ESPECIAL: Aduelas da Linha 4 que estão na Leopoldina poderão ir para Japeri
Documentos revelam estudos para transferir temporariamente aduelas armazenadas em Barão de Mauá para uma área em Japeri. Contudo, vistoria no local encontrou moradias ocupando a área e diversos problemas de segurança pública
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Documentos oficiais que integram processos do Sistema Eletrônico de Informações do Governo do Estado do Rio de Janeiro revelam que a Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL) estudou, em agosto de 2026, a possibilidade de transferir parte das aduelas de concreto atualmente armazenadas na área da antiga Estação Barão de Mauá, na Leopoldina, para um terreno localizado nas proximidades da Estação Terminal de Japeri. As peças fazem parte do material remanescente relacionado às obras da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro e permanecem armazenadas há anos na região da Leopoldina. Este material, inclusive, tem sido um obstáculo para o prosseguimento das obras de recuperação da área da antiga estação Barão de Mauá.
O que os documentos revelam, entretanto, não é uma decisão definitiva de transferência, apesar das possibilidades serem, no mínimo, criativas mas surpreendentes: o processo registra uma busca por uma área adequada para armazenamento temporário, seguida de vistoria técnica em Japeri e de uma consulta formal à concessionária TrensRJ sobre a possibilidade de utilização de um terreno conhecido como Área de Deposição de Material Inservível (ADMI), popularmente chamado de “Bota Fora”.

A documentação disponível, contudo, tem sua tramitação interrompida em agosto de 2026, sem indicar se a transferência será efetivamente realizada.
Uma alternativa que surgiu em Japeri
Em 14 de agosto, a Presidência da CENTRAL encaminhou à sua estrutura administrativa uma solicitação para que fosse enviada à TrensRJ a Carta da Presidência da CENTRAL Logística. O objetivo era obter informações atualizadas sobre a disponibilidade da área denominada ADMI, nas proximidades do pátio da Estação Japeri, e a preocupação da CENTRAL era verificar se aquele espaço poderia receber, mesmo que temporariamente, parte ou a totalidade das aduelas atualmente depositadas em Barão de Mauá.

A carta solicitava informações sobre a situação atual do terreno, suas dimensões, condições de conservação, acesso e segurança, além da possibilidade de receber materiais de grande porte. Também questionava se a concessionária teria interesse ou disponibilidade para autorizar a utilização do local e quais seriam as condições necessárias para uma eventual cessão. A consulta ainda procurava identificar eventuais restrições patrimoniais, operacionais, contratuais ou de segurança.
Um detalhe importante é que o próprio documento deixa claro que a iniciativa tinha caráter preliminar e não constituía uma solicitação de cessão definitiva ou autorização imediata para ocupação.

Porém, a escolha de Japeri não surgiu do nada: a documentação recupera informações de uma vistoria realizada em 15 de julho de 2021, quando a área de patrimônio da CENTRAL esteve no local para verificar problemas relatados pela então concessionária SuperVia.
Naquela ocasião, já haviam sido identificados ocupações, acessos irregulares, descarte de resíduos e problemas relacionados ao fechamento e à segurança da área. Esta documentação de 2021 é particularmente relevante porque mostra que os problemas encontrados em 2026 não são necessariamente recentes.

Segundo o relatório técnico produzido naquela época, havia diversos pontos de acesso irregular ao pátio da estação, acúmulo de lixo e entulho e construções irregulares próximas aos trilhos, inclusive na área do desvio associado ao “Bota Fora”.
O documento registra ainda que a equipe técnica conseguiu realizar uma vistoria fotográfica mesmo depois de a SuperVia ter informado dificuldades para produzir seu próprio relatório fotográfico em razão da periculosidade do local.
Falta de controle e ocupações já eram apontadas em 2021
A vistoria de 2021 também registrou uma situação preocupante em relação ao controle da área: os técnicos relataram que tentaram previamente agendar uma vistoria conjunta com a concessionária, sem obter resposta, e acabaram realizando o trabalho sem acompanhamento de agentes de segurança.
O relatório interpretou essa circunstância como indicativa de fragilidade no controle de acesso ao local.

Durante a inspeção, foram identificados diferentes tipos de resíduos e entulho. O documento também registra relatos obtidos junto a funcionários da Prefeitura de Japeri de que moradores do entorno utilizavam a área para descarte de lixo. Além disso, os técnicos registraram vários pontos de acesso irregular ao pátio e construções irregulares próximas aos trilhos, na região do desvio do “Bota Fora”. Na conclusão, o relatório associou as ocupações à facilidade de acesso e à falta de fiscalização e conservação da área.

