Bondes de Santa Teresa deixam a Leopoldina em operação que transfere acervo ferroviário para Deodoro
Flagrados por colaboradores Trilhos do Rio, e após um longo período de planejamento das instituições envolvidas, material rodante da estação Barão de Mauá está sendo transportado hoje para Deodoro
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A antiga Estação Barão de Mauá, conhecida como Estação Leopoldina, começou a viver nesta quarta-feira, 16 de setembro, uma movimentação que há anos era aguardada por quem acompanha a preservação do patrimônio ferroviário do Rio de Janeiro. O Governo do Estado, por meio da Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL) e de empresa contratada especificamente para o serviço, iniciou a transferência de parte do material rodante que permanecia armazenado no pátio do complexo. Segundo informações de colaboradores Trilhos do Rio, os carros de passageiros do Trem-Barrinha, serviço que amanhã dia 18 de setembro completará 30 anos de sua trágica extinção, já se encontravam em Deodoro, compondo um conjunto de equipamentos ferroviários que já tinha a locomotiva RS-3 e ao menos um dos guindastes da Estrada de Ferro Central do Brasil, conforme o link abaixo noticiados por Trilhos do Rio.
Transferência de material da Leopoldina para Deodoro já foi iniciada
Hoje, dia 17 de setembro, colaboradores Trilhos do Rio flagraram a preparação para içamento de mais materiais, e no fim da tarde/início da noite o transporte de alguns deles. Entre os bens que começaram a deixar o local estão os históricos Bondes de Santa Teresa, segundo os registros recebidos por Trilhos do Rio.
A movimentação ocorre no contexto da necessidade de desocupação do pátio para permitir o avanço das obras de revitalização e remodelação da Estação Leopoldina. O processo de remoção vinha sendo preparado há algum tempo e ganhou uma etapa concreta nos últimos dias, quando equipamentos utilizados no transporte começaram a ser deslocados para Deodoro, na Zona Oeste do Rio. O Trilhos do Rio já havia registrado, em imagens recebidas de colaboradores, a presença da locomotiva RS-3 e de pelo menos um dos guindastes que anteriormente estavam no pátio da Leopoldina. A chegada desses equipamentos a Deodoro indicava que a operação de transferência entraria em sua fase efetiva.
Bondes centenários voltam a “entrar em movimento”
Entre os veículos que despertaram maior atenção durante a operação estão os bondes históricos de Santa Teresa. Os carros estavam há anos armazenados na Leopoldina, fora de operação por falhas no projeto de modernização, e submetidos às condições ambientais do pátio. O processo de retirada envolveu operações de içamento, posicionamento sobre carretas e transporte rodoviário até o local destinado ao armazenamento em Deodoro.

O movimento foi acompanhado durante esta quinta-feira por colaboradores Trilhos do Rio. Durante a manhã, foram registradas imagens da preparação dos bondes para o carregamento. Já no início da noite, novos registros mostraram pelo menos dois dos veículos sendo transportados sobre uma carreta pelas ruas da cidade. A passagem dos carros históricos diante da Estação Dom Pedro II/Central do Brasil produziu uma cena particularmente simbólica: veículos associados à história dos transportes sobre trilhos do Rio atravessando novamente a região central da cidade, embora desta vez sobre uma carreta e não sobre trilhos.

A movimentação também chamou atenção pelo horário em que ocorreu. Relatos indicam que o transporte foi observado por volta das 17h, com imagens realizadas já no início do período noturno. O deslocamento acontece justamente em uma faixa de horário caracterizada pelo aumento do fluxo de veículos na região central e nas principais vias de ligação com a Zona Oeste. O percurso até Deodoro, portanto, representa uma operação logística de dimensões consideráveis, especialmente quando são transportados veículos históricos de grande porte e peso.
Material ferroviário estava acumulado desde 2004
O acervo retirado da Leopoldina não é formado apenas pelos bondes. Parte significativa do material rodante permaneceu no pátio desde 2004, reunindo veículos e equipamentos relacionados a diferentes momentos da história ferroviária recente do Rio de Janeiro.

