Nova Iguaçu revitaliza antigas estações e transforma patrimônio ferroviário em espaços culturais

Nova Iguaçu revitaliza antigas estações e transforma patrimônio ferroviário em espaços culturais

Projeto Estações da Cultura visa recuperar estações históricas de Tinguá, Rio d’Ouro e Vila de Cava, aproximando a população da memória ferroviária e da história da Baixada Fluminense

—————

Quase 150 anos depois de sua implantação, a antiga Estrada de Ferro Rio d’Ouro volta a ocupar espaço nas políticas de preservação da memória de Nova Iguaçu. Três de suas antigas estações — Tinguá, Rio d’Ouro e Vila de Cava — estão sendo recuperadas pela Prefeitura de Nova Iguaçu para receber novas funções ligadas à cultura, à educação, à história e à valorização do patrimônio local.

A iniciativa, denominada Estações da Cultura, é conduzida pela Secretaria Municipal de Cultura e procura transformar antigos edifícios ferroviários em espaços permanentes de convivência, conhecimento e preservação da memória da cidade.

PUBLICIDADE

A proposta representa uma alternativa para um problema recorrente no patrimônio ferroviário brasileiro: a necessidade de encontrar usos compatíveis para antigas estações depois da interrupção dos serviços ferroviários. Em vez de permanecerem fechados e sujeitos à deterioração, os imóveis passam a ser incorporados à vida cotidiana das comunidades.

A experiência de Nova Iguaçu ganha relevância justamente porque as três construções estão relacionadas a uma das mais antigas ferrovias da Baixada Fluminense.

Uma ferrovia criada para levar água ao Rio de Janeiro

A Estrada de Ferro Rio d’Ouro, posteriormente conhecida como Ferrovia das Águas, começou a ser construída em 1876. Sua implantação esteve diretamente relacionada às obras de abastecimento de água da então capital do Império.

O objetivo inicial era transportar materiais, equipamentos e trabalhadores necessários à implantação das estruturas de captação e condução das águas provenientes da região de Tinguá. Documentos preservados pelo Arquivo Nacional comprovam a existência de plantas da ferrovia e de seus ramais ainda no século XIX, evidenciando a importância que a linha adquiriu dentro do sistema de infraestrutura associado ao abastecimento da capital.

A ferrovia não permaneceu, entretanto, restrita ao transporte relacionado às obras hidráulicas. A partir de 1883 começaram a circular trens de passageiros, e a linha passou a exercer também uma função de integração territorial da Baixada Fluminense.

Estudos acadêmicos sobre a ferrovia registram que o sistema posteriormente foi organizado em diferentes ramais, incluindo os de Tinguá, Jaceruba e Xerém. A antiga estação de Vila de Cava, por exemplo, foi inaugurada em 1883 como parte de um sub-ramal relacionado às obras do aqueduto de Rio d’Ouro.

A importância histórica desse conjunto também aparece em documentos oficiais. Em 1989, as antigas estações de Rio d’Ouro e Vila de Cava foram incluídas em processos de tombamento provisório pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), em razão de seu significado cultural para a região.

Tinguá foi a primeira a voltar à população

A primeira das três estações a receber uma nova função foi Tinguá.

O imóvel passou a abrigar a Estação da Cultura – Tinguá, incorporando atividades culturais e exposições relacionadas à história de Nova Iguaçu e de seu território.

A recuperação da estação faz parte de uma política municipal que busca utilizar antigos imóveis ferroviários como equipamentos culturais. A proposta já havia sido apresentada pela Prefeitura em 2023, quando o projeto Estações da Cultura foi anunciado como uma iniciativa para Tinguá e Vila de Cava. Naquele momento, a administração municipal informou também que havia destinado equipamentos e mobiliário para os futuros espaços.

