Obituário - Eduardo Gonçalves David

Obituário – Eduardo Gonçalves David

Engenheiro, escritor e pesquisador, Eduardo Gonçalves David deixou livros, estudos e projetos que aproximaram a história ferroviária da literatura e das novas tecnologias de transporte sobre trilhos

—————

O setor ferroviário brasileiro perdeu nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, Eduardo Gonçalves David, engenheiro, escritor e pesquisador que dedicou parte significativa de sua trajetória à história das ferrovias e ao desenvolvimento de tecnologias para o transporte sobre trilhos. Segundo as informações divulgadas pela fonte que comunicou o falecimento, Eduardo morreu durante a madrugada, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro.

O velório está previsto para esta sexta-feira, 25 de setembro, no Cemitério e Crematório Parque da Colina, em Niterói. Conforme as informações divulgadas, o velório terá início às 9h45, seguido de uma cerimônia às 10h, na Capela 1. O sepultamento está marcado para as 14h.

PUBLICIDADE

A trajetória de Eduardo Gonçalves David, entretanto, ultrapassou os limites da engenharia. Ao longo de décadas, ele transitou entre a pesquisa histórica, a literatura, a engenharia de transportes e os estudos relacionados à inovação ferroviária. Seu trabalho produziu registros sobre diferentes momentos da história das estradas de ferro brasileiras e, ao mesmo tempo, procurou discutir possibilidades para o futuro da mobilidade sobre trilhos.

Uma vida dedicada à história ferroviária

Natural de Três Rios, no estado do Rio de Janeiro, Eduardo Gonçalves David construiu uma relação particularmente estreita com a história ferroviária brasileira. Seu interesse pelo assunto resultou em pesquisas, livros e projetos que abordaram tanto a formação histórica das ferrovias quanto as transformações tecnológicas do setor.

Uma das características de seu trabalho foi a tentativa de aproximar a pesquisa ferroviária de um público mais amplo. Em vez de restringir suas investigações ao ambiente técnico ou acadêmico, Eduardo também utilizou a literatura como instrumento para recuperar personagens, acontecimentos e episódios relacionados à implantação das primeiras ferrovias brasileiras.

Essa característica ficou especialmente evidente em A Mula do Ouro, romance histórico publicado originalmente em 2009. A obra nasceu de pesquisas realizadas pelo autor sobre a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II e sobre a participação de trabalhadores chineses nas primeiras etapas da implantação da ferrovia.

Reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em 2019 relatou que o interesse de Eduardo pelo assunto remontava à década de 1980, quando, durante pesquisas para atualizar um trabalho anterior sobre história ferroviária, encontrou referências à presença de trabalhadores chineses na construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II. A partir dessa descoberta, aprofundou suas pesquisas e posteriormente transformou parte desse material em literatura.

O trabalho também ganhou repercussão fora do Brasil. A Revista Macau registrou que A Mula do Ouro recebeu novas edições e despertou o interesse de pesquisadores chineses pela presença dos primeiros imigrantes chineses no Brasil. A publicação também descreveu a pesquisa desenvolvida por Eduardo sobre esse capítulo pouco conhecido da história da construção ferroviária brasileira.

Entre documentos históricos e literatura

A pesquisa desenvolvida para A Mula do Ouro tornou-se, assim, mais do que a inspiração para um romance. O trabalho de Eduardo contribuiu para colocar em evidência a presença de trabalhadores chineses na construção ferroviária do século XIX e estimulou novas investigações sobre esse episódio.

O próprio autor relatou que sua pesquisa encontrou referências à contratação de trabalhadores chineses para as obras da Estrada de Ferro Dom Pedro II. A investigação também o levou a estabelecer contatos com pesquisadores e descendentes de chineses que participaram da busca por informações sobre os primeiros imigrantes dessa origem no Brasil.

A obra incorporou elementos históricos e personagens ficcionais, tendo como pano de fundo a construção da ferrovia e as condições enfrentadas pelos trabalhadores durante as obras. O título do romance também está relacionado a uma tradição regional envolvendo o transporte de ouro e o Rio Paraibuna, incorporada à narrativa pelo escritor.

O interesse despertado pelo livro chegou inclusive ao cinema. Em 2019, o Jornal do Brasil informou que havia planos para uma adaptação cinematográfica da obra, em uma possível coprodução sino-brasileira.

Da história da Central do Brasil às ferrovias contemporâneas

A produção bibliográfica de Eduardo não se limitou à literatura. Seu nome também está associado a trabalhos dedicados diretamente à história das ferrovias brasileiras e à evolução do sistema ferroviário.

Entre suas obras está Uma Ferrovia de Sucesso, trabalho relacionado à trajetória da ferrovia que passou pela Estrada de Ferro Dom Pedro II, pela Estrada de Ferro Central do Brasil e pela Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), chegando à configuração contemporânea associada à MRS Logística.

Também aparece em catálogos de livros de sua autoria O Futuro das Estradas de Ferro no Brasil, demonstrando uma característica recorrente de sua produção: olhar para o passado ferroviário não apenas como objeto de memória, mas também como referência para discutir os caminhos futuros do setor.

