Expansão do metrô da Barra ao Recreio ainda está distante, prevista no planejamento até 2045

Expansão do metrô da Barra ao Recreio ainda está distante, prevista no planejamento até 2045

Extensão da Linha 4 até o Terminal Alvorada e o Recreio dos Bandeirantes é apontada como uma das principais soluções para a mobilidade da Zona Sudoeste, mas ainda depende de estudos, projetos, licenciamento e recursos para sair do papel

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A extensão da Linha 4 do MetrôRio do Jardim Oceânico até o Recreio dos Bandeirantes, passando pelo Terminal Alvorada, continua sendo uma promessa de longo prazo para a Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. Embora o projeto esteja contemplado no Plano Diretor Metroviário (PDM), com horizonte de planejamento até 2045, a ligação ainda precisa percorrer uma extensa sequência de etapas antes de eventualmente se transformar em obra. Estudos de demanda, engenharia, modelagem econômico-financeira, definição do modelo de implantação e obtenção dos recursos necessários estão entre os desafios que precisam ser enfrentados pelo Governo do Estado.

A necessidade de ampliar a rede metroviária para além do atual terminal da Linha 4, no Jardim Oceânico, entretanto, permanece presente no cotidiano de milhares de moradores da Barra da Tijuca e do Recreio. A percepção de que o sistema atual atende apenas parcialmente à região também apareceu em uma enquete realizada pelo GLOBO-Barra, na qual a expansão do metrô foi a alternativa mais votada para responder à pergunta sobre qual seria a necessidade mais urgente da Barra da Tijuca. A opção recebeu 29,73% dos votos, enquanto investimentos em obras para melhorar o trânsito ficaram em segundo lugar, com 17,69%. Somadas, as duas alternativas alcançaram 47,42% das preferências.

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Jardim Oceânico é apenas o início da ligação metroviária com a Zona Sudoeste

A chegada da Linha 4 ao Jardim Oceânico representou uma transformação importante na mobilidade da Barra da Tijuca, especialmente depois da abertura do trecho para os Jogos Olímpicos Rio 2016. O problema é que, para uma região que continuou crescendo e concentrando moradores, empresas, estabelecimentos comerciais e equipamentos urbanos, o atual traçado ainda representa uma cobertura limitada.

A situação pode ser percebida na rotina de moradores que precisam utilizar o metrô, mas dependem de outro modal para alcançar a estação. É o caso relatado na reportagem original por Lucas Saldanha, morador próximo ao Terminal Alvorada e estudante no Maracanã. Para chegar ao metrô, ele precisa utilizar o BRT e percorrer o trecho entre o entorno do terminal e o Jardim Oceânico. Segundo seu relato, os problemas de lotação e irregularidade dos intervalos tornam especialmente difícil o deslocamento nos horários de maior movimento.

A integração entre os sistemas, portanto, já existe, mas a discussão sobre a expansão da Linha 4 parte justamente da avaliação de que o transporte de alta capacidade poderia chegar mais próximo das áreas de maior concentração populacional. O próprio Plano Diretor Metroviário considera a extensão Jardim Oceânico–Alvorada–Recreio dos Bandeirantes como parte da expansão planejada da rede. Documentos estaduais também registram a previsão de estudos e projetos para esse prolongamento.

Terminal Alvorada é considerado ponto estratégico da expansão

O Terminal Alvorada ocupa posição central na proposta. A ideia não é simplesmente acrescentar estações ao final da Linha 4, mas transformar o terminal em um importante ponto de integração entre o metrô e outros meios de transporte. Em junho de 2025, durante a apresentação de uma nova proposta de expansão metroviária do Estado, o Governo do Rio voltou a incluir a extensão da Linha 4 até o Recreio entre os projetos estratégicos da rede.

Na ocasião, o Estado estimou em R$ 9,8 bilhões o custo da expansão entre o Jardim Oceânico e o Recreio dos Bandeirantes. A apresentação fazia parte de um pacote maior, que também incluía a ligação Estácio–Praça XV e a implantação da Linha 3 entre o Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo. Segundo a Prefeitura do Rio, que participou da apresentação, o conjunto do projeto tinha investimento estimado em R$ 28,8 bilhões, com 31 novas estações e 44 quilômetros adicionais de trilhos.

O valor, entretanto, não deve ser confundido com um orçamento de obra já contratado. Trata-se de uma estimativa apresentada dentro de uma proposta de expansão que ainda depende de estudos e da definição das formas de financiamento e execução. Essa distinção é fundamental para compreender por que uma extensão prevista em planejamento não significa, necessariamente, que sua construção esteja garantida.