Nova Iguaçu revitaliza antigas estações e transforma patrimônio ferroviário em espaços culturais
Estação de Tinguá, antes de ser reformada, em foto feita durante expedição Trilhos do Rio realizada em 2013 – Imagem: Daddo Moreira

A experiência de Tinguá demonstrou, na prática, uma das principais possibilidades de reutilização do patrimônio ferroviário: transformar a antiga estação em um lugar de encontro entre a comunidade e sua própria história.

O espaço recebeu exposições relacionadas ao patrimônio arqueológico e à memória de Nova Iguaçu, incluindo materiais provenientes do Parque Histórico e Arqueológico de Iguassú Velha. A inauguração da Estação da Cultura de Tinguá ocorreu em 2023.

Rio d’Ouro passa por restauração

A segunda etapa do projeto envolve a antiga Estação de Rio d’Ouro, que vem passando por obras de restauração.

A estação possui uma relação particularmente importante com a história da própria ferrovia. O ramal que chegava à região estava diretamente associado ao sistema de captação de águas responsável pelo abastecimento do Rio de Janeiro.

A antiga Estação Ferroviária de Rio d’Ouro possui tombamento provisório pelo Inepac desde 12 de junho de 1989. Segundo informações relacionadas ao processo de preservação, o conjunto integra um grupo de bens considerados marcos significativos do patrimônio cultural da região.

Em reportagem anterior, o Trilhos do Rio já havia acompanhado o início da restauração do imóvel e a perspectiva de sua transformação em uma nova Estação da Cultura. A intervenção é conduzida pela Secretaria Municipal de Cultura, com participação da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e apoio técnico do Inepac.

Estação Rio d’Ouro começa a ser restaurada e deve ganhar papel cultural na Baixada Fluminense

A recuperação é especialmente significativa porque não se trata apenas da restauração arquitetônica de uma antiga estação. O objetivo é devolver ao prédio uma função social e cultural, permitindo que ele volte a receber moradores e visitantes.

Vila de Cava será a próxima etapa

Depois de Tinguá e Rio d’Ouro, a antiga estação de Vila de Cava deverá receber as próximas intervenções.

Também conhecida historicamente como Estação José Bulhões, a estação foi inaugurada em 1883 e pertenceu ao sistema ferroviário criado para apoiar as obras de abastecimento de água. O imóvel também possui processo de tombamento provisório pelo Inepac desde 1989.

Nova Iguaçu revitaliza antigas estações e transforma patrimônio ferroviário em espaços culturais
Estação de (Vila de) Cava deverá ser a próxima a ser restaurada – Imagem: Daddo Moreira, em 2009

A recuperação de Vila de Cava poderá ampliar ainda mais o alcance do projeto, já que a antiga estação está inserida em uma região diretamente relacionada ao traçado histórico dos antigos ramais da Rio d’Ouro.

Em 2009 membros Trilhos do Rio fizeram uma primeira visita ao local. Posteriormente, em 2013 e 2014 a equipe esteve presente por mais três vezes, e coletou depoimentos dos moradores, familiares de ex-ferroviários, sobre a situação precária em que residiam no imóvel. Após denúncias realizadas, algumas iniciativas começaram a ser tomadas pelas autoridades, e mais recentemente o processo de restauração do espaço teve encaminhamento prático.

A própria documentação legislativa estadual registra que parte do antigo leito ferroviário do ramal de Jaceruba, ligado à Estrada de Ferro Rio d’Ouro, acabou sendo transformada em via rodoviária. Atualmente, a RJ-113 acompanha parte desse antigo traçado entre Vila de Cava e Jaceruba.

Essa sobreposição entre infraestrutura ferroviária, estradas, núcleos urbanos e patrimônio histórico mostra como a antiga ferrovia continua presente na paisagem de Nova Iguaçu, mesmo décadas depois de sua desativação.

Preservar o prédio também significa preservar a memória

A recuperação das estações demonstra uma mudança importante na maneira de compreender o patrimônio ferroviário.

Uma estação não representa apenas o edifício onde passageiros aguardavam o trem. Ela pode registrar transformações econômicas, urbanas, sociais e ambientais ocorridas durante décadas.

