Trem sofre avaria no ramal Santa Cruz e passageiros ficam quase 1h sem informações e solução
Falha em composição do ramal Santa Cruz provoca atrasos, desinformação, mal-estar entre passageiros e desembarque pela via férrea
Com informações de: relatos de passageiros e respostas da TrensRJ nas redes sociais
Imagem de capa: mensagens publicadas em mensageiros instantâneos e redes sociais
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Um trem do ramal Santa Cruz, que seguia em direção à Central do Brasil, apresentou uma falha técnica na manhã desta quarta-feira (23), nas proximidades da estação Vila Militar, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Segundo relatos obtidos por Trilhos do Rio, a composição permaneceu parada por mais de 40 minutos com passageiros a bordo. Durante esse período, os usuários relatam que não receberam informações suficientes dentro do trem sobre o que havia acontecido, quais providências estavam sendo tomadas ou quanto tempo seria necessário para solucionar a ocorrência.
Comunicação ficou concentrada nas redes sociais
Enquanto os passageiros permaneciam dentro da composição, as informações fornecidas pela TrensRJ, segundo os registros acompanhados por Trilhos do Rio, ficaram concentradas principalmente nas respostas feitas pela empresa no X, antigo Twitter, ainda que de forma insuficiente. Inicialmente, a permissionária informou que “o trem precisará ser atendido” e, diante das reclamações relacionadas à falta de informações, respondeu que iria “notificar para que as informações melhorem”.
Posteriormente, a empresa informou que “esse trem não poderá seguir viagem”, acrescentando que suas equipes estariam tomando as providências necessárias para orientação e auxílio aos passageiros.
A própria formulação das respostas indica que a empresa reconheceu a necessidade de reforçar a comunicação durante a ocorrência. Entretanto, para quem permanecia dentro da composição, a questão central era justamente saber o que estava acontecendo e quais seriam os procedimentos adotados para retirar os passageiros do trem.
Outros trens continuaram passando pela composição
Outro ponto que chamou a atenção dos passageiros foi a continuidade da circulação ferroviária na linha adjacente.
Segundo os relatos recebidos, pelo menos quatro trens passaram pela composição avariada utilizando a outra linha, em direção à Central do Brasil, enquanto os passageiros ainda permaneciam dentro do trem parado. Apesar desta articulação, os trens sofreram atrasos e precisavam aguardar autorização de circulação para passar na via do sentido contrário, que normalmente atende aos trens no sentido Santa Cruz.
A situação, contudo, levanta uma questão operacional importante: quais procedimentos são adotados quando uma composição de passageiros fica imobilizada em trecho entre estações?
Mais de 40 minutos depois, equipes chegam à composição
Após mais de 40 minutos de espera, funcionários chegaram ao trem e começaram a realizar testes na composição. As portas foram destravadas para permitir o desembarque. Segundo os passageiros, algumas delas já haviam sido acionadas anteriormente por usuários que tentavam deixar o trem diante da demora e da ausência de informações.
Em determinado momento, passageiros foram orientados a desembarcar diretamente na via férrea. Para isso, uma pequena escada foi colocada junto à porta de um dos carros. Depois de deixar a composição, os passageiros precisaram caminhar pela linha férrea até a estação mais próxima.
A situação merece atenção porque o desembarque de passageiros em trecho de via não é uma situação corriqueira, agradável e nem desejável. Trata-se de uma operação emergencial que exige coordenação, controle da circulação e orientação adequada, justamente para evitar que pessoas sejam expostas a riscos adicionais.
O procedimento, entretanto, teria sofrido uma mudança poucos minutos depois.
De acordo com os relatos, os funcionários passaram a orientar os passageiros a não desembarcarem mais do trem, enquanto novos testes eram realizados na composição. Durante esses testes, o trem apresentou alguns trancos, situação que provocou apreensão entre os passageiros que ainda estavam dentro dos carros. O episódio acabou intensificando diferentes e adicionais reações físicas e emocionais. Passageiros, desde o início da ocorrência, relataram casos de mal-estar, enjoo e sintomas associados à claustrofobia depois de permanecerem por longo período dentro da composição parada e sem informações claras sobre o que estava acontecendo.
Comunicação também faz parte da segurança
Uma ocorrência técnica pode acontecer em qualquer sistema ferroviário. Falhas de equipamentos, problemas elétricos, defeitos mecânicos e outras ocorrências podem interromper uma viagem mesmo em sistemas submetidos a manutenção e procedimentos operacionais. O que transforma uma ocorrência técnica em uma experiência particularmente angustiante para o passageiro, porém, pode estar relacionado também à maneira como a situação é administrada.