Ou seja: cinco anos antes de a área voltar a ser considerada como possível depósito para as aduelas, já existia documentação oficial apontando problemas de ocupação, segurança e controle territorial.
A situação encontrada em agosto de 2026
A nova vistoria, realizada em 5 de agosto de 2026, apresentou um cenário que exige atenção: o relatório técnico elaborado pela CENTRAL identificou uma área com aproximadamente 12 mil metros quadrados. Entretanto, foram encontradas residências no interior do terreno, reduzindo a área considerada efetivamente disponível para aproximadamente 6 mil metros quadrados.

Na prática, portanto, metade da área originalmente identificada deixou de ser considerada livre para a finalidade pretendida.
O relatório concluiu que os aproximadamente 6 mil metros quadrados restantes poderiam comportar uma parcela significativa das aduelas, mas ressaltou que seriam necessários estudos complementares de engenharia para determinar a capacidade efetiva de armazenamento e a viabilidade logística da operação.

Esse é um dos aspectos mais preocupantes revelados pela documentação.
Uma área pública ou vinculada à infraestrutura ferroviária que aparece, em documentos oficiais, como potencial local para armazenamento de materiais de grande porte apresenta moradias construídas em seu interior. E não se trata de uma descoberta isolada de 2026: o relatório de 2021 já havia registrado construções irregulares nas proximidades dos trilhos e problemas de acesso ao local.

A nova vistoria demonstra que a situação continuava suficientemente presente em 2026 para reduzir pela metade a área considerada disponível para o armazenamento das aduelas.
Independentemente da situação jurídica de cada construção ou de seus ocupantes — algo que os documentos analisados não detalham — o episódio revela um problema de fiscalização e gestão territorial que merece ser enfrentado pelo poder público e pelos responsáveis pela área. Não é razoável que um terreno potencialmente destinado a atividades relacionadas à infraestrutura ferroviária seja progressivamente ocupado sem que isso seja acompanhado por mecanismos eficazes de controle, fiscalização e planejamento.
Uma ponte ferroviária pode virar acesso para caminhões
A vistoria de agosto também identificou duas possibilidades de acesso ao terreno: uma delas seria utilizar uma abertura existente no muro e uma via lateral que margeia a área.
A outra seria utilizar uma ponte construída com trilhos ferroviários. Neste segundo caso, o relatório é categórico ao recomendar uma avaliação estrutural antes de qualquer utilização para saber se a estrutura precisaria ser capaz de suportar o tráfego de caminhões e equipamentos pesados necessários para transportar e movimentar as aduelas.
Isso demonstra que a eventual transferência não seria simplesmente uma questão de “levar as peças para outro terreno”.
Seria necessário avaliar acesso rodoviário, capacidade estrutural, equipamentos de carga e descarga, organização do pátio, segurança operacional e capacidade de armazenamento.
E quanto à distância até uma futura obra do Metrô?
Existe ainda uma questão logística que merece ser considerada. As aduelas foram originalmente produzidas e utilizadas no contexto das obras da Linha 4 do Metrô. A possibilidade de transferi-las para Japeri pode solucionar, ao menos temporariamente, a questão de espaço ou organização da área da Leopoldina.
Mas, caso parte desse material venha a ser aproveitada no futuro em uma expansão metroviária, haverá uma consequência inevitável: as peças precisarão sair novamente de Japeri e percorrer uma nova distância até o local da obra.
Isso significa acrescentar uma etapa logística intermediária.
Em vez de manter o material próximo a uma área metropolitana que eventualmente possa ter relação com futuras obras metroviárias, a alternativa estudada deslocaria as aduelas para uma região consideravelmente mais distante. E, se houver necessidade de utilização futura, será necessário realizar o caminho inverso.
Essa questão não significa que o armazenamento em Japeri seja necessariamente inviável. A própria vistoria concluiu que o local apresenta potencial.
Mas ela precisa fazer parte da análise de custo-benefício da operação: qual é o custo de retirar as aduelas de Barão de Mauá, transportá-las até Japeri, armazená-las e, posteriormente, eventualmente transportá-las novamente para outra frente de obra?
Também precisam ser considerados os custos de carga e descarga, equipamentos especiais, conservação das peças durante o armazenamento e eventuais riscos de danos decorrentes de movimentações adicionais.
Armazenamento temporário não é uma decisão definitiva
A documentação é cuidadosa ao tratar a proposta como uma possibilidade. A carta encaminhada à TrensRJ afirma expressamente que a consulta tem caráter preliminar. Primeiro seria necessário confirmar se a área está disponível. Depois, verificar sua titularidade, condições de segurança, capacidade, acessos e eventuais restrições.

