Retirada de material rodante da estação Barão de Mauá/Leopoldina terá início com os antigos Bondes de Santa Teresa
Documentos revelam cronograma como dias e horários, destino dos veículos históricos e os bastidores administrativos da primeira grande retirada de patrimônio ferroviário do complexo após anos de impasse judicial. Confira a lista!
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Depois de anos de debates judiciais, estudos técnicos e sucessivos adiamentos, a retirada de parte do material ferroviário histórico existente na Estação Barão de Mauá (Leopoldina) parece finalmente entrar em uma fase prática.
Trilhos do Rio teve acesso a um processo administrativo que detalha os procedimentos adotados pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro para a movimentação de cinco bondes históricos tombados historicamente, atualmente armazenados no complexo ferroviário da Leopoldina. A documentação amplia significativamente as informações conhecidas até o momento e mostra que a operação faz parte do cumprimento de determinações judiciais relacionadas à recuperação da estação.
A documentação analisada indica que a movimentação deverá ocorrer durante a primeira semana de agosto de 2026, sendo executada por empresa especializada contratada especificamente para este fim.
Uma etapa aguardada há vários anos
A remoção dos veículos ferroviários sempre foi considerada um dos principais obstáculos para a recuperação do Complexo Barão de Mauá.
Ao longo dos últimos anos, diversos processos judiciais discutiram a necessidade de desocupação parcial da área para permitir futuras intervenções arquitetônicas e de conservação do patrimônio histórico.
Entretanto, diferentes órgãos públicos apontavam dificuldades técnicas para movimentar locomotivas, bondes, carros ferroviários e outros equipamentos históricos, muitos deles em avançado estado de deterioração.
Os documentos obtidos agora demonstram que parte desse impasse começou a ser solucionada.
O que será removido
Segundo a comunicação oficial encaminhada pela empresa responsável pela execução dos serviços, a operação abrangerá diversos bens ferroviários de grande porte atualmente localizados na Estação Leopoldina.
Entre eles estão:
- cinco bondes históricos;
- uma locomotiva ALCO RS-3;
- um vagão tipo fueiro;
- quatro carros da Série 400;
- dois guindastes ferroviários;
- dois cofres metálicos históricos.
Todo esse conjunto será o primeiro lote a ser transferido para o Complexo Ferroviário de Deodoro, confira abaixo fotos realizadas durante visita técnica de equipe da CENTRAL/SETRAM:
Bondes





Carros de Passageiros Série 400
(reformados em 2005 para uso no Trem-Barrinha, cuja reativação não ocorreu)*




Guindastes


Locomotiva


Os documentos deixam claro que a retirada será realizada de forma gradual, obedecendo planejamento logístico específico e procedimentos técnicos destinados a reduzir riscos durante o transporte.
Empresa especializada fará toda a operação
Outro aspecto revelado pelo processo é que a movimentação não será realizada diretamente pela administração pública.
A execução ficará sob responsabilidade de empresa contratada por meio do Contrato nº 006/CENTRAL/2026, especializada em logística pesada.
Na comunicação encaminhada ao Governo do Estado, a contratada informa oficialmente o início da desmobilização operacional e da retirada dos bens, ressaltando que todas as etapas ocorrerão sob fiscalização da Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL).
O cronograma seguirá o seguinte planejamento:
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Data |
Dia | Chegada à Estação Leopoldina |
Carregamento | Chegada em Deodoro |
Descarregamento |
|
30/07/2026 |
Quinta-feira | 08:00 | 11:00 | 14:00 | 16:00 |
|
31/07/2026 |
Sexta-feira | 08:00 | 11:00 | 14:00 |
16:00 |
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03/08/2026 |
Segunda-feira |
08:00 | 11:00 | 14:00 |
16:00 |
|
04/08/2026 |
Terça-feira | 08:00 | 11:00 | 14:00 |
16:00 |
| 05/08/2026 | Quarta-feira | 08:00 | 11:00 | 14:00 |
16:00 |
Segundo o documento, serão empregados equipamentos específicos para içamento, carregamento, transporte e armazenamento de material ferroviário de grande porte.
Os cinco bondes são tombados pelo patrimônio estadual
Entre os bens que serão movimentados inicialmente estão cinco bondes históricos conhecidos como modelos “Bataclan”, fabricados em 1896, de acordo com a lista abaixo:
- Bonde nº 02 – BP SISBENS nº 400009170540415;
- Bonde nº 06 – BP SISBENS nº 400009170540419;
- Bonde nº 03 – BP SISBENS nº 400009170540416;
- Bonde nº 01 – BP SISBENS nº 400009170540414;
- Bonde nº 07 – BP SISBENS nº 4010009170540420.
Todos encontram-se tombados pelo órgão estadual de preservação patrimonial desde a década de 1980.
O processo identifica individualmente cada veículo e confirma que todos permanecem oficialmente protegidos pelo tombamento estadual.
Essa informação possui grande relevância porque demonstra que a operação envolve bens protegidos por legislação específica de preservação do patrimônio cultural.
Comunicação prévia ao órgão de patrimônio
Antes da movimentação, a CENTRAL preparou comunicação oficial destinada ao órgão estadual responsável pela proteção do patrimônio cultural.
No ofício, a Companhia informa que pretende realizar a retirada dos cinco bondes históricos durante a primeira semana de agosto de 2026 e coloca-se à disposição para permitir eventual acompanhamento das operações por representantes do instituto de preservação.
O documento afirma ainda que a empresa contratada utilizará equipamentos compatíveis com a natureza dos veículos históricos, buscando preservar sua integridade física durante toda a operação.
Destino será o Complexo Ferroviário de Deodoro
Um dos principais pontos esclarecidos pelo processo diz respeito ao destino do material.
Os cinco bondes serão encaminhados para uma área pertencente à própria CENTRAL no Complexo Ferroviário de Deodoro.

