Projetos inadequados e suas aplicações equivocadas 2 – Pavuna x Arco Metropolitano

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✍️ Mozart Rosa e Daddo Moreira
📅 11/09/2020
🕚 12h00
📷 Divulgação projeto Pavuna x Arco Metropolitano

 




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No capítulo anterior, vemos como algumas ideias e projetos podem, ao mesmo tempo, fracassar e prejudicar outros, tanto em relação ao prejuízo causado, quanto em intervenções futuras e semelhantes. Abaixo daremos mais um exemplo e no próximo artigo daremos uma versão mais adequada a esse mesmo exemplo abaixo:

Exemplo 3: Pavuna x Arco Metropolitano

A coisa é extensa, os equívocos são fartos e temos espalhados pelo Brasil vários exemplos disso, onde, na ausência de um corpo técnico para o planejamento, os governos contratam consultorias para desenvolver projetos. Infelizmente, às vezes são contratados engenheiros, por vezes equivocados com certas informações, para tratar da implantação desses projetos. Gente que conheceu a Disney, mas não conhece Ouro Preto–MG (não é preconceito nem nada contra viagens, mas estamos falando da realidade local ou regional onde determinado projeto será implantado, por muitas vezes desconhecida pelos profissionais que vão trabalhar na região).

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Estação ferroviária de Ouro Preto Fonte: Meu Tour

 

Uma dessas consultorias, a AFD Francesa, elaborou recentemente para o Governo do Estado do Rio um projeto chamado Pavuna-Arco Metropolitano usando conceitos que funcionam muito bem na Europa, mas de eficácia duvidosa no Brasil. Esse projeto é baseado em uma linha férrea já existente que se inicia em Engenheiro Pedreira e segue cortando diversos municípios da Baixada, como Queimados, Nova Iguaçu, Mesquita e São João de Meriti, ao final se conectando a uma linha segregada, dentro da faixa de domínio do ramal de Belford Roxo. Essa linha é operada pela MRS logística.

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Neste trecho da linha em Mesquita pode-se notar a linha operacional da MRS e o espaço livre que existe em paralelo, com a possibilidade de implantação de um serviço de transporte de passageiros Foto: Google Street View em 2014

 

A intenção do projeto é construir, em paralelo a esse trecho, uma linha para instalação de um charmoso e, provavelmente lento, VLT nos moldes europeus, tendo como padrão os VLTs atualmente usados no Centro do Rio. Entretanto, como já mostramos, essas pessoas ainda não entenderam que subúrbio no Brasil e no Rio de Janeiro difere de subúrbio na França.

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VLT/Bonde na linha T1 no trecho original de Saint Denis a Bobigny, bairros do subúrbio de Paris Foto de Leandro Castro

 

Esse VLT tem por objetivo levar a população da região do bairro de Santa Rita e arredores para a Pavuna, onde dali essa população faria baldeação para o Trem ou o Metrô, tendo como destino o Centro do Rio de Janeiro. Seria um veículo funcionando com composições em velocidades médias de 15 a 25 km/h e com pelo menos 10 passagens de nível (PN) no percurso, e ainda com a possibilidade de esse VLT parar em algum sinal ou nas próprias PNs, como no Centro do Rio. E após este percurso, o passageiro faria a baldeação e embarque no trem ou no metrô na Pavuna.

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Isso parece um pouco inviável frente a outros projetos, não?

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Visão “Antes e Depois” do projeto Pavuna x Arco Metropolitano Fonte: Plano Diretor Urbano e de Mobilidade Urbana 2017

Quem elaborou o projeto possivelmente desconhece:

  • A história da Baixada Fluminense;
  • A realidade atual da Baixada Fluminense;
  • A legislação brasileira;
  • A operação ferroviária.
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Será que tantas estações assim atenderiam satisfatoriamente os passageiros desse trecho? Chegariam com rapidez e conforto até a próxima condução com destino à cidade do Rio de Janeiro? Fonte: Plano Diretor Urbano e de Mobilidade Urbana 2017

 

Essa ideia é aparentemente descabida, pois quem elaborou talvez desconheça a legislação brasileira e não levou em conta que a concessionária (MRS Logística), ao assinar com o efetivo dono dessa ferrovia que é o governo federal um contrato de concessão, assumiu além da linha também as faixas de domínio. Portanto querer implantar esse VLT na faixa de domínio da MRS Logística pode ser considerado ILEGAL. Será que esse argumento é suficiente? Isso foi levado em consideração?

  • Entendendo o Histórico da Linha
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Linha da EF Melhoramentos passando na região de Thomazinho na década de 1930 Fonte: Baixada Fluminense – Memória Fotográfica (INEPAC)

 

Construída no início do século essa linha serviu, e muito bem, como linha de transporte de passageiros e carga, sendo responsável pelo surgimento e/ou desenvolvimento de localidades como Rocha Sobrinho, Éden, Tomazinho entre outras. Posteriormente na década de 1980 foi criado um desvio em um ponto da linha em São João de Meriti onde ela se bifurca, uma linha contínua seguindo para o Porto do Rio e a outra entra no TSG – Terminal São Geraldo, o primeiro terminal Rodoferroviário do Brasil.

Entretanto, a partir de 1975 como já mostrado diversas vezes em nossos textos, o transporte de passageiros foi interrompido e a linha segregada apenas para cargas.