Em uma composição parada entre estações, durante dezenas de minutos, a comunicação passa a ter importância fundamental. O passageiro precisa saber, pelo menos, que a ocorrência foi identificada, quais providências estão sendo tomadas, se há risco imediato, se deverá permanecer dentro do trem e qual será o procedimento para sua retirada. Se o sistema de som, por onde o maquinista poderá informar os passageiros do trem sobre alguma ocorrência, não funciona ou funciona de modo insuficiente, isso também precisa ser averiguado.
No caso relatado nesta quarta-feira, a percepção dos passageiros foi de que essas informações não chegaram de maneira adequada ao interior da composição.
Existe um protocolo para a situação?
O episódio também levanta uma pergunta que permanece sem resposta: qual é o protocolo da TrensRJ para uma composição de passageiros que sofre uma falha no meio da via e permanece impossibilitada de prosseguir viagem?
A pergunta não significa presumir que não exista um procedimento interno. Ao contrário, justamente por se tratar de um sistema ferroviário de transporte de passageiros, é esperado que situações como falha de composição, permanência prolongada de usuários a bordo, necessidade de retirada de passageiros e eventual circulação de outros trens pelo trecho estejam contempladas em procedimentos operacionais e de emergência.
O que precisa ser esclarecido é se o protocolo existente foi aplicado integralmente neste caso e, principalmente, quais eram os procedimentos previstos para comunicação com os passageiros e para o desembarque pela via.
Até o momento, não foi apresentada publicamente pela TrensRJ, nas respostas acompanhadas por Trilhos do Rio, uma explicação detalhada sobre esse procedimento.
E a ocorrência também acontece em um momento no qual a operação ferroviária fluminense vem sendo acompanhada de perto pelo órgão regulador.
A Agetransp mantém fiscalizações sobre o sistema ferroviário operado pela TrensRJ. Em agosto, por exemplo, a agência informou ter realizado fiscalização relacionada à manutenção de um trem envolvido em ocorrência no ramal Santa Cruz, além de outras ações de fiscalização no sistema. Isso não significa, porém, estabelecer qualquer relação automática entre aquelas ocorrências e o episódio desta quarta-feira. Cada caso precisa ser analisado individualmente, com a identificação de sua causa e das medidas adotadas pela operadora. Mas situações que envolvem passageiros permanecendo por longo período dentro de uma composição imobilizada e, posteriormente, sendo orientados a caminhar pela via férrea justificam que sejam esclarecidas de forma objetiva.
E o que aconteceu com o trem?
Até o momento, a informação transmitida pela própria TrensRJ nas redes sociais é de que a composição não poderia seguir viagem e que as equipes estavam realizando as ações necessárias.
Não foram identificados, até o fechamento desta matéria, esclarecimentos públicos detalhados da permissionária em seus canais institucionais sobre:
- a natureza da falha apresentada pela composição;
- o horário em que a equipe de atendimento chegou ao trem;
- o motivo da permanência dos passageiros por mais de 40 minutos;
- os procedimentos adotados para garantir a segurança durante o desembarque;
- a razão pela qual passageiros foram inicialmente orientados a deixar a composição pela via;
- a posterior mudança dessa orientação;
- as condições operacionais da linha adjacente enquanto o trem permanecia parado;
- e o tempo necessário para retirar definitivamente a composição do trecho.
Trilhos do Rio consultou as manifestações públicas da empresa e mantém seu espaço aberto para que a TrensRJ apresente sua versão e esclareça os procedimentos adotados.
O passageiro precisa ser informado
O episódio reforça uma questão que vai além da falha mecânica ou técnica de um trem: o direito do passageiro à informação durante uma ocorrência também faz parte da qualidade e da segurança do serviço ferroviário.
A melhor opção de deslocamento é, via de regra, sobre trilhos. Contudo, é necessário ter eficiência, não apenas ser de conhecimento público que é um meio de transporte eficiente. E todavia uma composição pode apresentar uma falha, como qualquer equipamento. O que não deveria faltar, especialmente durante uma espera prolongada, é comunicação clara.
Informar que o trem está sendo atendido é importante. Explicar o que está acontecendo, o que será feito, quais são as alternativas e o que o passageiro deve fazer é ainda mais importante. Em uma ferrovia de passageiros, segurança não se resume aos trilhos, aos equipamentos e à sinalização. Ela também envolve os procedimentos adotados quando algo sai do planejado — inclusive a forma como as pessoas são orientadas e retiradas de uma composição imobilizada.
O espaço no site e redes sociais Trilhos do Rio permanece aberto para manifestação da TrensRJ e para a divulgação de eventuais esclarecimentos adicionais sobre a ocorrência.
