Linha 3 do Metrô tem projeto apresentado pela COPPE/UFRJ e recebe críticas positivas e negativas
Projeto é atualizado e apresentado com novo traçado, mais estações, e abrangência de atendimento aos passageiros 98% maior que projetos anteriores
Com informações da COPPE/UFRJ
Imagem de capa: Carlos Welbert – Unicast Digital / Divulgação COPPE
Um novo estudo técnico apresentado pela COPPE/UFRJ reacendeu o debate sobre a implantação da chamada Linha 3 do Metrô do Rio de Janeiro, projeto ferroviário que há décadas aparece em planos de mobilidade da Região Metropolitana, especialmente para conectar os municípios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí à capital fluminense. A proposta foi apresentada oficialmente no dia 1º de junho de 2026, dentro do projeto Prisma-RJ, desenvolvido por pesquisadores do Programa de Engenharia de Transportes da universidade. Segundo os responsáveis pelo estudo, o novo traçado poderá beneficiar cerca de 1,7 milhão de pessoas e criar um novo eixo estruturador de desenvolvimento urbano, econômico e social para o leste metropolitano.
O projeto prevê uma linha de aproximadamente 50 quilômetros de extensão e 29 estações, ligando regiões estratégicas da capital e dos municípios do outro lado da Baía de Guanabara. Entre os pontos contemplados estão o Largo da Carioca e o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro; bairros como Icaraí, Santa Rosa e Barreto, em Niterói; além de áreas densamente povoadas de São Gonçalo e Itaboraí. Segundo os pesquisadores, um dos principais diferenciais do novo traçado seria justamente a ampliação da população atendida. O estudo afirma que o número de moradores localizados a até 400 metros das futuras estações praticamente dobraria em relação a projetos anteriores da Linha 3.
A proposta, no entanto, já começa a gerar intensos debates entre especialistas em mobilidade urbana, engenheiros ferroviários, pesquisadores e técnicos do setor metroferroviário.
Traçado mais abrangente divide opiniões técnicas
Entre os pontos mais elogiados do novo estudo está a tentativa de aproximar o metrô de regiões com alta densidade populacional e significativa demanda reprimida por transporte de massa. Historicamente, São Gonçalo aparece entre os municípios brasileiros com maior população sem atendimento de um transporte público coletivo de alta capacidade. O novo traçado busca justamente atravessar bairros densamente ocupados não apenas desta cidade, mas também de Niterói, ampliando o potencial de passageiros e o acesso ao sistema metroviário.
Pesquisadores envolvidos no debate apontam que o projeto possui mérito ao tentar transformar o metrô em instrumento de desenvolvimento urbano integrado, e não apenas em uma ligação rápida entre municípios. Por outro lado, justamente essa tentativa de ampliar o atendimento territorial acabou gerando críticas técnicas relevantes. Especialistas observam que o traçado apresentado possui elevado grau de sinuosidade, com muitas curvas e desvios em relação a propostas anteriores, o que pode reduzir a velocidade operacional média do sistema.
Na prática, embora mais bairros sejam atendidos diretamente, o percurso poderá se tornar menos competitivo em termos de tempo de viagem caso fosse um percurso menos sinuoso. Alguns técnicos do setor defendem que um traçado mais retilíneo, aliado a sistemas eficientes de integração física e tarifária com ônibus, barcas e outros meios de transporte, poderia transportar volumes semelhantes de passageiros com custos de construção e operacionais menores, e viagens mais rápidas.
Quantidade de estações também gera questionamentos
Outro ponto bastante debatido é o número de estações previsto no estudo. Os 50 quilômetros de extensão seriam distribuídos em 29 estações, quantitativo significativamente superior ao de propostas anteriores para a Linha 3.
Na avaliação de especialistas em operação metroviária, o excesso de paradas pode impactar diretamente:
- a velocidade comercial;
- o tempo de viagem ponta a ponta;
- o consumo energético;
- e os custos operacionais do sistema.
Por outro lado, outros técnicos, além de defensores do projeto, argumentam que a maior capilaridade aumenta o potencial de integração urbana e democratiza o acesso ao metrô, aproximando o sistema de áreas historicamente excluídas da infraestrutura ferroviária.
