Silêncio nos trilhos: o destino incerto do material rodante da estação Barão de Mauá

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✍️ Redação Trilhos do Rio
📆 17/12/2025
⏱️ 19h35
📷 Locomotiva ALCO FA-1 no ano de 2021. Daddo Moreira / Trilhos do Rio

Enquanto a cidade do Rio de Janeiro promove intervenções urbanas na área da antiga Estação Barão de Mauá — também conhecida como Estação Leopoldina —, um capítulo sensível da história ferroviária brasileira segue envolto em silêncio administrativo e incertezas. Nos bastidores do Governo do Estado do Rio de Janeiro, articulações discretas vêm sendo conduzidas para definir o futuro de um valioso conjunto de material rodante e equipamentos ferroviários históricos que permanecem estacionados nas plataformas da estação, muitos deles em avançado estado de degradação.

Entre os itens abrigados no local estão bondes históricos de Santa Teresa, locomotivas diesel-elétricas, carros de passageiros do lendário Expresso Cruzeiro do Sul e, sobretudo, a locomotiva Alco FA-1, apelidada de “Biriba”, considerada a única remanescente desse modelo em território brasileiro. Trata-se de um acervo de alto valor histórico, técnico e simbólico, cuja preservação é reivindicada há anos por entidades e especialistas do setor ferroviário.




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Com a intenção de disseminar a informação, segue abaixo um documento do ano de 2023 onde encontram-se catalogados e descritos todos os itens que fazem, ou faziam, parte do conjunto de material rodante presente nas plataforma e pátio da estação.

Segundo representantes da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), da Associação Fluminense de Preservação Ferroviária (AFPF), da extinta Associação Ferroviária Trilhos do Rio (AFTR) e da Associação Ferroviária Melhoramentos do Brasil (AFMB) — esta última à qual está vinculado o atual Departamento de Pesquisas e Projetos Trilhos do Rio —, diversas visitas técnicas já foram realizadas ao longo dos anos com o objetivo de avaliar possibilidades de resgate, remoção e eventual restauração do material. No entanto, conforme relatado por membros dessas entidades, os entraves permanecem praticamente inalterados: altos custos logísticos, burocracias administrativas, indefinições jurídicas e ausência de um plano público estruturado.

A presença desse material na Estação Barão de Mauá remonta ao início dos anos 2000. À época, o engenheiro ferroviário Hélio Suevo Rodrigues liderou uma complexa operação de salvamento, quando as antigas oficinas ferroviárias do Engenho de Dentro foram desativadas para dar lugar à construção do Estádio Olímpico Nilton Santos, hoje casa do Botafogo de Futebol e Regatas. Segundo registros de entidades preservacionistas, locomotivas, vagões e carros de passageiros foram rebocados até a Leopoldina como medida emergencial, na expectativa de que ali fossem restaurados e integrados a um projeto de preservação — expectativa que, passadas mais de duas décadas, não se concretizou.

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Pior: parte desse acervo já se perdeu sem qualquer registro formal. Entre os casos citados por pesquisadores estão a locomotiva AS-616, conhecida como “Espanta-Demônio”, e uma locomotiva manobreira cedida pela Companhia Docas à AFPF, ambas baixadas e desaparecidas sem documentação pública conhecida.

Nos últimos meses, uma nova movimentação chamou a atenção da comunidade ferroviária. Conforme identificado no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), foram abertos e tramitam processos administrativos relacionados à retirada dos trens da plataforma da estação. Entretanto, contrariando o princípio de transparência que rege o sistema, todos os documentos associados ao tema estão classificados como sigilosos, com acesso restrito a determinadas secretarias do Governo do Estado.

De acordo com o artigo 23º, parágrafo VIII, da lei nº 12.527 de 2011, este procedimento é permitido e válido quando a informação constante do processo – que já possui 135 registros e atividades desde março de 2025 – poderia comprometer as atividades, caso fossem divulgadas.

A única informação pública disponível até o momento consta na ata da 363ª Reunião Ordinária da Diretoria Executiva da CENTRAL Logística, realizada em 10 de novembro de 2025. De acordo com o documento, o Diretor de Engenharia e Operação apresentou a situação dos trens estacionados na antiga Estação Barão de Mauá e informou que a demanda de retirada foi formalizada no âmbito do processo SEI-100006/00259/2025. Ainda segundo a ata, a companhia solicitou um prazo adicional de 45 dias para concluir os procedimentos legais necessários, pedido que foi aprovado por unanimidade pelos diretores executivos.

Esse prazo, contudo, se encerra antes do Natal de 2025. Até o momento, não há qualquer comunicado oficial que esclareça o destino do material, tampouco se haverá participação das entidades preservacionistas no processo. Para muitos observadores, resta a dúvida: o setor receberá um “presente de Natal” sob a forma de uma solução concreta para o patrimônio ferroviário ou, como sugere a ironia recorrente entre os militantes da preservação, será mais um episódio em que não se deve acreditar em Papai Noel?

Diante desse cenário, o Departamento de Pesquisas e Projetos Trilhos do Rio conclama seus seguidores, membros e colaboradores a exercerem vigilância cidadã. Quem estiver de passagem pelos arredores da Estação Barão de Mauá e for possível, de forma legal e à distância, observar possíveis movimentações, registrar imagens e/ou vídeos e compartilhar informações nas redes sociais, marcando a hashtag #TrilhosDoRio, será de suma importância para que todos saibam possíveis intervenções e destinações relacionadas ao material que lá se encontra.

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Se 2026 promete ser um ano de maior participação social e engajamento na pauta ferroviária, talvez seja prudente não esperar o calendário virar para começar a agir. A história, afinal, não se preserva sozinha — e o silêncio, quando se trata de patrimônio público, também comunica.

Assim que novas informações vierem a público, elas serão divulgadas aqui no site, mídias e redes sociais Trilhos do Rio.


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    O Departamento de Pesquisas e Projetos Trilhos do Rio surgiu como um grupo de amigos, profissionais, entusiastas e pesquisadores ferroviários que organiza, desde o ano de 2009, eventos, atividades e pesquisas, tanto documentais quanto em campo, sobre a história e patrimônio ferroviário do estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de resgatar, preservar e divulgar a história e memória dos transportes sobre trilhos fluminenses.
    Entre os anos de 2014 e 2021 fomos formalizados como uma ONG, a Associação Ferroviária Trilhos do Rio, e desde 2024 fazemos parte, como um departamento, da Associação Ferroviária Melhoramentos do Brasil

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