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Porto Seco TMM São Geraldo em Rocha Sobrinho, Nova Iguaçu Fonte: TMM

 

Abaixo, texto publicado por nós que cita o Coronel Carlos Aloisio Weber como o responsável por extinção de algumas operações de passageiros, sendo a realizada nesse trecho uma delas. Explica um pouco também o motivo da extinção desses serviços:

O motivo do fracasso das ferrovias no Brasil (9 – III) — Quem efetivamente acabou com as ferrovias?

A população dessas localidades descende de pessoas que usaram essa ferrovia como meio de transporte para o centro do Rio, as localidades em volta da ferrovia foram criadas por pessoas que trabalhavam no centro do Rio usando a ferrovia para esse transporte, e hoje muitos de seus descendentes fazem esse mesmo deslocamento de ônibus.

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A ferrovia passando por Thomazinho na década de 1930 Fonte: Baixada Fluminense – Memória Fotográfica (INEPAC)

 

Qual o sentido de se criar um VLT lento por motivos alheios, com parada final na Pavuna, para posteriormente as pessoas baldearem para o trem ou Metrô para a cidade? E com o detalhe de, ao se concretizar essa obra, ser ocupando a área de competência de outra empresa sem pedir autorização. Qual o custo disso? Principalmente das intervenções previstas no centro de São João de Meriti, onde seria tudo refeito a um custo estratosférico, pois o antigo leito ferroviário já foi ocupado por construções e em parte remodelado e reurbanizado. Essa é uma informação importante tendo em vista o caixa atual do Estado do Rio de Janeiro, que seria em tese o responsável pela obra.

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À direita a estação Andrade Araújo, última estação do serviço de subúrbios da EF Melhoramentos/Linha Auxiliar da EFCB Fonte: Baixada Fluminense – Memória Fotográfica (INEPAC)

 

Hoje a MRS logística é a dona da concessão de uso de essa linha a partir de contrato assinado com o governo federal einclui a faixa de domínio. Alguém os avisou sobre esse projeto? Parece que algumas pessoas desconhecem a lei das concessões em vigor no Brasil. Basta um Juiz de primeira instância para impedir ali qualquer obra sem a aquiescência da MRS Logística.

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A ferrovia passando por Itinga, atual Éden Fonte: Baixada Fluminense – Memória Fotográfica (INEPAC)

 

Com o passar dos anos a invasão da faixa de domínio por construções irregulares, bem como o aumento da população na região com consequente aumento do uso de veículos como ônibus, carros e caminhões usando as passagens de nível, todo esse aumento no volume de tráfego prejudicou muito a operação ferroviária nessas localidades, tornando-a uma operação lenta e perigosa sendo comuns acidentes e atropelamentos, apesar de todo o cuidado tomado pela MRS Logística. Em alguns trechos, para evitar acidentes, o trem chega a trafegar a velocidade de 5 Km/h. Isso diminuiu o lucro e o volume de carga transportado pela concessionária no trecho, além de inúmeros outros transtornos causados com essa lentidão.

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Um dos vários acidentes ocasionados por imprudência ao atravessar uma PN na região de Nova Iguaçu. Foto: O Tempo

 

No próximo episódio, a equipe Trilhos do Rio apresentará soluções alternativas para este trecho, elaboradas pelo nosso corpo técnico, sempre respeitando o lema:

 

Projetos tecnicamente perfeitos e economicamente viáveis

 

Antes de concluirmos, vamos deixar aqui algo claro para nossos leitores:

Somos admiradores do projeto do VLT existente no centro do Rio. Uma proposta muito bem-feita, muito bem executada e hoje muito bem operada. O VLT existente no centro do Rio em tudo é inovador. Pode e deve ser copiado por outras cidades com as características do Centro do Rio. Petrópolis poderia ser um exemplo. Mas daí a querer copiar esse modelo, transpondo-o para a ligação Santa Rita x São João de Meriti, denota uma necessidade de aprofundamento em vários aspectos. São características e necessidades diferentes.

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VLT cruzando a Praça Mauá em 2016 Foto: Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz)

 

E finalizando, para quem acha que o passado pode ser ignorado, o autor deste artigo recomenda a leitura do livro Ortodoxia de Chesterton, onde pode ser entendido que uma sociedade existe a partir do somatório de experiências advindas do passado, e o futuro depende do passado para existir. Felizmente, quem pensa assim não é a maioria de nossos leitores, pois a maioria são pessoas racionais e que se interessam em trocar e adquirir mais conhecimento e informações.

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Precisamos conhecer e respeitar nosso passado. O passado é rico e é o resultado de acertos e erros de gerações, para entendermos o presente e desenharmos melhor o futuro. A visão revolucionária atual pretende ignorar o passado e criar algo do nada. As coisas feitas dessa forma poderão trazer resultados desastrosos. Desprezar o passado não é sinal de modernidade, é sinal de ignorância.

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Trilhos do Rio também é cultura.

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Agradecemos a leitura. Até a próxima!

Autores

  • Mozart Rosa

    Iniciou sua carreira profissional em 1978 trabalhando com um engenheiro que foi estagiário da RFFSA entre 1965 e 1966, que testemunhou o desmonte da E.F. Cantagalo e diversas histórias da Ferrovia de Petrópolis. Se formou Engenheiro Mecânico pela Faculdade Souza Marques em 1992, foi secretário-geral Trilhos do Rio no mandato 2017-2020 e atualmente ocupa o cargo de redator do site, assessor de contatos corporativos e diretor-técnico.

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  • Daddo Moreira

    Formado em Arquivologia, pós-graduado em Engenharia Ferroviária, técnico em TI, produtor e editor multimídia, webmaster e webdesigner, pesquisador e historiador informal. Foi presidente e é o atual coordenador-geral Trilhos do Rio.

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