Patrimônio da RFFSA mobiliza pesquisadores, municípios e comunidades em diferentes regiões do Brasil

Patrimônio da RFFSA mobiliza pesquisadores, municípios e comunidades em diferentes regiões do Brasil

Acervos particulares, fotografias, documentos e antigas estações ajudam a preservar a memória da RFFSA, enquanto municípios transformam edifícios ferroviários em espaços culturais

—————

A história da antiga Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) continua sendo reconstruída por pesquisadores, colecionadores, municípios e instituições que encontraram diferentes maneiras de preservar e dar novos usos ao patrimônio deixado pela empresa. Em diferentes regiões do país, fotografias, documentos, objetos ferroviários e relatos de antigos trabalhadores vêm sendo digitalizados e disponibilizados para consulta, enquanto estações históricas são restauradas e transformadas em museus, centros culturais, escolas de música e espaços de convivência.

Esse movimento ocorre em um universo patrimonial de grandes dimensões. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o inventário relacionado à extinta RFFSA reúne mais de 52 mil bens imóveis e 15 mil bens móveis considerados de valor histórico pelo antigo Programa de Preservação do Patrimônio Histórico Ferroviário (Preserfe). Entre eles estão estações, armazéns, rotundas, terrenos, trechos de linhas, locomotivas, vagões, carros de passageiros, equipamentos, mobiliário, relógios, sinos, telégrafos e acervos documentais.

PUBLICIDADE

O Iphan é responsável, desde a extinção da RFFSA, pela administração dos bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural provenientes da antiga empresa. Para organizar essa proteção, foi criada a Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário, instrumento específico destinado ao reconhecimento e à preservação desses bens. Em atualização recente, o Instituto informa que 651 bens estão inscritos na Lista.

A preservação, entretanto, não acontece apenas dentro dos órgãos públicos. Em diversas cidades, pesquisadores independentes e admiradores da ferrovia assumiram a tarefa de localizar fotografias, documentos e relatos que poderiam desaparecer com o passar das décadas.

Fotografias que ajudam a reconstruir a história

Um exemplo é o trabalho desenvolvido pelo pesquisador Mauricio Lima Corrêa, dedicado há décadas ao levantamento da história ferroviária de Juiz de Fora e da Zona da Mata mineira.

Ao longo desse período, Corrêa reuniu aproximadamente 450 fotografias relacionadas às ferrovias da região. O conjunto inclui registros de estações, locomotivas, passagens de nível, plataformas e cenas do cotidiano ferroviário dos séculos XIX e XX.

As imagens permitem observar muito mais do que a infraestrutura dos trilhos. Fotografias de passageiros aguardando os trens, famílias nas plataformas, locomotivas a vapor, enchentes, acidentes e diferentes momentos da operação ferroviária ajudam a reconstruir aspectos da vida social associados à ferrovia.

O material foi organizado no blog “Resgatando o passado: A história de Juiz de Fora”, que reúne conteúdos relacionados à história da cidade e da região. Entre as seções dedicadas especificamente ao transporte ferroviário estão conteúdos sobre trens, ferrovias e estações, além de reproduções de documentos, bilhetes e outros registros históricos.

O pesquisador conta que começou a fotografar Juiz de Fora e cidades da região ainda na década de 1970. Com o avanço da tecnologia, parte desse material foi digitalizada e passou a ser compartilhada pela internet.

A iniciativa também se transformou em uma rede colaborativa, com outras pessoas enviando fotografias, documentos e relatos.

Esse tipo de acervo particular possui importância significativa para a pesquisa histórica. Fotografias que originalmente tinham caráter familiar ou documental podem, décadas depois, tornar-se fontes para estudos sobre arquitetura ferroviária, material rodante, paisagem, relações de trabalho, mobilidade e cotidiano.

A digitalização amplia ainda mais esse potencial, permitindo que documentos antes restritos a coleções particulares possam ser consultados por pesquisadores e pelo público.