No caso da Rio d’Ouro, essa dimensão é ainda maior porque a ferrovia nasceu vinculada a uma das grandes questões de infraestrutura do Rio de Janeiro do século XIX: o abastecimento de água.

O próprio Arquivo Nacional mantém mapas e plantas históricas da ferrovia e de seus ramais, demonstrando que a documentação sobre o sistema ferroviário permanece relevante para pesquisas sobre a formação territorial da Baixada Fluminense. Em 2025, o órgão promoveu inclusive uma apresentação dedicada especificamente à pesquisa sobre a Estrada de Ferro Rio d’Ouro e sua relação com os usos da terra na região.

Assim, a restauração dos edifícios pode ser entendida como parte de um esforço mais amplo de preservação da memória ferroviária, que envolve tanto a arquitetura quanto os documentos, relatos, fotografias, objetos e vestígios físicos relacionados às antigas linhas.

A possibilidade de um trem turístico

Além da recuperação dos imóveis, a Prefeitura de Nova Iguaçu estuda a possibilidade de utilizar parte do antigo traçado ferroviário em um futuro percurso turístico entre Vila de Cava, Tinguá e a antiga Vila de Iguassú.

A proposta ainda deve ser tratada como estudo ou possibilidade, e não como uma operação ferroviária já definida. Sua eventual concretização dependeria de avaliações técnicas, patrimoniais, ambientais, de infraestrutura e de viabilidade econômica.

Ainda assim, a ideia estabelece uma conexão interessante entre preservação do patrimônio e uso turístico do território.

Em outras regiões do Brasil, antigas ferrovias têm sido utilizadas como instrumentos de valorização cultural e turística, mas a experiência demonstra que a recuperação de uma linha ferroviária histórica exige muito mais do que a restauração de estações. É necessário avaliar a situação da faixa de domínio, das obras de arte especiais, do material rodante, da segurança operacional e das condições ambientais do percurso.

No caso da antiga Rio d’Ouro, portanto, a restauração das estações pode ser vista como uma primeira etapa mais concreta de um processo maior de valorização do antigo corredor ferroviário.

Um patrimônio que volta a ter função

O projeto Estações da Cultura apresenta uma característica particularmente importante: não pretende transformar as antigas estações em monumentos isolados.

A proposta é dar uso aos edifícios.

Exposições, atividades educativas, cursos, apresentações culturais e ações voltadas à memória podem fazer com que esses imóveis voltem a integrar a rotina das comunidades onde estão inseridos.

Essa estratégia também responde a uma questão recorrente na preservação do patrimônio histórico. Edifícios abandonados ou sem utilização permanente tendem a ficar mais vulneráveis à degradação. Já imóveis incorporados a atividades culturais podem contar com maior presença da comunidade e com uma função pública claramente estabelecida.

Em Nova Iguaçu, a antiga Estrada de Ferro Rio d’Ouro deixou de transportar passageiros há décadas. Seus trilhos praticamente desapareceram de grande parte do território e vários trechos do antigo leito passaram a desempenhar outras funções.

As estações, entretanto, permaneceram como testemunhos materiais dessa história.

Ao recuperar Tinguá, restaurar Rio d’Ouro e preparar a intervenção em Vila de Cava, Nova Iguaçu cria uma nova possibilidade para esse patrimônio: em vez de representar apenas o passado ferroviário da cidade, as antigas estações podem voltar a ser lugares de encontro, conhecimento e produção cultural.

Para a memória ferroviária da Baixada Fluminense, trata-se de uma iniciativa que merece ser acompanhada de perto. Afinal, preservar uma estação não significa apenas conservar paredes, portas e plataformas. Significa manter visível a história das pessoas, dos territórios e das transformações que fizeram parte da construção do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana.


Fonte: Site Tempo Real RJ
Imagem de capa: Estação de (Vila de) Cava em 2013 – Daddo Moreira

Veja também!