Locomotiva ALCO RS-3 número 7108

O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?

Transferência para o Complexo Ferroviário de Deodoro ainda não aconteceu, e documentos mostram que o novo local precisará passar por adequações; enquanto os bens tombados terão de ser acondicionados em área coberta, dois guindastes permanecerão expostos ao tempo

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A transferência dos bens ferroviários atualmente armazenados na Estação Barão de Mauá, a estação Leopoldina, para o Complexo Ferroviário de Deodoro ainda não aconteceu. Embora a operação já tenha empresa contratada, planejamento técnico e destino definido, dificuldades de acesso ao pátio da estação e a necessidade de tramitação junto aos órgãos de proteção do patrimônio histórico alteraram o cronograma inicialmente previsto.

A documentação mais recente analisada pelo Trilhos do Rio permite, porém, entender como deverá funcionar a guarda dos equipamentos após a transferência — e também revela uma diferença importante entre os diversos bens que serão retirados da Leopoldina.

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Os cinco bondes históricos Bataclan, tombados pelo Estado do Rio de Janeiro, deverão permanecer juntos em espaço coberto e preparado para sua conservação. Já os dois guindastes ferroviários Plural, também integrantes da operação, estão previstos para permanecer em área externa do Complexo Ferroviário XM5, entre os galpões, ficando portanto sujeitos às condições climáticas.

O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?
Imagem: divulgação
O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?
Imagem: divulgação

A pergunta, portanto, não é apenas para onde os equipamentos serão levados, mas em quais condições eles permanecerão depois de retirados da Estação Barão de Mauá.

A transferência aparentemente ainda não aconteceu

O primeiro ponto a ser esclarecido é que os equipamentos aparentemente continuam na Estação Barão de Mauá. Colaboradores registraram, na semana passada, alguma movimentação de equipamentos de transporte, mas o material rodante permanecia na mesma posição no pátio da estação.

De acordo com a documentação da CENTRAL, os serviços de remoção, içamento, carregamento, transporte, descarregamento e posicionamento haviam sido inicialmente programados para ocorrer entre 30 de julho e 5 de agosto de 2026. A operação, entretanto, não foi realizada dentro desse período. Segundo a companhia, houve impedimentos de acesso à Estação Ferroviária Barão de Mauá que impediram a entrada da equipe operacional responsável pela movimentação.

Além das dificuldades operacionais, o processo envolveu a necessidade de análise e aprovação pelos órgãos de proteção do patrimônio histórico, especialmente em relação aos cinco bondes de Santa Teresa tombados pelo Estado. O INEPAC e o Conselho Estadual de Tombamento analisaram a transferência e estabeleceram condições específicas para que os veículos pudessem ser movimentados.

Diante do atraso, foi solicitada a prorrogação do prazo de execução. A nova contagem dos 30 dias deverá ocorrer a partir da aprovação e da comunicação pelos órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio, permitindo que a empresa contratada programe efetivamente a operação. Assim, embora a contratação e o planejamento estejam em andamento, não existe ainda uma data efetiva de transferência dos equipamentos para Deodoro.

O destino será o Complexo Ferroviário XM5

Quando a operação puder ser realizada, os bens serão transportados para o Complexo Ferroviário XM5, em Deodoro, área pertencente à Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL).

A documentação da empresa responsável pela operação indica como endereço do destino a Estrada São Pedro de Alcântara, nº 296, em Deodoro. Outros documentos relacionados ao Complexo Ferroviário de Deodoro utilizam o endereço da Rua João Vicente, nº 2004. O segundo documento analisado identifica o XM5 como a área onde os bens permanecerão armazenados e descreve uma operação específica para sua recepção. Está prevista a limpeza da área de destinação antes da chegada dos equipamentos, além do posicionamento dos guindastes ferroviários sobre os trilhos existentes no local.

Entretanto, a documentação não deve ser interpretada como se todos os bens fossem permanecer dentro de galpões.

Essa diferença é fundamental para compreender as condições de segurança previstas para o novo destino.

Os galpões precisam ser preparados

No caso dos cinco bondes históricos de Santa Teresa, o Conselho Estadual de Tombamento e o INEPAC estabeleceram condições bastante específicas: os veículos deverão permanecer juntos. Não poderão ser distribuídos em diferentes locais do complexo, mesmo que os espaços estejam situados no mesmo terreno. Além disso, o galpão que receberá os bondes deverá passar por adequações antes da transferência.

