Trilhos podem ser a chave para transformar a mobilidade no Rio de Janeiro, defende especialista
Matéria sobre o assunto foi publicada no site CNN Brasil Infra a partir de entrevista com Diego Garcia, vice-presidente da Associação Latino-Americana de Metrôs e Subterrâneos (Alamys) e gerente-executivo do MetrôRio
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A recente aprovação do Marco Legal do Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026) reacendeu o debate sobre o futuro da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras. A nova legislação estabelece mecanismos que reduzem a dependência exclusiva da arrecadação tarifária para financiar os sistemas de transporte coletivo, abrindo espaço para subsídios públicos, receitas extratarifárias e novas formas de financiamento destinadas a tornar as passagens mais acessíveis aos usuários.
Segundo artigo publicado pela CNN Brasil Infra, o vice-presidente da Associação Latino-Americana de Metrôs e Subterrâneos (Alamys) e gerente-executivo do MetrôRio, Diego Garcia, defende que esse novo cenário representa uma oportunidade para o Estado do Rio de Janeiro reposicionar o transporte sobre trilhos como eixo estruturante da mobilidade metropolitana.
Na avaliação do especialista, embora o Rio possua uma extensa infraestrutura ferroviária e metroviária com elevado potencial operacional, a ausência de políticas permanentes de incentivo ao transporte de massa, aliada ao elevado custo das tarifas, tem afastado passageiros e contribuído para um ciclo de perda de demanda e redução da capacidade de investimento.
Novo marco amplia possibilidades de financiamento
A Lei nº 15.432/2026 representa uma mudança significativa na política nacional de mobilidade urbana ao reconhecer que sistemas de transporte coletivo produzem benefícios sociais, econômicos e ambientais que justificam maior participação do poder público em seu financiamento.
Além disso, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, apresentado recentemente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em conjunto com o Ministério das Cidades, identifica diversos projetos considerados estratégicos para ampliar e integrar as redes de transporte coletivo em todo o país.
De acordo com Diego Garcia, para que o Rio de Janeiro consiga aproveitar esse novo ambiente de investimentos, será necessário enfrentar antigos desafios relacionados principalmente à política tarifária e à integração entre os diferentes modais.
Rio possui uma das tarifas mais elevadas do país
Apesar do anúncio realizado pelo Governo do Estado de subsidiar R$ 0,30 por viagem para evitar um novo reajuste no metrô durante este ano, a tarifa permanece em R$ 7,90, sendo uma das mais altas do Brasil. Já os trens metropolitanos operam com tarifa de R$ 7,60, valor que também figura entre os mais elevados do país.
Segundo o autor do artigo, essa realidade acaba criando um efeito contrário ao desejado: quanto maior o preço da passagem, menor é o número de passageiros utilizando o sistema. Com a redução da demanda, diminui também a arrecadação das concessionárias, comprometendo recursos destinados à operação, manutenção e expansão da infraestrutura.
Garcia argumenta que essa lógica desconsidera o papel estratégico dos sistemas de alta capacidade, que são capazes de transportar grandes volumes de passageiros com maior rapidez, menor impacto ambiental e menor ocupação do espaço urbano.
Experiências de outras capitais mostram outro caminho
O artigo cita exemplos de estados brasileiros que adotaram políticas mais robustas de subsídios ao transporte ferroviário e metroviário.
Em São Paulo, aproximadamente 53% do custo operacional do sistema é coberto por recursos públicos, permitindo que a tarifa permaneça em torno de R$ 4,40.
Situação semelhante ocorre em Salvador, onde os subsídios representam cerca de 59% dos custos da operação, mantendo a tarifa em aproximadamente R$ 5,20.
Segundo Diego Garcia, esses modelos contribuem para preservar a demanda dos passageiros e geram benefícios que vão além da mobilidade, refletindo em ganhos de produtividade, redução dos congestionamentos, maior segurança viária e melhoria da qualidade de vida da população.