Quando a estação deixa de ser apenas estação

Outro caminho encontrado para preservar o patrimônio ferroviário é dar novas funções às antigas estações.

Na Baixada Fluminense, a história da Estrada de Ferro Rio d’Ouro está diretamente relacionada ao desenvolvimento do sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro.

A ferrovia foi autorizada em 1875 para auxiliar na construção das adutoras que levariam água dos mananciais da região de Tinguá para a então capital do Império. A linha posteriormente também passou a desempenhar função no transporte de passageiros.

A história dessa ferrovia ajuda a compreender como diferentes infraestruturas estavam relacionadas durante o processo de expansão urbana do Rio de Janeiro. A construção da linha não pode ser analisada isoladamente da necessidade de ampliar o abastecimento de água de uma cidade que crescia rapidamente.

Hoje, antigas estações do ramal constituem parte desse patrimônio histórico.

Em Tinguá, a antiga estação passou a receber atividades culturais, enquanto iniciativas de recuperação também alcançam outras edificações ferroviárias da região. O objetivo é transformar os imóveis em espaços novamente utilizados pela população.

Essa estratégia é importante porque a preservação de uma edificação histórica não termina com a restauração física. Um imóvel abandonado continua vulnerável à deterioração, mesmo depois de receber investimentos para sua recuperação.

A reutilização, portanto, pode contribuir para sua conservação ao estabelecer uma função permanente para o edifício.

O desafio de dar vida ao patrimônio

A utilização das antigas estações como equipamentos culturais é uma estratégia que vem sendo adotada em diferentes partes do país.

Em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro, a antiga estação ferroviária passou por processo de recuperação e recebeu novas funções culturais.

Em Miguel Pereira, também no estado do Rio, a recuperação de um trecho ferroviário permitiu a implantação de uma operação turística com locomotiva a vapor, transformando a ferrovia em elemento de atração turística e econômica.

Na capital fluminense, a Estação Barão de Mauá, conhecida como Leopoldina, permanece como um dos mais importantes exemplos do patrimônio ferroviário brasileiro. Inaugurado em 6 de novembro de 1926, o edifício foi projetado pelo arquiteto britânico Robert Prentice e possui proteção patrimonial estadual e federal.

A recuperação da Leopoldina faz parte de um projeto mais amplo de requalificação da região. O edifício histórico e suas plataformas estão submetidos a regras específicas de preservação, justamente por seu valor arquitetônico e histórico.

Música, arte e memória ferroviária

A transformação de antigas estações em espaços culturais também acontece fora do Rio de Janeiro.

Em Santa Rita do Passa Quatro, no interior paulista, antigas estruturas ferroviárias podem assumir funções relacionadas à música e à formação cultural. Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o patrimônio associado à antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil passou a integrar iniciativas culturais que procuram manter viva a memória dos ferroviários, de suas famílias e dos passageiros que utilizaram a ferrovia.

Esses exemplos demonstram que a preservação ferroviária não precisa necessariamente significar a reconstrução de uma operação ferroviária comercial.

Uma estação pode continuar existindo como estação cultural; um antigo armazém pode tornar-se museu; uma oficina pode receber atividades educativas; uma locomotiva pode ser restaurada e transformada em peça museológica; e uma linha desativada pode eventualmente receber utilização turística.

O elemento central é preservar os valores históricos do conjunto e estabelecer uma relação entre o patrimônio e a sociedade.

O papel dos acervos particulares

Nesse processo, os acervos mantidos por pesquisadores e colecionadores possuem importância especial.

A história ferroviária não está registrada apenas em documentos oficiais. Fotografias de famílias, bilhetes, cartas, mapas, plantas, jornais, cadernetas, objetos utilizados por ferroviários e registros particulares também ajudam a reconstruir a trajetória das ferrovias brasileiras.