Entre os problemas identificados está a existência de goteiras e infiltrações provenientes da cobertura. Os documentos determinam que os reparos no telhado deverão ser realizados antes da movimentação dos veículos, justamente para evitar que os bens históricos sejam transferidos para um local que continue apresentando risco de exposição à água.

Também deverá ser instalado equipamento de combate a incêndio, medida considerada urgente na manifestação do INEPAC.

Portanto, a resposta à pergunta sobre a segurança dos bondes é condicionada: eles deverão ser levados para um espaço preparado para recebê-los, mas esse espaço ainda precisa cumprir as adequações determinadas pelos órgãos de patrimônio.

O novo local não poderá ser apenas um depósito

A preocupação do INEPAC vai além de simplesmente colocar os bondes dentro de um galpão. O órgão determinou que a CENTRAL deverá adequar o espaço para que os veículos sejam não apenas depositados, mas efetivamente acondicionados. Isso significa que a transferência física não representa, por si só, o cumprimento das obrigações relacionadas à preservação. O local deverá proporcionar condições adequadas de guarda, permitir o livre acesso do INEPAC para realização de vistorias e contar com medidas destinadas a reduzir riscos aos bens.

A CENTRAL também deverá manter diálogo constante com o instituto a respeito da situação dos bondes, especialmente diante da necessidade de restauração dos veículos.

Além disso, deverá encaminhar relatórios periódicos, a cada três meses, informando as condições em que os cinco bondes se encontram.

Dessa forma, existe uma previsão de acompanhamento posterior à transferência, e não apenas uma obrigação de transportar os veículos para outro endereço.

Os guindastes terão uma situação diferente

A situação dos dois guindastes ferroviários Plural é diferente da dos bondes. De acordo com o documento que detalha a operação no XM5, os dois guindastes serão posicionados sobre os trilhos existentes na área externa, entre os galpões. Isso significa que, diferentemente dos cinco bondes históricos, os guindastes não estão previstos para permanecer dentro de um galpão fechado.

Consequentemente, continuarão expostos às condições ambientais, como chuva, umidade, variações de temperatura e demais intempéries. Essa circunstância merece ser diferenciada das condições estabelecidas para os bondes.

O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?
Ilustração mostrando o local onde os guindastes deverão ser posicionados – Imagem: divulgação

O parecer do INEPAC citado no primeiro documento estabelece uma série de exigências específicas para os cinco bondes tombados, incluindo sua permanência conjunta em espaço coberto, reparo da cobertura e controle das infiltrações. O documento sobre a operação, por outro lado, prevê que os dois guindastes serão posicionados sobre os trilhos, em área externa entre os galpões.

Portanto, não seria correto afirmar que todo o material ferroviário transferido estará protegido dentro de galpões.

O que será levado para Deodoro?

A operação contratada pela CENTRAL contempla um conjunto maior de bens do que apenas os cinco bondes tombados.

A relação apresentada no processo inclui os cinco bondes Bataclan de 1896, dois guindastes ferroviários Plural, uma locomotiva diesel-elétrica ALCO RS-3 (identificada como a de numeração 7108), um vagão Fueiro da Fábrica Nacional de Peças, quatro carros TUE Série 400 e dois cofres de ferro.

Os cinco bondes possuem tombamento estadual pelo processo E-03/31.269/83.

O material rodante da Estação Barão de Mauá ficará realmente seguro em Deodoro?
Um dos cinco bondes que estão para serem levados para Deodoro – Imagem: divulgação

Os dois guindastes ferroviários possuem processos de tombamento junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), identificados na documentação como G1 e G2.

Os demais itens relacionados na operação não possuem tombamento indicado nos documentos apresentados.

Essa diferença patrimonial ajuda a explicar por que as exigências mais detalhadas do INEPAC estão concentradas nos cinco bondes de Santa Teresa.

Contudo, além dos guindastes e dos bondes, onde serão colocados os outros itens que compõe o conjunto de equipamentos ferroviários?

A segurança do complexo também é uma exigência

A proteção física dos bens não depende somente da cobertura dos galpões. O Conselho Estadual de Tombamento determinou que os bondes somente poderão ser movimentados depois do estabelecimento de uma empresa de segurança no Complexo Ferroviário de Deodoro.

