Leopoldina, Museu do Trem, Acervo e Patrimônio Ferroviário são temas de fórum promovido pelo IPHAN
Órgão de Proteção Histórica e Artística promoveu encontro em sua sede, no Centro do Rio de Janeiro, na última terça-feira (16)
Com informações da Redação Trilhos do Rio, presente ao evento
Imagem de capa: Daddo Moreira
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), realizou última terça-feira (16), na sede da Superintendência do Rio de Janeiro, o Fórum Técnico sobre Acervo Ferroviário, reunindo pesquisadores, gestores públicos, especialistas em patrimônio, representantes de instituições e associações ferroviárias e agentes culturais para debater o futuro da preservação ferroviária fluminense. O encontro ocorreu no edifício da Avenida Rio Branco, nº 46, no Centro do Rio, e foi marcado por palestras, estudos de caso e discussões sobre patrimônio e memória ferroviária, e reutilização de espaços históricos.

O evento teve início pela manhã com recepção aos participantes e abertura institucional promovida por representantes do órgão federal. Ao longo do dia, foram realizadas diversas apresentações sobre arquivos ferroviários, patrimônio industrial, museologia ferroviária, preservação documental e experiências práticas envolvendo instalações, estações e acervos históricos ligados às ferrovias brasileiras. Como destaques da programação esteve a palestra da pesquisadora Vivian Luiz Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, abordando os arquivos ferroviários e a importância da preservação documental para reconstrução da memória dos sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil. Já Jessica Moraes, da CCPJERJ, apresentou reflexões sobre o legado das oficinas ferroviárias do Engenho de Dentro, incluindo o impacto urbano, social e arquitetônico do antigo complexo ferroviário, que ao longo das décadas impulsionou a formação de bairros operários, vilas residenciais e estruturas educacionais ligadas à atividade ferroviária.



A pesquisadora Lucina Matos, da Fundação Oswaldo Cruz, falou sobre ativação de patrimônio ferroviário e destacou modelos de preservação existentes que possam servir de exemplos ao Museu do trem e futuros outros museus, como os museus dinâmicos operacionais. Durante sua exposição, citou iniciativas de preservação ferroviária que mantêm equipamentos históricos em funcionamento, como a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), e ressaltou a relevância da participação da sociedade civil organizada na conservação do patrimônio ferroviário nacional.

Outro momento importante ocorreu com a palestra de Annibal Magalhães, do INEPAC, que apresentou pesquisas desenvolvidas em cidades históricas do Vale do Paraíba Fluminense, como Valença, Rio das Flores e Vassouras, abordando o patrimônio ferroviário regional e a relação das antigas linhas férreas com o desenvolvimento econômico do interior fluminense.


Após um intervalo e o retorno das atividades na parte da tarde, foram apresentados estudos de caso relacionados ao patrimônio ferroviário do Rio de Janeiro. Um dos temas abordados foi a chamada “Praça do Trem”, localizada no entorno do Estádio Nilton Santos, no bairro do Engenho de Dentro. Técnicos do IRPH detalharam o processo de preservação parcial do antigo complexo ferroviário das Oficinas do Engenho de Dentro, explicando como o espaço passou por transformações urbanas ao longo das obras relacionadas aos Jogos Pan-Americanos e posteriormente às Olimpíadas. As apresentações destacaram que a maior parte do antigo conjunto ferroviário foi demolida ao longo dos anos, mas alguns galpões e edificações históricas acabaram preservados após articulações técnicas realizadas durante o planejamento urbano da região. A intenção era, de fato, demolir todas as estruturas pertencentes às antigas Oficinas de Locomoção do Engenho de Dentro, um grandioso Complexo de Manutenção Ferroviária, mas os técnicos do IRPH conseguiram preservar o espaço, que atualmente funciona como área pública de convivência, recebendo eventos culturais, encontros comunitários e atividades recreativas, sendo apontado pelos participantes como um exemplo relevante de reutilização urbana associada à preservação patrimonial.


