinham pouco conhecimento do setor? O atual presidente da ANTT é um advogado de carreira.
Isso gera em diversos cursos ligados a transportes essa informação de que transporte de passageiros só dá prejuízo. Por acaso esses mesmos profissionais foram ver os balanços de empresas ferroviárias no Japão ou na Europa em geral?
Percebem que esse tipo de informação surge muito mais pelo chamado telefone sem fio do que por informações concretas?
O Erro desse tipo de informação tem a ver com o viés de sobrevivência, que é um erro lógico que acontece quando olhamos apenas para os vencedores ou sobreviventes de um grupo, esquecendo quem ficou pelo caminho. E muita empresa boa ficou pelo caminho.
Esses profissionais vivem em uma bolha. Tendem a dar crédito apenas aos que estão dentro dessa bolha, não sendo os que estão fora da bolha dignos de atenção.
Infelizmente esses profissionais além de viverem dentro de uma bolha não conseguem entender que o fato de terem conhecimento, um conhecimento discutível por sinal, não tem sabedoria que são qualidades bem diferentes.
A questão da mobilidade medíocre do estado do Rio de Janeiro é um dos motivos do número de turistas ser tão mais baixo do que o de outras grandes cidades de outros países. E não é só esse, a segurança influencia, mas deixemos esse assunto especificamente para os profissionais da área resolverem.

Só com a existência das ferrovias já teríamos um significativo aumento de turistas. Turistas do mundo todo gostam de andar de trem, e nós aqui não temos trem, simples assim.
A restauração da estação Leopoldina bem como a reativação dos trens com destino ao interior de Minas Gerais aumentaria significativamente as atividades econômicas em ambos os estados, incluindo o influxo de turistas.
Os Projetos
O estado deveria ser fomentador de propostas, e não é. Resolveu sabe-se lá por qual motivo criar projetos que em sua maioria ninguém pediu. Vamos citar aqui apenas dois que ninguém pediu, que provavelmente nunca vão sair do papel, mas que dá para quem os defende enorme status e relevância.
Como esses projetos surgem? De onde essas ideias saem? Essa é a grande pergunta sem resposta, mas saber que esses projetos muitos inúteis custam uma boa quantidade de dinheiro talvez explique muitas coisas.
A impressão é que esses “gênios” que criam essas propostas que ao final viram caríssimos projetos. No fim do dia entram no guarda-roupas para ir para suas casas em Nárnia.

Apenas a apresentação de propostas em reunião com empresários não basta, é preciso providenciar projetos que não vão sair do papel, e se por um azar saírem vão dar enormes prejuízos.
Quem quiser saber mais sobre nossas propostas para o desenvolvimento de negócios procure em nossa página os “Planos de Negócios”.
Abaixo apenas dois exemplos produzidos por nossos “gênios”.
Pavuna – Arco Metropolitano
Alguém já ouviu falar? É um projeto pago pelo estado que pretende transformar uma linha férrea que passa por São João de Meriti, usando essa linha para colocar charmosos VLTs como os existentes no centro do Rio de Janeiro. Inclusive operando com a mesma baixa velocidade do VLT do centro do Rio.
Acontece que os “gênios” que propuseram esse projeto aparentemente não sabiam que essa ferrovia que passa por São João de Meriti não está abandonada e é operada pela MRS Logística. Alcança o porto do Rio de Janeiro e o TSG – Terminal São Geraldo um terminal rodoferroviário em frente a Rodovia Presidente Dutra.
Um projeto que se posto em prática acabaria com o acesso ferroviário ao porto do Rio de Janeiro.
Os “gênios” em questão não sabem e isso não consta no material apresentado, que sendo posta em prática para fazer a conexão com a estação Pavuna do Metrô e do trem seria preciso destruir parte do centro de São João de Meriti. Mas isso são detalhes.
Interessados em conhecer mais leiam o nosso texto abaixo sobre o assunto.
Projetos inadequados e suas aplicações equivocadas 2 – Pavuna x Arco Metropolitano
EF-118
Sobre isso, recomendamos a leitura de nossa postagem sobre o assunto. É bizarro demais, vejam abaixo:
Mas acreditem, para quem não conhece do assunto ter em mãos um projeto como esse, bem bonitinho cheio de argumentos com uma capa bem estilosa. Isso dá um tremendo status.
É preciso procurar empresários do setor rodoviário e oferecer a eles a possibilidade de investir em ferrovias. Que fique por conta deles o investimento em projetos. Ao estado deve ser de responsabilidade apenas aprovar os projetos, e conceder as licenças, apenas isso.
Empresário do setor rodoviário sabe muito bem transportar pessoas. Em ônibus, avião, trem, dirigível, e se existir, disco voador. Simples assim. É isso que eles sabem fazer.
Precisamos resgatar o modelo usado no século XIX e que funcionava bem, que hoje é desconhecido. As ferrovias mistas.
Vamos parar por aqui e mostrar apenas esses dois. Falar de projetos ligados à mobilidade, gestados no interior de secretários do governo do estado do Rio de Janeiro e alguns do governo federal e o mais absurdo dele foi o Trem Bala, beira o ridículo.
Essas lambanças ficam parecendo o FEBEAPA – Festival de Besteiras que Assolam o País, livro escrito na década de 60 pelo jornalista Sérgio Porto, mas na versão ferroviária.

