Seminário no Palácio Guanabara debate sobre integração entre transportes
O evento reuniu representantes do poder público, setor privado, e acadêmicos, para discutir uma agenda integrada de transportes para a Região Metropolitana. Representantes do Espírito Santo apresentaram experiências no estado.
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A necessidade de integrar diferentes sistemas de transporte e ampliar a articulação entre os governos voltou ao centro do debate sobre a mobilidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O tema foi discutido nesta quarta-feira, 23 de setembro, durante o seminário “Encontros Metropolitanos”, realizado no Palácio Guanabara, que reuniu representantes do poder público, empresas, instituições financeiras e comunidade acadêmica para discutir propostas que deverão compor uma agenda de infraestrutura e transportes a ser apresentada ao próximo governador do Estado.
Organizado no âmbito do Instituto Rio Metrópole (IRM), o encontro contou com a participação da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários e Metroviários do Estado do Rio de Janeiro (Agetransp). O presidente da agência, Adolpho Konder, mediou o painel “O Futuro da Mobilidade Metropolitana”, no qual foram discutidos temas como integração tarifária, bilhetagem, governança, investimentos e perda de passageiros do transporte coletivo para o transporte individual.
A discussão ocorre em um momento em que os deslocamentos metropolitanos dependem de uma combinação cada vez maior de modos de transporte, incluindo trens, metrô, ônibus, barcas, sistemas municipais e outras alternativas de mobilidade. Para os participantes do seminário, a articulação entre esses sistemas é um dos pontos necessários para enfrentar os problemas de deslocamento que afetam diariamente os municípios da região.
Instituto Rio Metrópole como articulador
Durante o painel, Adolpho Konder defendeu o fortalecimento do Instituto Rio Metrópole como uma estrutura capaz de coordenar discussões envolvendo o Estado e os municípios da Região Metropolitana.
Segundo o presidente da Agetransp, é necessário ampliar o diálogo técnico e político entre as diferentes esferas de governo, incluindo a União, o Estado e os municípios metropolitanos. A proposta foi apresentada como parte de uma estratégia para tratar infraestrutura e mobilidade de maneira integrada, em vez de analisar cada sistema ou município isoladamente.
O presidente do IRM, Roberto Leão, responsável pela abertura do evento, também participou das discussões. A programação reuniu ainda o subsecretário-geral da Casa Civil, Sérgio Pimentel; a secretária de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana, Priscila Sakalem; representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); pesquisadores e especialistas do setor.
A própria estrutura do seminário indica uma tentativa de reunir diferentes perspectivas em torno de uma agenda comum. Em vez de limitar a discussão aos operadores ou aos órgãos responsáveis diretamente pelo transporte, o encontro incorporou representantes de planejamento, regulação, governo, academia e setor financeiro.
Integração tarifária como uma das prioridades
Um dos principais temas discutidos foi a integração tarifária, considerada pelos participantes uma ferramenta para tornar os deslocamentos metropolitanos mais articulados.
O professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar de Almeida, chamou atenção para a perda de passageiros do transporte público para os modos individuais motorizados. Segundo ele, políticas públicas precisam enfrentar esse movimento, inclusive pelos impactos ambientais decorrentes do aumento da utilização de veículos particulares.
Nesse contexto, Almeida defendeu modelos de integração tarifária e bilhetagem unificada, capazes de facilitar a utilização de diferentes meios de transporte durante uma mesma viagem.
A questão é particularmente relevante em regiões metropolitanas, nas quais um deslocamento cotidiano frequentemente envolve mais de um município e mais de um sistema. Quando a integração física, operacional e tarifária é limitada, a necessidade de pagar ou utilizar sistemas distintos pode aumentar o custo e a complexidade da viagem.
A discussão sobre integração também envolve, portanto, não apenas a tecnologia utilizada para cobrança, mas a definição de políticas públicas capazes de estabelecer como os diferentes sistemas participarão de uma mesma rede de mobilidade.
Grande Vitória apresentou experiência de integração
Um dos exemplos apresentados durante o seminário veio do Espírito Santo. O secretário de Mobilidade e Infraestrutura daquele estado, Fábio Damasceno, apresentou experiências desenvolvidas na Região Metropolitana da Grande Vitória, incluindo a integração entre diferentes sistemas.
Atualmente, a tarifa do sistema metropolitano do Espírito Santo é de R$ 5,10, valor estabelecido para o transporte coletivo metropolitano em 2026. A integração entre o sistema Transcol e o Aquaviário também permite que o passageiro faça a transferência entre os dois modos pagando a tarifa somente no primeiro embarque, mediante utilização do CartãoGV.
A experiência foi apresentada no seminário como um exemplo de medidas que procuram combinar diferentes modalidades dentro de uma estrutura metropolitana de transporte. Também foram mencionadas iniciativas de infraestrutura cicloviária e medidas voltadas à integração dos sistemas da região.