As estações contempladas neste projetos seriam:
Rio de Janeiro:
- Carioca
- Aeroporto Santos Dumont
Niterói:
- UFF (Universidade Federal Fluminense)
- Praça do Rink
- Icaraí
- Santa Rosa
- Noronha Torrezão
- Alameda São Boaventura
- Colégio Pedro II
- Barreto
São Gonçalo:
- Neves
- Village
- Paraíso I
- UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)
- Zé Garoto
- Antonina
- Prefeitura de São Gonçalo
- Alcântara
- Vila Três
- HCCOR (Hospital do Câncer e do Coração)
- Vista Alegre
- Marambaia
Itaboraí:
- Apolo
- Manilha
- Itaboraí Plaza
- BR-101
- Arena Rua 100
- Centro de Itaboraí
- Venda das Pedras

Alguns pontos neste novo traçado, contudo, merecem ser ressaltados e foram bastante elogiados e debatidos nos últimos dias. A criação de uma estação no Aeroporto Santos Dumont é uma ótima proposta, visto que FINALMENTE um aeroporto de grande movimentação de passageiros seria atendido por um meio de transporte de alta capacidade. A conexão com a estação Carioca, já existente e atendida pelas Linhas 1 e 2 do Metrô atualmente, é outro ponto a se destacar, apesar de estar prevista há muitos anos. O fato de alcançar a região de Icaraí e Santa Rosa – regiões densamente povoadas – também foi elogiada, apesar de receber opiniões contrárias pelo fato da sinuosidade do trajeto ter início exatamente neste ponto, como criticado por algumas pessoas. E, por fim, algo que chamou a atenção também é a diferença de percurso dos antigos projetos, que sugeriam seguir pelo antigo leito ou faixa de domínio ferroviário entre Niterói e Itaboraí, que inclusive, não teria mais a estação terminal em Visconde de Itaboraí, mas em Venda das Pedras, e contaria com outras e mais estações em relação às propostas anteriores.
Sistema subterrâneo pode elevar custos da obra
Outro dos pontos mais discutidos é o fato de o novo projeto prever implantação integralmente subterrânea.
Embora especialistas reconheçam que túneis apresentam melhor adaptação ao ambiente urbano consolidado — especialmente em áreas densas como Niterói e São Gonçalo — há preocupação com o impacto financeiro da solução adotada. Pesquisadores e profissionais do setor lembram que estudos apresentados no passado, especialmente a partir de 2008, trabalhavam com alternativas elevadas ou parcialmente elevadas para a Linha 3.
Na época, chegaram a ser discutidos:
- metrô pesado elevado;
- monotrilho;
- e soluções híbridas.
Esses modelos poderiam reduzir substancialmente os custos de implantação quando comparados a um sistema totalmente subterrâneo.
A nova proposta, contudo, prioriza a inserção urbana e a redução de impactos visuais e territoriais, ainda que isso possa elevar significativamente os investimentos necessários.
Uso de catenária poderá isolar a Linha 3 do restante do metrô
Outro aspecto técnico que chamou atenção no estudo é a adoção de alimentação elétrica por catenária. Hoje, o sistema metroviário do Rio de Janeiro opera predominantemente com terceiro trilho. A adoção de catenária na Linha 3 criaria uma padronização diferente do restante da malha.
Técnicos e pesquisadores apontam que isso pode trazer consequências importantes:
- impossibilidade de compartilhamento operacional com outras linhas;
- necessidade de frota exclusiva;
- manutenção específica;
- maior complexidade logística;
- e redução da interoperabilidade futura.
Na prática, a Linha 3 poderia funcionar quase como um sistema independente dentro da própria rede metroviária.
Defensores da solução argumentam, entretanto, que a catenária possui vantagens técnicas em determinados cenários, especialmente em linhas mais longas e com características próximas de sistemas ferroviários metropolitanos modernos.
Projeto busca integrar mobilidade e desenvolvimento urbano
Apesar das divergências técnicas, existe consenso entre muitos especialistas de que o estudo apresentado pela Coppe representa um avanço importante na retomada do debate sobre mobilidade estrutural na Região Metropolitana.
O coordenador do projeto destacou que o objetivo vai além do transporte de passageiros.
Segundo os pesquisadores, a Linha 3 foi concebida como um eixo de desenvolvimento urbano capaz de:
- estimular atividades econômicas;
- fortalecer centralidades urbanas;
- ampliar acesso ao emprego;
- reduzir desigualdades territoriais;
- e incentivar políticas de ocupação urbana mais integradas ao transporte de massa.
O estudo recebeu cerca de R$ 26 milhões em recursos oriundos de emendas parlamentares da bancada fluminense no Congresso Nacional.
Viabilidade financeira ainda deverá ser debatida
Apesar do avanço técnico do estudo, especialistas ressaltam que a implantação da Linha 3 ainda depende de questões fundamentais:
- definição do modelo de financiamento;
- participação estadual e federal;
- viabilidade econômica;
- demanda consolidada;
- engenharia geológica;
- desapropriações;
- e integração metropolitana efetiva.
O histórico recente de grandes obras de mobilidade no Rio de Janeiro também gera cautela no setor. Além disso, o Governo Estadual encontra-se, ainda, em situação bastante delicada em se falando de questões financeiras, e não tem, nem terá a curto prazo, capacidade de investimentos vultuosos para projetos de semelhante envergadura. Portanto, a criação, atualização, e apresentação de estudos neste sentido são sempre válidos, porém a parte de execução é prejudicada por questões alheias aos estudos propostos.
Ainda assim, o surgimento de um novo estudo detalhado recoloca a Linha 3 no centro das discussões sobre o futuro da mobilidade metropolitana fluminense.
A equipe Trilhos do Rio continuará acompanhando os desdobramentos técnicos, políticos e institucionais relacionados ao projeto da futura Linha 3 do Metrô do Rio de Janeiro, considerada quase uma lenda urbana na história do estado, mas que ganha fôlego com estudos e propostas apresentadas.

1 Comentário
Os Comentários estão Encerrados.