A própria vistoria de agosto recomenda um estudo técnico detalhado antes de qualquer operação. Portanto, não é correto confirmar que as aduelas serão transferidas para Japeri: o que está comprovado documentalmente é que a CENTRAL avaliou a possibilidade, realizou uma vistoria e encaminhou uma consulta formal à TrensRJ. Mas as chances são grandes de que isso aconteça visto que as obras que estão ocorrendo na área da estação Barão de Mauá, onde estão atualmente as aduelas, demandam urgência de uma solução, para terem prosseguimento.
A tramitação parou em agosto
Outro ponto importante é a situação atual do processo: a documentação disponibilizada registra o envio da Carta CENTRAL/PRESI nº 015/2026 em 17 de agosto, por meio do sistema de comunicação institucional, com solicitação de confirmação de recebimento.
Entretanto, os documentos apresentados para esta reportagem não mostram uma decisão posterior autorizando a utilização da área, tampouco uma determinação para efetivar a transferência das aduelas.
A tramitação disponível, portanto, termina em agosto de 2026.
Não há, nessa documentação, confirmação de que a área tenha sido efetivamente cedida, de que os estudos de engenharia tenham sido concluídos ou de que qualquer aduela tenha sido transportada de Barão de Mauá para Japeri.
Enquanto isso, aguarda-se uma destinação para as aduelas do Metrô
As aduelas da Linha 4 continuam, portanto, inseridas em uma questão maior sobre o aproveitamento e a destinação de materiais ferroviários armazenados na região da Leopoldina. Os documentos de agosto demonstram que houve uma tentativa concreta de encontrar uma alternativa em Japeri, mas não comprovam que essa alternativa tenha sido efetivada. Também permanece em aberto a discussão sobre a conveniência de transportar o material para uma área distante de eventuais futuras frentes de expansão metroviária, sobretudo considerando que uma utilização posterior exigiria nova operação de transporte. Por outro lado, deixar materiais de grande porte indefinidamente armazenados na área da antiga Leopoldina também envolve questões de espaço, segurança, conservação e planejamento.
A solução, portanto, precisa ser baseada em estudos técnicos, logísticos e patrimoniais — e não apenas na disponibilidade momentânea de um terreno.
O caso demonstra novamente que a destinação do patrimônio e dos materiais ferroviários existentes na região da Leopoldina não pode ser tratada apenas como uma questão de liberar espaço. Cada transferência representa uma operação logística, com custos, riscos e consequências para eventual utilização futura. No caso das aduelas, a distância até Japeri e a necessidade de uma eventual segunda transferência devem ser consideradas antes de qualquer decisão definitiva. Ao mesmo tempo, a situação do terreno escolhido revela outro problema: enquanto o Estado procura uma área para armazenar materiais ferroviários, moradias já ocupam parte do terreno que poderia ser utilizado para essa finalidade.

O histórico documental de 2021 e a vistoria de 2026 mostram que a ocupação e a falta de controle não são questões novas.
Se a área realmente pertence ao patrimônio público ou está vinculada a uma infraestrutura ferroviária, é necessário esclarecer sua titularidade, sua destinação e as responsabilidades pela fiscalização. E, se não houver interesse público em sua utilização ferroviária, também deveria existir uma definição transparente sobre sua destinação. O que os documentos revelam, neste momento, é uma questão ainda em aberto: as aduelas sairão de Barão de Mauá? Irão para Japeri? Permanecerão na Leopoldina? Ou será encontrada outra solução?
A documentação disponível em agosto de 2026 ainda não permite responder. O projeto Trilhos do Rio continuará acompanhando a tramitação e, caso novos documentos ou manifestações oficiais sejam disponibilizados, poderá atualizar esta reportagem.
Por Daddo Moreira
Com informações de: documentos oficiais do Sistema Eletrônico de Informações-RJ
Imagem de capa: Relatórios fotográficos da SETRAM e CENTRAL Logística