Longos deslocamentos reduzem qualidade de vida
Outro aspecto destacado é o tempo gasto diariamente pelos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro nos deslocamentos entre casa e trabalho.
Estudos sobre mobilidade urbana frequentemente apontam que a capital fluminense figura entre as cidades com maiores tempos médios de viagem, superando uma hora em cada trecho para muitos trabalhadores.
Além do desgaste físico e mental provocado pelas viagens prolongadas, o tempo perdido no trânsito reduz a produtividade, compromete a convivência familiar e limita o acesso da população a oportunidades de emprego, educação e lazer.
Transporte individual amplia desafios urbanos
Segundo o artigo da CNN Brasil Infra, o elevado custo do transporte coletivo também estimula parte da população a migrar para alternativas mais baratas, principalmente motocicletas.
Esse movimento acaba produzindo efeitos indiretos importantes, como o aumento no número de acidentes de trânsito e da demanda pelos serviços públicos de saúde.
Sob o ponto de vista ambiental, a situação também preocupa. Conforme dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) citados pelo autor, carros e motocicletas respondem por aproximadamente 70% das emissões de poluentes nos centros urbanos brasileiros.
Enquanto isso, os sistemas sobre trilhos apresentam desempenho ambiental significativamente melhor. O artigo informa que as ferrovias urbanas representam apenas 0,3% das emissões urbanas de dióxido de carbono (CO₂), enquanto os ônibus chegam a emitir cerca de 11,65 vezes mais gases de efeito estufa por passageiro-quilômetro transportado.
Equalização tarifária é apontada como solução
Entre as propostas apresentadas por Diego Garcia está a adoção de uma tarifa única de R$ 5,00 para os sistemas sobre trilhos, igualando o valor cobrado no transporte municipal por ônibus na capital fluminense.
Na avaliação do especialista, permitir que a escolha do meio de transporte seja feita pela conveniência — e não apenas pelo preço — estimularia o retorno de milhares de passageiros ao metrô e aos trens metropolitanos.
Essa medida também fortaleceria financeiramente o sistema ao aumentar a demanda, favorecendo novos investimentos em infraestrutura e expansão da rede.
Nova fonte de recursos poderia financiar o sistema
Como alternativa para viabilizar economicamente essa redução tarifária, o autor propõe a criação de uma contribuição de R$ 1,00 por corrida realizada por aplicativos de transporte e serviços de entrega.
Segundo ele, mecanismos semelhantes já são utilizados em outros países para financiar sistemas de transporte coletivo, permitindo que usuários do transporte individual também contribuam para a manutenção da infraestrutura pública de mobilidade.
Estimativas preliminares apresentadas no artigo indicam que essa medida poderia gerar um superávit superior a R$ 200 milhões por ano, recursos que poderiam ser direcionados tanto à redução das tarifas quanto ao financiamento de projetos de expansão dos sistemas ferroviário e metroviário.
Oportunidade para repensar a mobilidade fluminense
Ao concluir sua análise, Diego Garcia afirma que o atual momento representa uma oportunidade para o Rio de Janeiro adotar políticas capazes de fortalecer o transporte coletivo de alta capacidade, ampliar sua competitividade e oferecer melhores condições de deslocamento à população.
Segundo o especialista, reduzir as tarifas dos sistemas sobre trilhos, ampliar os investimentos e priorizar a integração entre os diferentes modais são medidas que podem contribuir para uma cidade mais eficiente, sustentável e socialmente inclusiva.
A discussão ocorre em um momento em que o Brasil busca alinhar suas políticas de mobilidade aos desafios da descarbonização, da melhoria da qualidade de vida nas grandes cidades e da construção de sistemas de transporte mais resilientes e acessíveis.
Fonte: reportagem baseada em artigo publicado pela CNN Brasil Infra, de autoria de Diego Garcia, vice-presidente da Alamys (Associação Latino-Americana de Metrôs e Subterrâneos) e gerente-executivo do MetrôRio.
Imagem de capa: divulgação MetrôRio