Segundo o ofício oficial, o objetivo é preservar a guarda e a integridade física dos veículos após sua retirada da Leopoldina.
Os documentos não mencionam previsão para restauração dos bondes nem eventual retorno ao serviço turístico ou museológico.
Também não há indicação de cronograma para exposição pública desse material.
Ligação direta com ação judicial
Os documentos deixam claro que a remoção decorre do cumprimento de decisão judicial proferida no processo de cumprimento provisório de sentença relacionado à recuperação da Estação Barão de Mauá.
Além disso, a movimentação também está vinculada às obrigações assumidas em acordo de cooperação firmado entre União, Estado do Rio de Janeiro e CENTRAL para viabilizar a recuperação do complexo ferroviário.
Ou seja, não se trata apenas de uma decisão operacional, mas de uma medida inserida em um processo muito mais amplo de reorganização patrimonial.
O processo mostra que toda a tramitação administrativa ocorreu em poucos dias.
- Em 31 de julho de 2026 foi elaborada a minuta do ofício.
- No mesmo dia houve encaminhamento ao Gabinete da Presidência.
- Também na mesma data ocorreu a aprovação da Presidência da Companhia.
- Finalmente, ainda em 31 de julho, foi expedida a comunicação oficial ao órgão estadual de patrimônio.
A sequência demonstra uma tramitação administrativa bastante rápida, compatível com o cronograma previsto para início das remoções na semana seguinte. Isso decorre também da multa que poderia ser aplicada aos envolvidos se o processo não fosse implementado.
O que ainda permanece na Leopoldina
Embora represente um avanço importante, a documentação também deixa claro que a operação não contempla todo o acervo existente na Estação Barão de Mauá.
Em processos analisados anteriormente pelo Trilhos do Rio, diversos documentos apontavam que a retirada do material ferroviário exigiria operações extremamente complexas, especialmente no caso de locomotivas, carros ferroviários pertencentes à União, equipamentos protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e, sobretudo, das milhares de aduelas de concreto armazenadas no antigo canteiro de obras da Linha 4 do Metrô. Dentre estes alguns carros de passageiros do antigo Trem Cruzeiro do Sul, locomotivas diesel e a ALCO FA-1, conhecida como “Biriba”, única ainda existente no Brasil.
Assim, a remoção agora iniciada representa apenas uma das etapas previstas para a futura desocupação do complexo.
Patrimônio histórico continua sendo preocupação central
Outro aspecto relevante é que o processo demonstra preocupação constante com a preservação dos bens históricos.
A comunicação oficial enfatiza que os serviços deverão observar boas práticas de conservação, utilização de equipamentos compatíveis e acompanhamento técnico durante toda a operação.
Essa preocupação já havia sido registrada em manifestações anteriores de órgãos de preservação, que alertavam para os riscos estruturais existentes em parte do acervo ferroviário caso fossem realizadas remoções sem estudos técnicos específicos.
Sob a perspectiva da preservação ferroviária, a movimentação dos bondes representa um marco importante.
Durante décadas, esses veículos permaneceram armazenados na Leopoldina em condições que frequentemente geravam preocupação entre pesquisadores, historiadores e entidades voltadas à preservação do patrimônio ferroviário.
Sua transferência para uma área operacional controlada pode criar condições mais adequadas para futuras ações de conservação, embora isso ainda dependa de investimentos específicos e de novos projetos.
O que acontece agora
Os documentos obtidos pelo Trilhos do Rio não encerram o assunto. Ao contrário, indicam que a retirada dos bondes constitui apenas uma das primeiras medidas de uma série de providências relacionadas ao cumprimento das decisões judiciais envolvendo a recuperação da Estação Barão de Mauá.
Ainda permanecem pendentes questões relevantes, como o destino definitivo das locomotivas e demais veículos ferroviários sob responsabilidade de diferentes órgãos, a situação das aduelas da Linha 4 do Metrô e o cronograma completo de requalificação do complexo ferroviário.
A equipe Trilhos do Rio continuará acompanhando a tramitação dos processos administrativos e judiciais relacionados à Estação Barão de Mauá/Leopoldina, buscando oferecer aos leitores informações fundamentadas em documentação oficial e contribuir para o acompanhamento público de um dos mais importantes conjuntos ferroviários históricos do Brasil.
Com informações do Sistema Eletrônico de Informações do Governo do Estado do Rio de Janeiro
Imagem de capa: Sistema Eletrônico de Informações do Governo do Estado do Rio de Janeiro