Também foram discutidas possibilidades futuras para ampliação das atividades culturais no local, incluindo ações de educação patrimonial e maior integração com iniciativas ferroviárias e museológicas da cidade.
Posteriormente o tema debatido foi a Estrada de Ferro e Estação Leopoldina. A equipe técnica do INEPAC, responsável por esta palestra, apresentou aspectos históricos e memórias, inclusive pessoais, do funcionamento e da importância da Leopoldina no passado, com o transporte metropolitano e regional de passageiros.

O evento sofreu atrasos em seu cronograma, e aproximadamente 1h depois do horário programado teve início uma roda de conversa e sessão de comentários e perguntas sobre os temas abordados durante o dia. Antes, porém, do início da participação do público presente (o auditório estava praticamente com todos os lugares ocupados) a superintendente do IPHAN fez um depoimento e declaração sobre a motivação e intenção do fórum técnico: em 2027 se completa 20 anos da criação da Lei 11483, de 31 de maio de 2007. Esta lei estabeleceu que a União sucederia a RFFSA nos direitos e obrigações, e os bens imóveis da extinta RFFSA seriam transferidos para a União. Com isso, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) passou a ser o responsável pela administração dos bens de valor histórico e cultural oriundos da RFFSA, incluindo locomotivas, outros bens móveis e imóveis, dentre outros itens inventariados.

A superintendente também explicou sobre um possível futuro do Museu do Trem: segundo ela o IPHAN, como todos sabemos, carece de investimentos que possam ajudar o órgão a promover mais ações na área de preservação histórica. Contudo, relatou que existe uma verba direcionada para a reabertura do espaço que, contudo, ainda depende de alguns trâmites. Ultimamente, como atestado por membros Trilhos do Rio desde o começo de 2026, estão sendo feitos serviços pontuais de manutenção do Museu e terreno, como pintura, hidráulica e elétrica. Durante uma das palestras, inclusive, foi mencionado algo que é necessário para o museu, que seria se tornar mais dinâmico e atrativo tanto para a coletividade local como os visitantes regionais: o horário de funcionamento precisa ser ampliado (antigamente era de terça a sexta-feira de 11h às 15h!) e as atrações podem ser melhor aproveitadas e expostas. Intervenções modernas também foram sugeridas e bem vistas como futuras implementações, com o uso de tecnologias informativas e acessibilidade.

Outro assunto amplamente debatido neste espaço aberto ao público foi a situação do acervo ferroviário existente na histórica Estação Barão de Mauá, também conhecida como Estação Leopoldina. Técnicos e participantes discutiram desafios envolvendo preservação, restauração, uso futuro do complexo ferroviário e possibilidades de aproveitamento cultural do espaço, atualmente em processo de estudos e articulações institucionais. O uso do prédio da estação, sugerido anteriormente, não está confirmado, tendo assim, e ainda, a possibilidade de alguns espaços serem usados e mais voltados à preservação histórico-ferroviária. Um Grupo de Trabalho poderá ser criado para diálogos e propostas neste sentido. Sendo assim, o encontro demonstrou preocupação conjunta entre órgãos públicos, especialistas e instituições de preservação ferroviária quanto à necessidade de planejamento adequado para recuperação e reutilização do patrimônio ferroviário histórico fluminense.
Por fim, outro dos pontos mais comentados pelos presentes foi o caráter promissor da iniciativa promovida pelo IPHAN. Durante o debate aberto, promovido próximo do final do evento, diversos representantes de instituições fizeram perguntas e teceram comentários sobre a iniciativa e perspectivas futuras. Os participantes elogiaram também a abertura ao diálogo técnico e institucional, especialmente após anos sem fóruns permanentes voltados exclusivamente à preservação ferroviária no estado do Rio de Janeiro. Segundo avaliações informais feitas durante o encontro, o fórum demonstrou potencial para se tornar um importante espaço de articulação entre pesquisadores, órgãos públicos, instituições culturais e entidades ferroviárias. O evento reforçou ainda a crescente percepção de que a preservação ferroviária vai além da simples conservação de prédios e equipamentos históricos, envolvendo também memória social, identidade urbana, desenvolvimento cultural, turismo e ocupação qualificada de espaços públicos ligados à história dos transportes no Brasil.
