ESPECIAL: Conhecendo os bastidores da ferrovia em uma visita às oficinas da SuperVIA em Deodoro
Uma viagem pelos bastidores da ferrovia: conhecendo o CMD – Centro de Manutenção da SuperVIA em Deodoro
Pouca gente imagina o que existe por trás da operação diária dos trens metropolitanos do Rio de Janeiro. Milhares de passageiros utilizam o sistema ferroviário todos os dias, atravessando a Região Metropolitana sobre trilhos, mas raramente conseguem visualizar a complexa estrutura técnica e humana necessária para manter esse gigantesco sistema em funcionamento. Foi justamente essa realidade que pude conhecer de perto durante uma visita às oficinas ferroviárias da SuperVIA, localizadas no bairro de Deodoro, na Zona Oeste da capital fluminense.

Recebi o convite através de um colaborador da empresa e, curiosamente, a visita aconteceu em uma sexta-feira 13 — data que muitos associam ao azar, mas que para mim sempre representou sorte. E, de fato, foi um dia muito gratificante e extremamente especial. Já imaginava, através de imagens de satélite e mapas, que o complexo ferroviário teria grandes dimensões, mas a realidade impressiona muito mais quando vista pessoalmente. Ao longo do dia caminhei aproximadamente sete quilômetros dentro das instalações, passando por setores técnicos, oficinas especializadas, áreas operacionais e espaços históricos que revelam a dimensão do trabalho realizado diariamente nos bastidores da mobilidade ferroviária do Rio de Janeiro.
Segurança ferroviária e os primeiros passos da visita
Logo na chegada fui recebido pelo colaborador que muito gentilmente atuou como anfitrião durante todo o percurso. Antes de iniciar a visita técnica, seguimos para uma área administrativa onde diversos profissionais trabalhavam em frente a computadores, coordenando e realizando diversas atividades. Em seguida, recebi os EPIs — Equipamentos de Proteção Individual — indispensáveis para circulação segura no ambiente industrial ferroviário: capacete, óculos de proteção e botas apropriadas.

Além disso, existem protocolos rigorosos de segurança. Objetos como relógios, cordões e outros adereços não devem ser utilizados durante o deslocamento pelas oficinas, evitando riscos junto aos equipamentos industriais, ferramentas e composições ferroviárias em manutenção. Esse cuidado já demonstra o nível de organização e responsabilidade operacional existente no local.

Antes de iniciar o circuito pelas seções técnicas, pude observar diversos carros ferroviários em cavaletes, posicionados para atividades específicas de manutenção e inspeção. Era apenas o começo de uma verdadeira imersão no universo ferroviário.
A impressionante estrutura das oficinas ferroviárias de Deodoro
A primeira parada foi na seção de pantógrafos. O pantógrafo é o equipamento instalado no teto dos trens elétricos responsável por captar energia da rede aérea ferroviária e transferi-la para os sistemas elétricos da composição. Trata-se de um componente fundamental para o funcionamento dos trens metropolitanos eletrificados. Na seção, são realizados serviços de inspeção, manutenção corretiva, ajustes mecânicos e recuperação desses equipamentos, garantindo eficiência energética e segurança operacional.


Curiosamente, e foi algo que julguei como uma iniciativa interessante e louvável, foi a preservação de um pantógrafo antigo, apelidado de aranha, que fazia parte dos equipamentos de captação de energia em trens antigos. O aparelho foi restaurado e encontra-se em exibição.

Outro fato que me chamou a atenção foi a quantidade de peças que, segundo técnicos, faziam parte de uma série específica, e estavam sendo recuperados, retificados e aperfeiçoados, para melhor aproveitamento e funcionamento.

Em seguida nos dirigimos a outro setor, mas antes pudemos conhecer e ver algumas composições que estão aguardando recuperação para voltar à circular nos trilhos do Rio de Janeiro: trata-se de uma composição Alstom, que foi imobilizada devido a um alagamento severo ocorrido no trecho, e uma composição CNR que foi vandalizada e incendiada durante um incidente de segurança pública na Zona Oeste, há alguns anos.
Na sequência, seguimos para a quinta seção, dedicada à metalurgia. Neste setor são executados trabalhos pesados de recuperação estrutural, fabricação de peças metálicas, soldagens, cortes industriais e reconstrução de componentes utilizados nos trens e equipamentos ferroviários. É uma área que evidencia o caráter industrial da ferrovia, onde muitas soluções são produzidas internamente pela própria equipe técnica. Ali pude presenciar a fabricação e recuperação de itens que sofrem efeitos de vandalismo constantemente, como visores de portas, assentos, borrachas de vedação e até mesmo Gangways, que são as passagens entre carros ferroviários de uma composição.


Outro setor extremamente importante visitado foi a terceira seção pneumática.

Os sistemas pneumáticos são responsáveis por diversas funções essenciais dos trens, incluindo freios e outros mecanismos operacionais que utilizam ar comprimido. Ali são feitas desmontagens, testes, revisões técnicas e calibrações de componentes fundamentais para a segurança dos passageiros.