Muitos desses documentos, entretanto, permanecem espalhados por coleções particulares e correm o risco de desaparecer caso não sejam identificados, conservados e digitalizados.

A digitalização oferece uma alternativa para ampliar o acesso sem necessariamente retirar o documento de seu contexto original. Além de preservar uma cópia digital, a descrição adequada do material permite que pesquisadores saibam que determinada fonte existe e possam utilizá-la em futuros estudos.

Esse trabalho é particularmente relevante para a chamada memória ferroviária, conceito incorporado às políticas de preservação do patrimônio brasileiro após a extinção da RFFSA.

O próprio Iphan destaca que a extinção da empresa criou a necessidade de preservar não apenas edifícios e equipamentos, mas também o patrimônio histórico, artístico e documental produzido e acumulado ao longo da história ferroviária brasileira.

A proteção não significa apenas tombamento

Um ponto importante é que nem todo patrimônio ferroviário protegido pelo Iphan é necessariamente “tombado” no sentido tradicional.

A Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário é um instrumento próprio de proteção criado a partir da Lei nº 11.483/2007 e regulamentado atualmente pela Portaria Iphan nº 17/2022.

Segundo o próprio Instituto, podem ser incluídos na Lista bens móveis e imóveis oriundos da extinta RFFSA que apresentem valor artístico, histórico e cultural. A proteção busca evitar seu perecimento ou degradação, apoiar sua conservação e possibilitar ações administrativas e legais de preservação.

A legislação também estabelece que intervenções em bens valorados devem considerar os atributos que justificaram sua proteção e, quando aplicável, depender de aprovação prévia do Iphan.

Essa diferenciação é importante porque permite compreender melhor a dimensão do patrimônio ferroviário brasileiro e os diferentes instrumentos jurídicos utilizados para protegê-lo.

Preservar para compreender o futuro

A recuperação da memória da RFFSA é, portanto, um trabalho que acontece em diversas frentes.

Há pesquisadores que percorrem antigas linhas em busca de vestígios, colecionadores que preservam fotografias e documentos, instituições que digitalizam acervos, municípios que restauram estações e comunidades que procuram transformar antigos espaços ferroviários em equipamentos culturais.

Cada iniciativa contribui para reconstruir uma história que ultrapassa os próprios trilhos.

As ferrovias foram fundamentais para a formação econômica e territorial de diversas regiões brasileiras. Transportaram pessoas, produtos agrícolas, minérios e mercadorias, contribuíram para a expansão de cidades e estabeleceram relações sociais que permaneceram mesmo depois da retirada dos trilhos ou da interrupção dos serviços.

Preservar esse patrimônio significa, portanto, conservar evidências materiais e documentais de processos que ajudaram a construir o Brasil.

Mais do que manter locomotivas, estações ou fotografias antigas, trata-se de garantir que futuras gerações possam compreender como as ferrovias transformaram o território, a economia e a vida cotidiana de milhões de brasileiros.

E, nesse esforço, o trabalho de pesquisadores independentes, instituições de memória, municípios, antigos ferroviários e comunidades locais torna-se tão importante quanto as políticas oficiais de preservação.

A memória ferroviária brasileira não está apenas nos grandes museus. Ela também sobrevive em uma fotografia guardada durante décadas, em um documento digitalizado por um pesquisador, em uma estação que voltou a receber visitantes ou em uma antiga linha que passou a ser percorrida novamente.

É por meio da reunião dessas diferentes fontes e iniciativas que a história dos trilhos pode continuar sendo pesquisada, documentada e transmitida às próximas gerações.


Fontes: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); Lei nº 11.483/2007; Portaria Iphan nº 17/2022; informações e depoimentos reproduzidos na reportagem original.
Imagem de capa: Prédio da Estação de Tinguá, construído em 1917, na Estrada de Ferro Rio D’Ouro, funciona hoje como um centro cultural – Autoria de Getúlio Ribeiro/Prefeitura de Nova Iguaçu/Divulgação

Veja também!