Governo fluminense prepara estudo com o Banco Mundial para os transportes: o significado e os riscos
No dia 19 de outubro, publicamos uma nota sobre isso. O subsecretário da Casa Civil, Sérgio Pimentel, informou, em entrevista à Rádio Manchete, que o governo do estado prepara um contrato para encomendar ao Banco Mundial um estudo destinado a modelar o sistema de transporte público do Rio de Janeiro.
Alguém consegue perceber a gravidade disso?
Que expertise o Banco Mundial tem para realizar um estudo como esse?
“Mas é o Banco Mundial”, dirão alguns.
O último estudo conhecido envolvendo órgãos internacionais foi o Pavuna–Arco Metropolitano, que até hoje não saiu do papel e provavelmente nunca sairá. Os interessados em entender os motivos podem ver o artigo sobre o assunto aqui no site Trilhos do Rio, onde apresentamos as razões e o próprio projeto, vejam abaixo:
Projetos inadequados e suas aplicações equivocadas 2 – Pavuna x Arco Metropolitano
Isso significa que o corpo técnico do estado não dispõe de profissionais qualificados para produzir tal estudo. Por que, então, o estado tem tantos profissionais que se dizem especialistas?
Percebem a seriedade disso?
Entendem por que, desde a extinção da RFFSA, em 1998, e lá se vão 28 anos, o estado do Rio de Janeiro, com exceção do Metrô, não apresentou NENHUM projeto de mobilidade urbana?
Entendem por que a SuperVia rescindiu o contrato com o estado?
O estado do Rio de Janeiro NÃO TEM em seus quadros, mão de obra qualificada neste segmento, simples assim.
Apenas relembrando um pouco da história, certamente desconhecida pela maioria: na década de 1950, existiu a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (CMBEU). Essa comissão bilateral elaborou um diagnóstico profundo da infraestrutura brasileira. Entre as recomendações de seus técnicos e consultores norte-americanos, estava o forte argumento de que o Estado brasileiro deveria parar de financiar ferrovias deficitárias (como a E. F. Leopoldina e a Rede Mineira de Viação) e priorizar o transporte rodoviário, considerado sinônimo de modernidade.
Sob forte influência de relatórios baseados no modelo norte-americano e no financiamento de organismos internacionais, consolidou-se no Brasil a visão de que as ferrovias eram obsoletas, caras e mal geridas.
No início da década de 1960, foi criada a Comissão para Extinção dos Ramais Antieconômicos, a partir das informações recolhidas pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (CMBEU), para mapear e acelerar a supressão de trechos ferroviários e estações, sob a justificativa de “sanear” as finanças da recém-criada Rede Ferroviária Federal (RFFSA).
O que acabou não acontecendo, a RFFSA, era um grande elefante branco, um verdadeiro poço sem fundo quando se tratava de despesas.
Percebem o perigo de se delegar a uma instituição internacional, que pouco ou nada compreende a nossa realidade, ou mesmo a pessoas despreparadas, uma tarefa de tal magnitude?
A Prefeitura do Rio de Janeiro, sob a gestão de Eduardo Paes, enterrou 12 bilhões de reais no BRT, criando enorme endividamento para o município e investindo em iniciativas que, na ocasião, nem sequer tinham projeto executivo.
Ao longo dos anos, o site Trilhos do Rio tem publicado diversas propostas com o objetivo de melhorar o transporte no estado do Rio de Janeiro. Não nos consideramos melhores do que ninguém, mas essas propostas foram elaboradas por engenheiros da E. F. Leopoldina, já falecidos, além da proposta de Carlos Alberto Morsing para chegar a São Paulo sem túneis, citada somente por nós. Esse senhor, um dos maiores engenheiros ferroviários do Brasil, é um grande desconhecido para a maioria.
E nenhuma dessas propostas foi sequer analisada.
Em diversas ocasiões, participamos de eventos na ALERJ. Em nenhum deles houve o comparecimento de empresários ligados ao setor de transporte rodoviário de cargas ou de passageiros.
Como o estado pretende viabilizar a operação das novas propostas que pretende elaborar sem a participação de empresários? Isso se elas realmente acontecerem.
A situação é séria; o futuro é sombrio.