Engenharia ferroviária em escala impressionante
Um dos setores mais interessantes da visita foi a sexta seção, responsável pelos truques e usinagem. O “truque” ferroviário é a estrutura localizada abaixo dos vagões onde ficam rodas, suspensão, sistemas de tração e freios.
É, basicamente, uma das partes mais importantes de qualquer composição ferroviária. Nesse espaço são realizados serviços complexos de desmontagem, recuperação, alinhamento e usinagem de peças mecânicas de grande porte. O tamanho das peças trabalhadas nesta seção, assim os equipamentos utilizados, são impressionantes. Assim como o equipamento que iça peças de grande porte e, por vezes, até mesmo um carro (vagão, como algumas pessoas ainda citam) de passageiros inteiro para posicionamento na respectiva seção.
Depois seguimos para a segunda seção, de eletrorotativos, onde são recuperados motores elétricos, geradores e diversos equipamentos eletromecânicos utilizados na operação ferroviária.
O nível técnico dos serviços executados impressiona pela precisão e pelo conhecimento especializado exigido dos profissionais envolvidos. Além disso, foi possível perceber a receptividade e satisfação em todos os colaboradores com quem pude conversar ou cumprimentar, além de toda a dedicação e profissionalismo evidentes.
Antes de chegar na próxima seção, tive a oportunidade de visualizar uma composição, das mais antigas ainda em circulação na empresa, manobrando para o setor específico onde precisaria passar por manutenção corretiva, antes de retornar ao tráfego.


Na nona seção conhecemos a área de ar-condicionado, responsável pela manutenção dos sistemas de climatização dos trens.

Em tempos de temperaturas elevadas no Rio de Janeiro, trata-se de um setor extremamente importante para o conforto dos passageiros. E este é um ponto positivo, e que raramente recebe queixas recorrentes: os equipamentos de ar-condicionado são um diferencial no transporte metropolitano de passageiros do Rio de Janeiro. Foi com a SuperVIA que toda a frota de trens elétricos foi climatizada, e permanece até hoje como um atrativo frente a outros tipos de transporte, que nem sempre atendem plenamente a necessidade de climatização necessária para o bem-estar dos passageiros no calor do Rio de Janeiro.
A quarta seção foi dividida em duas etapas da visita. Primeiro, conhecemos os laboratórios de componentes eletrônicos, onde técnicos trabalham na manutenção de placas eletrônicas, cartões, módulos e circuitos responsáveis pelos sistemas digitais dos trens modernos. É difícil imaginar mas, após passarmos por equipamentos imensos, ver pequenas peças como circuitos e placas digitais dá uma dimensão do gigantesco sistema que fez tudo funcionar, e de sua importância, desde o micro até o muito macro.

Depois, visitamos a área de manutenção de grande porte, onde equipamentos ferroviários passam por intervenções mais complexas e profundas.

Além disso, pude conhecer um setor curioso mas não menos importante: o de manutenção de portas, que permitem o embarque e desembarque de passageiros nos trens: são realizadas inspeções e manutenções minuciosas nas peças, circuitos e mecanismos de funcionamento, com equipamentos modernos e avançados, permitindo precisão e eficiência durante os procedimentos.
Manutenção industrial, rede aérea e equipamentos históricos
A visita prosseguiu pela oitava seção, dedicada à manutenção industrial, onde ficam equipamentos como empilhadeiras e maquinários de apoio operacional. Também percorremos as linhas de manutenção dos trens, observando composições passando por revisões técnicas, inspeções e procedimentos indispensáveis para que a operação ferroviária continue funcionando diariamente.

Um momento simbólico do dia foi a passagem pela pequena capela dedicada à Nossa Senhora Aparecida. O espaço religioso demonstra uma dimensão humana muitas vezes invisível ao público: a forte relação de identidade, respeito e tradição existente entre os ferroviários e sua profissão.
Também visitamos um galpão onde estão armazenados trens desativados, equipamentos históricos e locomotivas diesel utilizadas em manobras e serviços de manutenção da via permanente e da rede aérea. Alguns desses equipamentos encontram-se em recuperação, preservando parte importante da memória ferroviária fluminense.
Pensam que acabou? A visita estava apenas na metade! Passamos ainda rapidamente pela área da CETRA/Rede Aérea, responsável pela manutenção do sistema de alimentação elétrica dos trens, e encerramos a visita nestas instalações do lado sul de Deodoro.
Depois seguimos em direção a estação de Deodoro, onde existe um curioso cruzamento de pedestres na linha, ativa, de transporte ferroviário.

Este sistema pode ser visualizado em funcionamento no vídeo abaixo:
Acessamos a estação de Deodoro e finalizamos a visita no GEMEC — Gerência de Mecanização — localizado do outro lado da Linha do Centro da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, próximo à estação. o espaço é gigantesco e ali ocorrem manobras e deslocamento de diversos equipamentos da operação ferroviária, como trens e maquinário de manutenção da Via Permanente e da Rede Áerea. Ali encontram-se locomotivas, autos de linha, vagões de serviço, guindastes ferroviários e diversos equipamentos utilizados em obras e manutenção da infraestrutura ferroviária.




Uma homenagem aos ferroviários e aos bastidores da mobilidade
Ao final da visita, ficou impossível não sair profundamente impressionado. Mais do que oficinas ferroviárias, o complexo da SuperVIA em Deodoro representa um gigantesco centro de engenharia, manutenção, logística e dedicação humana. Existe um enorme esforço técnico acontecendo diariamente longe dos olhos da maioria da população.
Por isso, fica aqui uma homenagem especial aos colaboradores que me receberam com enorme cordialidade durante toda a visita. Meu agradecimento ao anfitrião que gentilmente apresentou cada setor, explicou detalhes técnicos e compartilhou conhecimentos sobre o funcionamento das oficinas ferroviárias. E também à própria SuperVIA, por abrir suas portas e permitir que esse trabalho tão complexo pudesse ser conhecido mais de perto.
Saio dessa experiência com ainda mais respeito pelos profissionais ferroviários. A dedicação das equipes, o nível técnico das atividades executadas e a preocupação constante em manter o sistema operacional demonstram a importância fundamental desses trabalhadores para a mobilidade urbana do Rio de Janeiro. Por trás de cada trem que circula diariamente, existe um enorme esforço coletivo acontecendo silenciosamente nos bastidores. Trilhos do Rio deseja a todos, desde sempre, muito sucesso e conquistas, a parabéns a todos os profissionais envolvidos!