Essa combinação entre história e futuro ajuda a compreender a amplitude de sua atuação. Eduardo pesquisava as primeiras décadas da implantação das ferrovias brasileiras ao mesmo tempo em que acompanhava tecnologias que poderiam modificar o transporte ferroviário no século XXI.

A pesquisa sobre levitação magnética

Foi justamente no campo da inovação tecnológica que Eduardo Gonçalves David também ganhou reconhecimento entre profissionais do setor metroferroviário.

Ele participou de estudos relacionados ao Maglev-Cobra, projeto desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), baseado na tecnologia de levitação magnética aplicada ao transporte de passageiros.

Sua dedicação ao tema resultou posteriormente em trabalhos sobre o chamado Maglev Metropolitano. Em 2018, Eduardo foi vencedor da Categoria 1 do 5º Prêmio Tecnologia & Desenvolvimento Metroferroviários ANPTrilhos-CBTU, com o artigo Maglev Metropolitano – Cidades do Projeto Piloto. A premiação contemplava trabalhos relacionados a políticas públicas, planejamento urbano, financiamento, gestão de empreendimentos de transporte, tarifas e custeio.

Na ocasião, Eduardo declarou que estudava a levitação magnética havia aproximadamente dez anos e que havia vivido na Alemanha para aprofundar seus conhecimentos sobre a tecnologia. Segundo a ANPTrilhos, ele pretendia retomar o projeto e defendia seu potencial para reduzir custos de implantação de sistemas metroviários.

O reconhecimento não foi apenas uma menção em uma lista de trabalhos. O artigo de Eduardo foi efetivamente o vencedor daquela categoria, conforme registrado pela ANPTrilhos e pela própria CBTU.

Um pesquisador entre passado e futuro

A trajetória de Eduardo Gonçalves David apresenta, portanto, uma combinação pouco comum dentro do universo ferroviário.

De um lado, estava o pesquisador interessado nos documentos, personagens e acontecimentos que ajudaram a construir as primeiras estradas de ferro do país. De outro, encontrava-se o engenheiro interessado em tecnologias que poderiam modificar a mobilidade urbana e ampliar as possibilidades do transporte sobre trilhos.

Essa combinação aparece de maneira particularmente clara quando se observam suas duas vertentes de produção. Em A Mula do Ouro, Eduardo voltou ao século XIX para reconstruir, por meio da literatura, episódios ligados à implantação da Estrada de Ferro Dom Pedro II e à presença chinesa nas obras. Nos estudos sobre o Maglev Metropolitano, voltou-se para uma tecnologia contemporânea baseada na levitação magnética e para suas possíveis aplicações no transporte urbano.

A preservação da memória ferroviária também esteve presente em iniciativas mais recentes. Em 2023, um registro oficial da Prefeitura de Três Rios relacionou Eduardo Gonçalves David a um projeto audiovisual sobre A Mula do Ouro, demonstrando que o trabalho de pesquisa e divulgação da obra continuava presente em sua atividade.

Uma contribuição que permanece registrada

Eduardo era casado com a escritora Maria Goreth Kling David, também autora de trabalhos relacionados à história e à memória. A família manteve ainda atividades editoriais por meio da Casa Editorial Portifolium, que informa ter passado a se dedicar à publicação das obras de Eduardo, Maria Goreth e de seu filho, Philipe Kling David.

Para a história ferroviária brasileira, a importância de Eduardo Gonçalves David está justamente na diversidade de sua produção. Seus livros e pesquisas registraram episódios relacionados às primeiras ferrovias do país; sua literatura levou parte desse conhecimento para além dos círculos especializados; e seus estudos de engenharia procuraram discutir alternativas tecnológicas para o transporte sobre trilhos.

Sua obra também ajuda a lembrar que a história ferroviária não é formada apenas por locomotivas, estações, linhas e documentos técnicos. Ela é composta igualmente pelas pessoas que pesquisaram esses elementos, preservaram suas histórias e procuraram compreender o papel das ferrovias na formação do território brasileiro.

Eduardo Gonçalves David deixa, assim, uma produção que percorre diferentes períodos e dimensões do universo ferroviário: das primeiras obras da Estrada de Ferro Dom Pedro II às possibilidades oferecidas pela levitação magnética; da pesquisa histórica à literatura; dos documentos do passado aos projetos voltados ao futuro.

A comunidade ferroviária perde um profissional que dedicou parte importante de sua vida a estudar, registrar e imaginar os caminhos do transporte sobre trilhos. Seus livros, artigos e pesquisas permanecem como parte do acervo documental produzido por uma geração de pesquisadores que ajudou a manter viva a memória das ferrovias brasileiras e a discutir seus possíveis caminhos no futuro.


Fonte: Redação Entre-Rios; ANPTrilhos; CBTU; Jornal do Brasil; Revista Macau; Prefeitura de Três Rios; Casa Editorial Portifolium.

Veja também!