Estudos ainda são necessários antes da construção

A principal questão levantada por especialistas é justamente a necessidade de comprovar a demanda e estabelecer a melhor solução para a região. Professores ligados à Coppe/UFRJ citados na reportagem avaliam que o metrô pode ser uma alternativa importante para reduzir os tempos de deslocamento, mas defendem cautela antes da definição de um projeto de grande porte.

A discussão é especialmente relevante porque o prolongamento até o Recreio envolve uma intervenção subterrânea de grande extensão. O professor Rômulo Orrico, conforme relatado pelo GLOBO, chama atenção para a dimensão do empreendimento e para a necessidade de verificar se o deslocamento entre o Jardim Oceânico e o Recreio representa, de fato, a prioridade para a demanda da Zona Sudoeste.

O próprio Governo do Estado reconhece que a expansão não pode ser definida apenas pela possibilidade técnica de construir a infraestrutura. A Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informou que a modelagem deverá considerar estudos de demanda, engenharia e operação, além dos aspectos técnicos, econômico-financeiros e jurídicos necessários à implantação.

Esse processo ajuda a explicar a diferença entre uma diretriz de planejamento e uma obra efetivamente contratada. O Plano Diretor Metroviário estabelece um horizonte de expansão e aponta alternativas para o crescimento da rede, mas cada empreendimento precisa avançar por etapas próprias até alcançar condições de execução. O documento técnico do PDM, por exemplo, apresenta a configuração da Linha 4 no eixo Recreio–Gávea–Carioca e dimensiona parâmetros de operação para a expansão da rede.

Crescimento urbano aumenta pressão por transporte de alta capacidade

Enquanto os estudos avançam, a região continua se transformando. Representantes de moradores da Barra e do Recreio defendem que o crescimento populacional e a concentração de atividades econômicas já justificam uma solução estrutural para o transporte.

Dados mencionados na reportagem mostram que Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes passaram de aproximadamente 129,6 mil moradores em 2000 para 290,4 mil no Censo de 2022. Nesse período, a estrutura viária principal da região continuou fortemente concentrada em corredores como a Avenida das Américas, o que contribui para a formação de congestionamentos e aumenta a dependência do transporte rodoviário.

A presidente da Associação de Moradores do Recreio, Simone Kopezynski, relaciona diretamente o problema dos congestionamentos à qualidade de vida dos moradores. Para quem vive ou trabalha na região, o tempo perdido nos deslocamentos representa mais do que um inconveniente cotidiano: afeta compromissos, produtividade, acesso a serviços e o próprio tempo disponível para atividades pessoais.

Na Barra, a Câmara Comunitária da Barra da Tijuca também defende a expansão do metrô. A entidade argumenta que o crescimento imobiliário e empresarial aumentou a pressão sobre avenidas como Lúcio Costa, das Américas, Ayrton Senna, Dulcídio Cardoso e Salvador Allende. Nesse cenário, o metrô seria visto como uma solução de transporte de massa complementar ao BRT e aos ônibus convencionais.

Problema financeiro pode ser tão importante quanto o técnico

Para o diretor da FGV Transportes Marcus Quintella, a construção da extensão não encontra, em princípio, um obstáculo tecnológico que impeça sua realização. O desafio central estaria na capacidade de financiar uma obra de grande porte sem criar desequilíbrios futuros no sistema.

Uma expansão metroviária desse porte exige investimentos bilionários, além de custos posteriores de operação, manutenção e renovação da infraestrutura. A definição do modelo de financiamento, portanto, precisa considerar não apenas a construção, mas também a sustentabilidade econômica do serviço e seus efeitos sobre as tarifas.

Essa preocupação ganha importância em um cenário no qual o transporte metroviário já possui uma tarifa elevada para quem paga o valor integral. Qualquer modelo de concessão ou parceria público-privada precisaria estabelecer mecanismos de remuneração e equilíbrio que não transfiram integralmente os custos do investimento para o usuário.

Ao mesmo tempo, uma extensão da Linha 4 poderia modificar o comportamento de parte dos moradores que atualmente dependem do automóvel para chegar ao Jardim Oceânico. Uma estação mais próxima de áreas residenciais e comerciais poderia reduzir a necessidade de utilizar o carro ou o BRT apenas para alcançar a rede metroviária.

Gávea é etapa anterior à expansão da Linha 4

Antes de pensar na chegada da Linha 4 ao Recreio, porém, o sistema ainda precisa concluir uma etapa importante de sua própria implantação original: a Estação Gávea.

As obras da estação, paralisadas durante anos, foram retomadas após um acordo envolvendo Governo do Estado, RioTrilhos, MetrôRio e demais instituições. Em 2024, um Termo de Ajustamento de Conduta aprovado pelo Tribunal de Contas do Estado permitiu a retomada do empreendimento. O acordo estabeleceu, entre outras medidas, a participação financeira do MetrôRio e do Governo do Estado na conclusão da estação.

