Aduelas do Metrô ainda são um grave impasse para as obras na estação Barão de Mauá
Impasse das aduelas da Linha 4 expõe inércia estatal e risco de novo entrave judicial no Rio
Documentos oficiais do Governo do Estado do Rio de Janeiro revelam que o caso das aduelas da Linha 4 do metrô, armazenadas no terreno da histórica Estação Barão de Mauá, evoluiu de um problema técnico conhecido para um impasse administrativo marcado por demora, sucessivos encaminhamentos internos e, agora, alegações de impossibilidade de cumprimento judicial.
O material — essencial para a expansão metroviária — tornou-se peça central em uma disputa que envolve o cumprimento de decisões da Justiça Federal e a requalificação do complexo ferroviário.
Uma obrigação que se arrasta desde 2022
O caso ganha força a partir de dezembro de 2022, quando a Central Logística é formalmente intimada pela 20ª Vara Federal do Rio de Janeiro a adotar providências no âmbito da ação civil pública que trata da recuperação da Leopoldina. Entre as determinações, estava a desocupação da área ocupada pela chamada Fábrica de Aduelas, além da retirada de diversos bens.
Internamente, os documentos mostram que o tema foi classificado como urgente ainda naquele momento. No entanto, o que se seguiu foi uma longa sequência de despachos, consultas técnicas e remessas entre setores administrativos, sem uma solução prática efetiva.
O problema era conhecido — mas não resolvido
Ainda no início de 2023, pareceres técnicos já apontavam que a remoção das aduelas seria uma operação altamente complexa. Produzidas para a construção dos túneis da Linha 4, as peças — cerca de 700 conjuntos, totalizando aproximadamente 5.600 anéis de concreto — estão organizadas conforme a sequência de montagem, o que dificulta qualquer deslocamento.
Além disso, estudos indicavam a necessidade de um terreno com cerca de 62 mil metros quadrados, com localização estratégica compatível com a futura utilização das peças, especialmente na região da Gávea.
Apesar do diagnóstico precoce, a solução não avançou. Registros administrativos indicam que nenhum terreno adequado foi identificado pelo Estado, e tampouco houve previsão orçamentária para custear uma operação dessa magnitude.
Entre o custo e a contradição
A situação se torna ainda mais sensível diante da intenção do próprio Estado de retomar as obras da Linha 4. Técnicos já alertavam que remover as aduelas poderia gerar um cenário paradoxal: retirá-las agora, com alto custo, para depois transportá-las novamente ao local de uso.
Essa duplicidade de esforço e gasto público passou a ser utilizada como argumento central nos processos internos, reforçando a resistência à desmobilização imediata.
Tempo passou — e o problema se agravou
Ao longo de 2023, a Justiça passou a pressionar por respostas concretas, exigindo a apresentação de um cronograma para destinação das aduelas e demais bens. Ainda assim, os autos revelam que o processo seguiu marcado por idas e vindas entre órgãos como a Riotrilhos, a Secretaria de Transportes e a própria Central.
No fim daquele ano, uma decisão judicial chegou a suspender temporariamente a obrigação de desocupação imediata da fábrica de aduelas, o que, na prática, reduziu a pressão sobre o Estado e contribuiu para a manutenção do cenário de indefinição.
Em 2024, manifestações internas chegaram a apontar que, diante da suspensão judicial, “não havia providências a serem tomadas” naquele momento. Em 2025 o site Trilhos do Rio noticiou sobre o problema, e o dilema perdura:
Aduelas para a Linha 4 do Metrô são motivos de impasse em terreno ao lado da estação Barão de Mauá
2026: urgência reaparece — com risco jurídico
O cenário muda novamente em 2026. Com novo prazo judicial se encerrando em março, a questão retorna ao centro das atenções. Em ofício recente, a Casa Civil do Estado cobra atuação conjunta da Secretaria de Transportes, da Central e da Riotrilhos para cumprir a decisão judicial.
O documento é direto: caso a remoção não seja possível, será necessário apresentar justificativas técnicas e jurídicas robustas que comprovem a impossibilidade de desmobilização da Fábrica de Aduelas, com apoio da Procuradoria Geral do Estado.
Na prática, trata-se de um reconhecimento implícito de que o Estado pode não conseguir cumprir uma obrigação judicial que já se arrasta há anos.
O dilema permanece
O caso das aduelas da Linha 4 sintetiza um problema estrutural: a dificuldade de articulação entre planejamento, execução e cumprimento de decisões judiciais em projetos de grande escala.
De um lado, há a necessidade de liberar a área da Leopoldina para sua requalificação. De outro, um passivo logístico e financeiro que não foi enfrentado no momento oportuno e que agora se apresenta como obstáculo concreto.
O resultado é um impasse em que o tempo, longe de resolver o problema, parece ter apenas elevado o custo — técnico, financeiro e jurídico — de qualquer solução possível.