Entre eles estão locomotivas e guindastes, além de carros de passageiros que chegaram a ser reformados dentro de uma proposta de reativação do chamado Trem-Barrinha. O projeto previa a utilização dos carros em uma operação ferroviária que acabou não avançando, fazendo com que os veículos permanecessem sem retornar ao serviço regular.
A retirada também alcançar carros-dormitório associados ao antigo Trem Cruzeiro do Sul, conforme informações divulgadas pela Rádio 93FM. A notícia publicada pela emissora informa que, além de locomotivas, vagões e carros de passageiros, seriam transferidos para Deodoro veículos históricos, incluindo os bondes fabricados em 1896, como registrados na foto acima, produzida pelo Jornalismo da emissora. O conjunto formado por esses bens representa, portanto, muito mais do que uma simples coleção de veículos sem uso. Trata-se de um fragmento material da história ferroviária e dos transportes do Estado do Rio de Janeiro, reunindo equipamentos de diferentes épocas e origens que, durante anos, permaneceram concentrados no mesmo pátio.
Operação tem contrato de quase R$ 3 milhões
A transferência está relacionada a uma determinação judicial para a retirada dos bens ferroviários existentes no complexo. Em abril de 2026, a Justiça Federal determinou que os equipamentos fossem retirados para possibilitar o avanço das intervenções previstas para a área. O descumprimento da decisão poderia resultar em multa diária, conforme já havia sido acompanhado pelo Trilhos do Rio.

Para executar a operação, a CENTRAL Logística firmou um contrato emergencial de R$ 2,87 milhões com a empresa COL – Central de Logística Ltda. O contrato contempla serviços necessários à remoção, incluindo içamento, transporte e reposicionamento dos bens ferroviários. Segundo informações divulgadas em agosto, a previsão contratual abrangia a retirada de 15 bens ferroviários e estabelecia prazo de até 30 dias para a execução do serviço.
O valor, próximo de R$ 3 milhões, evidencia a complexidade logística da operação. A remoção de veículos ferroviários que permaneceram durante anos em um pátio não consiste simplesmente em colocar os equipamentos em um caminhão. Dependendo do estado de conservação e das condições de acesso, são necessários equipamentos de elevação, planejamento de carga, veículos especiais e cuidados para evitar danos aos próprios bens durante a movimentação.
Decisão judicial e avanço das obras
A transferência também precisa ser compreendida dentro do processo de revitalização da Estação Leopoldina. O complexo passa por obras desde 2024, e a retirada dos veículos armazenados no pátio tornou-se uma etapa necessária para a liberação das áreas destinadas às intervenções.
A decisão judicial estabeleceu a necessidade de retirada dos bens e determinou prazo para cumprimento da medida. Segundo informações divulgadas em agosto, o descumprimento poderia resultar em penalidades financeiras que chegariam a milhões de reais. A operação iniciada agora representa, portanto, a transformação de uma determinação administrativa e judicial em uma ação concreta de desocupação do pátio.
A situação também ganhou relevância porque a antiga Estação Barão de Mauá se aproxima de um marco histórico importante. Inaugurado em 1926, o prédio completará seu centenário em 2026. A expectativa inicial de que a estação pudesse ser reinaugurada justamente no ano de seu centenário, contudo, não se concretizou. O cronograma das obras sofreu alterações, e a previsão atualmente discutida aponta para a conclusão do processo em 2027 ou 2028.
Um patrimônio ferroviário que passou anos exposto ao tempo
A condição em que o material rodante permaneceu armazenado é outro aspecto que merece atenção. Durante anos, locomotivas, bondes, vagões e outros equipamentos ficaram expostos às condições ambientais, sujeitos à ação da chuva, umidade, radiação solar e demais agentes capazes de acelerar processos de deterioração.
A Rádio 93FM destacou justamente essa situação ao informar que o acervo estava exposto ao tempo e sofria deterioração. O problema é particularmente relevante quando se trata de veículos históricos, nos quais componentes estruturais, madeiras, metais, revestimentos, sistemas mecânicos e elementos internos podem possuir valor documental além de sua função original.
Por isso, a transferência para um local protegido deve ser acompanhada não apenas como uma operação logística, mas também como uma oportunidade para a preservação e documentação do patrimônio ferroviário. O deslocamento, por si só, não resolve os problemas acumulados durante anos de exposição. Será necessário avaliar o estado de conservação de cada veículo, realizar inventário, documentação fotográfica e técnica e, quando possível, estabelecer medidas de conservação preventiva.
De Leopoldina para Deodoro
O destino informado para os veículos é o Complexo Ferroviário de Deodoro, onde o material deverá ser armazenado após sua retirada da Leopoldina. O deslocamento para a Zona Oeste encerra uma longa permanência dos veículos no pátio da antiga estação, mas também inaugura uma nova etapa para o acervo.
A transferência já havia começado antes mesmo da retirada dos bondes. Imagens recebidas por Trilhos do Rio em 13 de setembro mostraram a locomotiva RS-3 e pelo menos um dos guindastes que estavam na Leopoldina já posicionados em Deodoro. A presença desses equipamentos indicava que a estrutura necessária para receber e movimentar o restante do material estava sendo preparada.
Transferência de material da Leopoldina para Deodoro já foi iniciada
O fato de parte do equipamento ter sido deslocada anteriormente também demonstra que a operação foi organizada em etapas, como previsto, mas curiosamente em ordem contrária à estimada. Primeiro foram movimentados recursos necessários ao próprio processo de transferência; posteriormente começaram a sair os veículos ferroviários e depois os Bondes armazenados no pátio.
A imagem dos bondes atravessando o Centro do Rio
A cena registrada nesta quarta-feira possui uma dimensão que ultrapassa o aspecto meramente operacional. Durante décadas, os bondes de Santa Teresa fizeram parte do cotidiano da cidade e se transformaram em um dos elementos mais conhecidos da história dos transportes do Rio. Ver alguns desses veículos novamente em deslocamento pelas ruas, ainda que sobre uma carreta, constitui um registro raro.

