RFFSA: uma verdade inconveniente nunca dita
Por Mozart Rosa
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Existe, no Facebook, uma série de grupos sobre ferrovias dos quais participam admiradores do tema. Infelizmente, porém, a maioria dessas pessoas pouco ou nada conhece efetivamente do setor ferroviário; gostam dele a partir de uma memória afetiva. E cultuam aquela que, na imaginação delas, seria o ápice das ferrovias, segundo elas, a alma mater do setor: a RFFSA.
Sentem falta daquilo que nunca viveram. Chesterton, o proeminente escritor inglês, explica isso.

A grande maioria nunca viveu as agruras causadas ao setor pela RFFSA, nunca entrou no prédio-sede da empresa e desconhece a realidade do que foi a RFFSA e o que ela representou para o desastre do setor ferroviário brasileiro.
É risível ver pessoas que se dizem conhecedoras do setor escrevendo textos ou fazendo vídeos nos quais nunca atribuem à RFFSA responsabilidade pela destruição do setor. Algumas, inclusive, exaltam-se diante das críticas feitas a essa empresa.
A realidade da RFFSA era bem diferente do que muitos imaginam. O desenho abaixo retrata uma situação real. Embora seja uma imagem gerada por IA, representa uma cena recorrente no passado, em alguns andares do prédio-sede da RFFSA: era corriqueiro ver ninguém trabalhando, apenas conversando; havia paletós deixados sobre cadeiras, enquanto seus respectivos donos se dedicavam a atividades que nada tinham a ver com a empresa.

Peço desculpas pelo tom contundente, até vulgar, que adotarei, mas a gravidade do tema exige uma refutação direta. Para mostrar o que foi a RFFSA e confrontar as interpretações daqueles que ainda a defendem, descreverei uma cena hipotética, bastante dura, que evidencia as consequências da visão idealizada que muitos têm dessa empresa.
Imaginem a seguinte cena: um cidadão fica preso em uma cela, por determinado período, sozinho com alguém parecido com Kid Bengala. Depois de libertado, faz declarações dizendo que ele era uma boa pessoa e que sente muita falta dele.

A cena mistura graça e vulgaridade, mas tenta ilustrar o sentimento que muitos têm pela RFFSA: uma empresa fracassada, que pouco acrescentou ao desenvolvimento do Brasil ou do setor ferroviário e que era um elefante branco com um número absurdo de funcionários.
Essas pessoas que a exaltam certamente nunca leram um único balanço da empresa nem conheceram seus bastidores. Certamente não sabem que ela teve um dos maiores quadros de funcionários da história do Brasil e que inúmeras ferrovias espalhadas pelo país, especialmente as de bitola métrica, foram extintas devido à incapacidade financeira da RFFSA de investir nelas.
A extinção da E. F. Cantagalo e da linha da E. F. Leopoldina que chegava a Petrópolis são os maiores exemplos disso. Vejam fotos dessas ferrovias nas décadas de 1950 e 1960. Observem que ainda se usavam locomotivas a vapor nesses trechos, e isso nada tinha a ver com nostalgia, mas com a incapacidade financeira de comprar locomotivas a diesel com cremalheiras para operar nessas linhas.
Poderíamos falar também da linha que ia para Campos, com vagões sujos e vidros das janelas quebrados, e da imposição da RFFSA de seu monopólio, que impediu o governo do Estado do Rio na época de assumir o trecho daquela ferrovia, existente dentro dos municípios de Niterói e São Gonçalo.
Ninguém conhece a real história que envolveu a construção da Ferrovia do Aço e o quanto ela custou, leiam sobre isso na página Trilhos do Rio. É algo escabroso, acreditem.
Infelizmente, essa falta de conhecimento criou uma horda de adoradores da RFFSA, e isso é péssimo para qualquer proposta séria de retorno das ferrovias.

Acordem, por favor. Para que o setor volte, é preciso seriedade, não sonhos utópicos. É doloroso ver pessoas dizendo que o retorno do setor passa pela volta da RFFSA, ou como sentem falta dela. Nada mais insano.
É doloroso ver pessoas orgulhosas de dizer: “Sou RFFSA”. Que coisa mais descabida e imatura.
Trilhos do Rio mantém, em sua página, uma série de artigos que mostram os motivos da decadência do setor. Pesquisem. Apresentamos fatos, apenas fatos.
Obrigado pela eventual atenção.
