Perto do fim da concessão, Supervia praticamente iguala cenário de 1998
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✍️ Redação Trilhos do Rio, baseada em matéria do Jornal Extra
📅 29/06/2025
🕚 11:05
📷 Domingos Peixoto, Jornal Extra
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Após quase 27 anos de concessão, a SuperVia se prepara para encerrar sua atuação no sistema ferroviário do Rio de Janeiro deixando um cenário marcado por composições obsoletas, viagens prolongadas e um volume de passageiros que praticamente não evoluiu em relação ao início da concessão. Atualmente, cerca de 300 mil pessoas utilizam o serviço diariamente — o mesmo patamar registrado há quase três décadas. A superlotação dos vagões permanece uma realidade constante, especialmente nos horários de pico.
Uma comparação entre dados do contrato original, assinado em 1998, e os horários atuais revela que os deslocamentos ficaram consideravelmente mais lentos. O percurso entre a Central do Brasil (Estação Pedro II) e Santa Cruz, que levava 75 minutos há 27 anos, agora dura 98 minutos. No ramal Belford Roxo, o tempo aumentou de 53 para 64 minutos. Já o trajeto entre a Central e a estação Gramacho, anteriormente realizado em 37 minutos, e saindo da estação Barão de Mauá (Leopoldina), passou a exigir 59 minutos para ser concluído. O ramal Japeri é o que apresenta maior aumento de duração: de 75 minutos, saltou para 103. Apenas o ramal Deodoro teve um acréscimo mais modesto, de 40 para 50 minutos.
Celeste Dorneles, usuária do ramal Japeri há mais de 30 anos, comenta que apesar da precariedade de antigamente — como a ausência de ar-condicionado — as viagens eram visivelmente mais rápidas. Segundo Valmir de Lemos, presidente do Sindicato dos Maquinistas, o prolongamento dos trajetos está diretamente ligado à deterioração da via permanente e à necessidade de reduzir a velocidade dos trens por questões de segurança. A velocidade média caiu para algo entre 40 e 50 km/h.
O engenheiro ferroviário Hélio Suevo Rodrigues, da Associação dos Engenheiros Ferroviários, confirma a avaliação e ressalta que além do desgaste dos trilhos, o sistema sofre com dormentes deteriorados, falhas na sinalização e constantes furtos de cabos. Em trechos específicos, os trens não ultrapassam os 40 km/h, enquanto antes era comum alcançar entre 60 e 70 km/h.
Entre os dias 6 e 25 do mês passado, uma equipe do jornal O GLOBO percorreu cinco ramais e três extensões da SuperVia. Durante o acompanhamento, foram registradas superlotações, falhas operacionais e aglomerações nas estações. Dados da Agetransp, agência reguladora dos transportes públicos do estado, indicam que em 2024 foram contabilizadas 4.990 viagens canceladas ou interrompidas sem justificativa, uma média de 13 ocorrências diárias.
Outro problema estrutural visível é o chamado “cemitério ferroviário” de Japeri, onde 79 trens das décadas de 1970 e 1980 estão abandonados. Essas composições, das séries 500, 700 e 900, foram consideradas inservíveis por um relatório da Companhia Estadual de Transporte e Logística. Vários vagões perderam portas e componentes elétricos, e passaram a ser ocupados informalmente, servindo até como abrigo para usuários de drogas, o que gera preocupação entre moradores locais.
Na estação de Deodoro, um segundo pátio abriga mais 113 vagões antigos, penhorados judicialmente desde 1997, antes do início da concessão da SuperVia. Um acordo prevê que esses materiais sejam leiloados como sucata, com os valores arrecadados destinados ao pagamento de indenizações pendentes.
Em resposta às críticas, a SuperVia alega que problemas com portas abertas se devem a válvulas de segurança acionadas de forma indevida e garante que a via permanente passa por inspeções técnicas seguindo padrões nacionais e internacionais. A concessionária também afirma ter substituído, nos últimos 18 meses, mais de 45 mil dormentes e 402 toneladas de trilhos. A empresa responsabiliza ainda a pandemia da Covid-19 pela queda de receita e pelo aumento do furto de materiais, o que teria exigido ajustes operacionais.
Diante da iminente saída da SuperVia, o governo do estado avalia os próximos passos para a escolha da nova concessionária e para a definição de um novo modelo de gestão do sistema ferroviário metropolitano.