A medida deverá estar implementada antes que os cinco veículos sejam retirados da Leopoldina. Assim, as condições previstas para a transferência envolvem diferentes níveis de proteção: controle de acesso e segurança patrimonial, correção das infiltrações, proteção contra incêndio, acondicionamento adequado e acompanhamento periódico do estado dos bens.

No caso dos guindastes, entretanto, permanece a diferença já mencionada: o posicionamento previsto é externo.

Um atraso que também envolve o patrimônio histórico

O adiamento da transferência não decorre exclusivamente de uma dificuldade logística. A operação precisa conciliar o cumprimento da determinação judicial que determinou a retirada dos materiais da Estação Barão de Mauá com as obrigações de proteção dos bens tombados. O processo passou pelo INEPAC e pelo Conselho Estadual de Tombamento justamente porque a movimentação dos cinco bondes de Santa Teresa constitui uma intervenção sobre bens protegidos pelo patrimônio estadual.

O Conselho autorizou a transferência, mas condicionou sua realização ao cumprimento das exigências apresentadas pelo INEPAC e pelos próprios conselheiros. A manifestação oficial do instituto também registra que a ata de uma sessão extraordinária ainda estava em elaboração e que a autorização formal foi encaminhada para dar celeridade aos procedimentos necessários à movimentação.

Com isso, a execução da operação passou a depender da superação das restrições de acesso e do cumprimento das etapas administrativas e patrimoniais previstas.

Então os equipamentos estarão seguros em Deodoro?

A resposta não é simplesmente “sim” ou “não”.

Para os cinco bondes históricos, a documentação prevê uma condição de guarda mais controlada: eles deverão permanecer juntos, em espaço coberto, com o telhado reparado, sem goteiras ou infiltrações, com equipamento de combate a incêndio e condições que permitam fiscalização do INEPAC. Também haverá exigência de segurança no complexo e acompanhamento periódico do estado dos veículos.

Mas essas condições precisam ser efetivamente implementadas. A transferência ainda não ocorreu e os próprios documentos reconhecem a necessidade de adequação do espaço.

Para os dois guindastes ferroviários Plural, a situação é diferente: eles estão previstos para permanecer em área externa, entre os galpões, sobre os trilhos. Portanto, continuarão sujeitos às intempéries, ainda que estejam dentro do Complexo Ferroviário de Deodoro.

Quanto aos demais equipamentos, a documentação estabelece seu transporte e posicionamento no XM5, mas não apresenta para todos eles o mesmo conjunto de exigências patrimoniais determinado especificamente para os bondes.

O que se pode afirmar, portanto, é que Deodoro foi definido como o novo destino dos bens, mas a segurança e a preservação desses equipamentos dependerão das condições efetivamente encontradas e das adequações realizadas antes e depois da transferência.

No caso dos cinco bondes tombados, o INEPAC deixou claro que a mudança de endereço não encerra a responsabilidade pela conservação. O novo espaço deverá permitir que os veículos sejam protegidos, fiscalizados e acompanhados enquanto não chega o momento de uma intervenção de restauração.

A transferência, quando finalmente ocorrer, será apenas o primeiro passo de uma nova etapa na história desses equipamentos.


Fontes: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC): manifestação sobre a movimentação dos cinco bondes históricos de Santa Teresa, condições de guarda e deliberação decorrente da sessão do Conselho Estadual de Tombamento | Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL): informações sobre a contratação da empresa responsável pela movimentação, cronograma, bens envolvidos, procedimentos de remoção, transporte e posicionamento no Complexo Ferroviário XM5 | Trilhos do Rio — Remoção dos bondes históricos da Leopoldina entra em fase operacional; transporte seguirá pela Avenida Brasil até Deodoro: matéria anterior com informações sobre a operação e o destino dos bens. Leia a matéria no Trilhos do Rio | Trilhos do Rio — A retirada dos equipamentos históricos da Estação Barão de Mauá chegou aos últimos capítulos?: contexto sobre o processo de retirada dos equipamentos da Leopoldina. Leia a matéria no Trilhos do Rio
Imagem de capa: divulgação e documentação do Sistema Eletrônico de Informações do Estado do Rio de Janeiro

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