Em 2025, a obra avançou para a retirada controlada da água acumulada nos poços e posteriormente para a etapa de detonação de rochas. A Secretaria de Estado de Transporte registrou o início das detonações em dezembro daquele ano.

A conclusão da Gávea é relevante para o funcionamento integral da Linha 4 e para a própria consolidação da rede antes de novos prolongamentos. Em outras palavras, o avanço em direção ao Recreio depende de um contexto mais amplo de expansão e conclusão de projetos metroviários que ainda estão em diferentes estágios de desenvolvimento.

Obras viárias tentam aliviar o problema enquanto o metrô não chega

Enquanto uma eventual expansão metroviária permanece no horizonte de planejamento, a Prefeitura do Rio vem adotando medidas para aumentar a capacidade do sistema viário da Zona Sudoeste. Em janeiro de 2026, foi lançado um plano com seis intervenções prioritárias para a Barra da Tijuca, Barra Olímpica e Recreio dos Bandeirantes, com investimento estimado em aproximadamente R$ 200 milhões e previsão de conclusão até 2028.

A primeira intervenção foi a construção de uma nova rotatória no encontro das avenidas Ayrton Senna e Lúcio Costa. Segundo a Prefeitura, a obra recebeu investimento de R$ 5,8 milhões. O conjunto inclui ainda intervenções na Avenida Ayrton Senna, uma nova Ponte do Arroio Fundo, ligação entre o Canal de Marapendi e a Avenida Alda Garrido, uma passagem inferior na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira e uma nova passarela na estação Asa Branca do BRT.

Essas intervenções podem melhorar a circulação no curto e médio prazo, mas não substituem necessariamente uma rede de transporte coletivo de alta capacidade. O próprio planejamento municipal reconhece a dimensão dos problemas de mobilidade provocados pelo crescimento urbano da região.

Transporte aquaviário surge como alternativa complementar

Outra frente de expansão da mobilidade é o transporte aquaviário no Complexo Lagunar. Em 2025, a Prefeitura anunciou a concessão do sistema ao Consórcio Lagunar Marítimo, dentro de uma parceria público-privada. O projeto prevê oito linhas, cinco terminais e seis estações, com integração ao sistema municipal de transporte.

A proposta pretende conectar áreas como Rio das Pedras, Muzema, Gardênia, Bosque Marapendi e Jardim Oceânico, criando alternativas de deslocamento que não dependam exclusivamente das principais avenidas da região. A Prefeitura estimou inicialmente capacidade de transporte de aproximadamente 85 mil passageiros por dia e informou que as obras deverão passar por etapas de projetos e licenciamento antes da implantação.

O sistema aquaviário, contudo, também enfrenta desafios de implantação. A proposta prevê intervenções ambientais e obras de infraestrutura no complexo lagunar, além da necessidade de compatibilizar o novo serviço com a atividade tradicional dos barqueiros locais.

Expansão até o Recreio depende de transformar planejamento em projeto

A extensão da Linha 4 até o Recreio, portanto, não é uma ideia abandonada, mas também não deve ser tratada como uma obra já garantida para 2045. O projeto aparece no planejamento oficial do Estado e voltou a ser apresentado publicamente em 2025, com o trecho Jardim Oceânico–Alvorada–Recreio inserido em uma estratégia mais ampla de expansão da rede metroviária.

O intervalo até 2045 deve ser entendido como horizonte de planejamento, e não como uma data de inauguração previamente assegurada. Para que o metrô efetivamente avance pela Zona Sudoeste, ainda será necessário transformar as diretrizes do Plano Diretor Metroviário em estudos detalhados, projetos, licenciamento, modelagem financeira, definição de responsabilidades e contratos de execução.

Enquanto isso, moradores da Barra, do Recreio e de bairros próximos continuam enfrentando uma região em acelerado processo de urbanização e com forte dependência de corredores rodoviários. O desafio para o poder público será encontrar uma combinação de soluções que acompanhe esse crescimento sem apenas transferir o congestionamento de uma avenida para outra.

O metrô, nesse cenário, aparece como uma solução estrutural de longo prazo. O BRT, as intervenções viárias e o futuro transporte aquaviário podem contribuir para ampliar a oferta de mobilidade, mas a expansão dos trilhos permanece como uma das principais reivindicações para que a rede de transporte de alta capacidade alcance efetivamente o interior da Zona Sudoeste.


Fonte: O Globo; Governo do Estado do Rio de Janeiro/Setram; RioTrilhos; Prefeitura do Rio de Janeiro; FGV Transportes; Coppe/UFRJ.
Imagem de capa: Divulgação, via O Globo

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