Mobilidade na Flórida
Essa apresentação da mobilidade existente especificamente na Flórida decorre dos comentários feitos pela Nanda Guardian no início dessa postagem, mas poderíamos fazer de outras cidades dos Estados Unidos ou da Europa e sempre sairíamos em desvantagem.
Na Flórida existe o Brightline, o único trem rápido de passageiros “privado” dos Estados Unidos. Operado por locomotivas diesel-elétricas Siemens-Charger, que alcançam uma velocidade máxima de 200km/m. A empresa pertence ao bilionário investidor americano Wes Edens e ao grupo de investimentos Fortress Investment Group.
Empresário nos Estados Unidos é visto como parceiro, aqui é visto como inimigo. Isso já explica muita coisa.


Nós aqui em Trilhos do Rio já propusemos transformar o Shopping Nova América em um enorme Hub de transporte, entre outras propostas para isso com a construção de uma linha de Aeromóvel ligando o Aeroporto Internacional do Galeão ao Shopping. Fomos ignorados certamente por não fazermos parte da bolha.
Respeitosamente nos permitam fazer uma pergunta. O que é preciso para fazer parte dessa bolha? Precisa pagar mensalidade? tem como ser sócio? Tem direito a carteirinha?
Abaixo foto da Orlando Station, operada pela Amtrak. Mais uma grande estação ferroviária da Flórida. Linhas tradicionais de longa distância que ligam a Flórida a outras cidades da Costa Leste dos EUA, incluindo destinos como Nova York e Washington D.C. Apenas lembrando aos entusiastas que diretor da Amtrak que não cumprir com o orçamento pode ser além de demitido, preso também. Bem diferente dos diretores da RFFSA onde o céu era o limite e podiam gastar à vontade mandando o cheque das despesas para o tesouro.
O regime militar deu um basta a isso acabando com a farra, e para muitos foi o responsável pela “extinção” de diversas ferrovias. Os motivos verdadeiros são desnecessários para quem critica, o importante é criticar os militares, isso em alguns grupos dá um tremendo status.

Conseguem ver em apenas um único estado americano o tamanho de nosso atraso? Um milionário foi incentivado a construir uma ferrovia, foi lá e construiu. Aqui se omite informações pois se considera que os empresários do setor rodoviário são “inimigos”. Teremos algum futuro com esse tipo de pensamento?
Desgraças
Por último abordamos um evento trágico que foi a morte de uma jovem praticando uma loucura que muitos chamam de esporte de aventura que foi pular de uma ponte ferroviária abandonada. A chamada ponte do esqueleto.
Foi uma barbaridade e reflete um pouco do que é o Brasil atual onde gente despreparada se arvora a oferecer serviços, onde são precisos pessoas de extrema capacidade e infelizmente no Brasil atual o número de NPCs atinge números extremamente elevados. Para quem não sabe NPC significa Non-Player Character (personagem não jogável), uma sigla para o termo em inglês que se refere a personagens controlados pelo próprio jogo e não pelo jogador, são usando um termo mais acessível apenas figurantes de um jogo sem nenhuma relevância ou atitude. Infelizmente a sociedade brasileira graças a educação medíocre que recebe está cheia deles.
Sobre a ponte mais um espólio de nosso tenebroso passado ferroviário. A obra da ponte foi iniciada pela extinta Fepasa (Ferrovia Paulista S/A) na década de 90 do século passado como parte de um projeto de expansão de ramal que acabou paralisado e nunca foi concluído. A ponte nunca recebeu trilhos e passou cerca de 30 anos abandonada na divisa entre Limeira e Cordeirópolis.
Quanto custou? Por que nenhuma concessionária se interessou em concluir? Ou como já descrito aqui, mais uma obra de nossos projetistas que ao final do dia entram no armário e vão para Nárnia. Seria isso?

A jovem caiu no dia 13 de junho de 2026, após a tragédia, a Prefeitura de Limeira interditou os acessos à ponte com valas, montes de terra e cercas de arame farpado, enquanto as autoridades estudam o futuro da estrutura. A tragédia em si foi terrível, mas para quem quer entender o que houve com nossas ferrovias vale a pena reflexão sobre os motivos da ponte estar ali.
Será que dá para entender o grande problema dos projetos sem sentido gestados em escritórios por gente desconhecedora do assunto, mas que brada competência apresentando diplomas que no Brasil atual pouco representam?
Parece que esse tipo de gente já existia no governo do estado de São Paulo.
Querem maior exemplo do efeito Dunning-Kruger?
O perigo é que essa gente continue por aí.
Encerramos com uma postagem do filósofo Olavo de Carvalho. Entendedores entenderão.

Obrigado e até a próxima.