O caso capixaba não significa, por si só, que um modelo semelhante possa ser simplesmente reproduzido no Rio de Janeiro. As regiões metropolitanas possuem estruturas institucionais, redes, contratos, características territoriais e modelos de financiamento distintos. A comparação, entretanto, permite discutir alternativas para problemas que aparecem em diferentes grandes cidades brasileiras.
O custo da mobilidade para a economia
O impacto econômico dos problemas de mobilidade também foi abordado durante o encontro. Representando o setor regulado, o presidente do MetrôRio, Guilherme Ramalho, destacou os efeitos do tempo perdido nos deslocamentos sobre a produtividade e sobre os custos logísticos.
A relação entre mobilidade e atividade econômica é especialmente relevante em uma região metropolitana extensa como a do Rio de Janeiro. Deslocamentos demorados podem aumentar o tempo necessário para trabalhadores chegarem aos seus locais de atividade e também interferir na circulação de mercadorias e serviços.
Nesse cenário, investimentos em transporte público são discutidos não apenas como políticas de mobilidade, mas também como infraestrutura econômica. A expansão da rede, a melhoria da confiabilidade dos sistemas e a integração entre diferentes modos podem alterar os tempos de viagem e a forma como os municípios se relacionam entre si.
Estação Gávea permanece entre os investimentos metroviários
Durante sua participação, Guilherme Ramalho também destacou a necessidade de investimentos públicos contínuos e de longo prazo para a expansão da rede metroviária do Rio de Janeiro.
Entre os projetos citados está a Estação Gávea, cuja retomada das obras integra o planejamento apresentado pelo MetrôRio. A previsão mencionada durante o seminário é de conclusão em 2028.
A estação representa um caso particularmente relevante dentro do debate sobre planejamento de longo prazo porque sua implantação está relacionada à expansão da Linha 4 e à conexão de uma área de grande circulação com a rede metroviária existente.
A retomada de obras de infraestrutura dessa dimensão depende, entretanto, de planejamento, financiamento, execução e articulação entre diferentes instituições. Por isso, a discussão realizada no seminário tratou a expansão da rede como parte de uma política de investimentos continuados, e não apenas como intervenções isoladas.
Uma agenda que pretende ultrapassar os mandatos
Um dos pontos centrais apresentados durante o encontro foi a necessidade de construir uma agenda metropolitana com horizonte de longo prazo.
As propostas discutidas deverão ser consolidadas em uma Carta de Recomendações, que fará parte da Agenda Metropolitana elaborada pelo Instituto Rio Metrópole. A intenção é reunir as contribuições apresentadas ao longo do ciclo de debates e transformá-las em referências para políticas públicas futuras.
Esse tipo de planejamento enfrenta um dos principais desafios da infraestrutura de transportes: os sistemas são construídos e modificados ao longo de períodos muito superiores aos ciclos administrativos. Uma linha ferroviária, uma extensão metroviária, um corredor de ônibus ou uma estrutura de integração tarifária podem exigir anos de planejamento, obras e ajustes antes de produzir seus efeitos completos.
Por isso, a articulação entre municípios e diferentes níveis de governo aparece como um dos elementos discutidos no seminário. A Região Metropolitana do Rio de Janeiro reúne municípios com características e necessidades distintas, mas que compartilham redes de deslocamento e infraestrutura.
Próximas discussões
O ciclo “Encontros Metropolitanos” terá continuidade em 30 de setembro, com novos painéis dedicados aos temas “Governança Metropolitana” e “Resiliência e Mudanças Climáticas”.
A inclusão desses assuntos amplia a discussão para além da operação cotidiana do transporte. Questões institucionais, ambientais e de adaptação das cidades também estão diretamente relacionadas ao planejamento das redes de mobilidade.
No caso fluminense, discutir transporte metropolitano significa considerar uma rede formada por diferentes sistemas, operadores e esferas administrativas. Trens, metrô, ônibus, barcas, bicicletas e demais modos precisam ser observados não apenas individualmente, mas também em suas conexões.
O debate realizado no Palácio Guanabara colocou essa integração como uma das questões centrais para a construção de uma agenda futura. A proposta de reunir as contribuições em uma Carta de Recomendações representa uma tentativa de transformar as discussões do seminário em um documento de referência para as próximas etapas do planejamento metropolitano.
Para o transporte sobre trilhos, a discussão tem uma importância particular. A integração tarifária, a articulação institucional e os investimentos de longo prazo podem determinar não apenas a capacidade de expansão das redes existentes, mas também a possibilidade de estruturar uma rede metropolitana mais conectada.
O resultado concreto dessas discussões, entretanto, dependerá das decisões institucionais, dos investimentos e das políticas públicas que vierem a ser adotadas posteriormente. Por enquanto, o seminário abre uma nova etapa de debates sobre como organizar, financiar e integrar a mobilidade de uma das maiores regiões metropolitanas do país.
Fonte: AGETRANSP; Instituto Rio Metrópole
Imagem de capa: divulgação AGETRANSP
