Retirada de material em terreno e plataformas da estação Barão de Mauá poderá ser concluída somente em 2027

Retirada de material em terreno e plataformas da estação Barão de Mauá poderá ser concluída somente em 2027

Com informações do Sistema Eletrônico de Informações – Governo do estado do RJ
Imagem de capa: Daddo Moreira (2021)

A complexa situação envolvendo a desocupação do terreno da histórica Estação Barão de Mauá, também conhecida como Estação Leopoldina, segue sem solução definitiva e pode se arrastar até 2027. Documentos obtidos pelo projeto Trilhos do Rio revelam um cenário marcado por disputas judiciais, dificuldades logísticas, ausência de áreas disponíveis para remanejamento de materiais e incertezas sobre o destino de patrimônios ferroviários históricos armazenados no local.

O processo tramita parcialmente sob segredo de justiça e envolve órgãos federais e estaduais, além da atual operadora ferroviária SuperVIA, a CENTRAL Logística, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, o Ministério Público Federal e o IPHAN.

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O que está em jogo na Estação Leopoldina

No centro da controvérsia estão dois grandes conjuntos de materiais armazenados na área da Leopoldina:

  • As aduelas de concreto fabricadas para a expansão da Linha 4 do metrô;
  • Vagões, locomotivas, bondes e outros materiais ferroviários históricos, incluindo bens protegidos pelo patrimônio cultural.

A discussão ocorre no âmbito do cumprimento provisório de sentença de uma ação civil pública iniciada ainda em 2013, que cobra medidas de recuperação e reestruturação física do complexo ferroviário da Leopoldina.

Desde dezembro de 2022, sucessivos despachos e manifestações técnicas apontam que a retirada desses materiais enfrenta obstáculos considerados “praticamente intransponíveis” por setores da própria administração pública.

Aduelas da Linha 4 se tornaram um problema estrutural

Um dos pontos mais delicados envolve as chamadas aduelas — enormes peças de concreto pré-moldado produzidas para escavações da Linha 4 do metrô. Segundo documentos técnicos anexados ao processo, existem atualmente 834 conjuntos de aduelas armazenados no terreno da Leopoldina, totalizando 6.672 peças. Cada conjunto possui oito segmentos, alguns pesando entre 8 e 10 toneladas.

A situação se tornou ainda mais sensível após manifestação técnica indicando que as obras atuais da Estação Gávea estão sendo executadas pelo método NATM, sistema construtivo baseado em escavação convencional com explosões controladas, sem utilização dessas peças. Na prática, isso significa que as aduelas atualmente estocadas não possuem previsão de uso. Além disso, a remoção é classificada como sendo extremamente difícil. Técnicos apontam que seria necessário encontrar um terreno com cerca de 62 mil metros quadrados, com capacidade estrutural para suportar milhares de toneladas de concreto e logística compatível com transporte pesado.

Documentos internos também revelam que o próprio Estado informou não possuir imóvel público disponível com essas características.

Além disso, relatórios recentes estimam que apenas a operação de retirada das aduelas pode levar entre 180 e 360 dias, dependendo das condições operacionais e da contratação de estruturas especializadas.

Patrimônio ferroviário histórico também trava processo

Outro fator decisivo envolve os vagões, locomotivas e bondes antigos armazenados na Leopoldina. Parte desse acervo pertence à União Federal e está sob gestão do IPHAN. Embora nem todos os bens sejam formalmente tombados, os documentos revelam intenção de preservação e restauração futura. Contudo, em manifestação técnica de março de 2023, o próprio IPHAN classificou como “impossível” a remoção imediata do material rodante.

Segundo o órgão, o estado de conservação das peças impediria transporte seguro sem risco de colapso estrutural durante a movimentação. O instituto cita necessidade de:

  • estabilização estrutural;
  • desmontagem parcial de composições;
  • utilização de guindastes especiais;
  • carretas de grande porte;
  • elaboração prévia de rotas logísticas;
  • contratação de operações multimilionárias.

Outro problema histórico agrava a situação: os trilhos que anteriormente permitiam acesso ferroviário à Leopoldina foram removidos durante as obras de implantação de edificações pertencentes ao Tribunal de Justiça, segundo informações, inviabilizando qualquer retirada ferroviária convencional na direção de São Cristóvão, em trecho atualmente operacional com os trens da SuperVIA.

Decisões judiciais e suspensão parcial

O processo ganhou novos capítulos ao longo de 2023 e 2024. Em setembro de 2023, após audiência judicial, foi determinado que Estado e CENTRAL apresentassem cronograma para retirada das aduelas e demais bens armazenados na estação. Entretanto, em dezembro daquele ano, uma decisão em agravo de instrumento suspendeu parcialmente a ordem de desocupação imediata da chamada “Fábrica de Aduelas”.

Já em maio de 2026, novos despachos judiciais voltaram a exigir planos emergenciais para retirada dos materiais.

Em resposta, áreas técnicas da administração pública solicitaram formalmente prazo de até 300 dias apenas para remoção dos bens de grande porte, alegando ausência de orçamento, necessidade de planejamento especializado e entraves técnicos fora do controle direto dos órgãos envolvidos.

Entre preservação e abandono

O caso evidencia um impasse delicado entre preservação patrimonial, responsabilidade judicial, limitações financeiras e dificuldades operacionais. Enquanto o Ministério Público Federal cobra medidas concretas de recuperação da Estação Leopoldina, órgãos técnicos alertam que uma remoção precipitada pode provocar danos irreversíveis justamente aos bens históricos que se busca preservar.

Também chama atenção o fato de que, até o momento, não exista qualquer projeto ativo de expansão metroviária que utilize as aduelas armazenadas no local.

Com isso, a área permanece ocupada por milhares de toneladas de concreto e por acervos ferroviários históricos abandonados e cada vez mais deteriorados, enquanto a recuperação plena da histórica Estação Barão de Mauá continua indefinida, visto que o processo sofreu atrasos e não será reinaugurada em 2026, ano de seu centenário.

O projeto Trilhos do Rio seguirá acompanhando o andamento do processo e a eventual divulgação de novos documentos, decisões judiciais e manifestações técnicas relacionadas ao futuro da Leopoldina e de seu patrimônio ferroviário histórico.

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