A passagem diante da Central do Brasil acrescenta ainda outro elemento simbólico. A Estação Dom Pedro II permanece como um dos principais pontos ferroviários da cidade e representa uma das grandes referências da história dos transportes sobre trilhos no Rio. A imagem de um bonde histórico de Santa Teresa sendo transportado diante da estação estabelece, de maneira involuntária, uma conexão visual entre diferentes capítulos da história ferroviária e dos transportes urbanos da cidade.

Para os interessados em patrimônio ferroviário, essas imagens também possuem valor documental. Elas registram uma etapa de transição de um acervo que permaneceu durante anos em um mesmo local e que agora começa a ser redistribuído.
O que acontece agora com o acervo?
A conclusão da transferência deverá permitir que as obras no complexo da Leopoldina avancem sem a presença dos veículos que ocupavam parte do pátio. Para o patrimônio ferroviário, entretanto, começa uma nova questão: qual será o destino de longo prazo desses bens?
A remoção evita que os veículos continuem submetidos às mesmas condições de exposição, mas a preservação efetiva dependerá da existência de instalações adequadas, controle ambiental quando necessário, segurança, inventário e planejamento de conservação. No caso dos bondes históricos, locomotivas e carros de passageiros, cada unidade possui características próprias e diferentes necessidades de tratamento.
O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?
O Trilhos do Rio continuará acompanhando a transferência e o destino dos veículos, especialmente diante da importância histórica do conjunto. A expectativa é que o deslocamento não represente simplesmente a retirada de um obstáculo das obras da Leopoldina, mas também o início de uma nova etapa de preservação, documentação e eventual recuperação do acervo ferroviário.
E você, também registrou alguma das cenas da transferência? Fotografias e vídeos feitos durante o deslocamento ajudam a documentar este momento da história ferroviária do Rio de Janeiro. Os registros podem ser compartilhados com o Trilhos do Rio ou publicados nas redes sociais com a hashtag #TrilhosDoRio.
Fonte: Trilhos do Rio; Rádio 93FM; BandNews FM; Governo do Estado do Rio de Janeiro/CENTRAL Logística.
Imagem de capa: Diego Motta
