Sob o asfalto, os trilhos que lembram a época dos bondes de Campo Grande
Antigo sistema de bondes chegou a conectar Campo Grande a diferentes localidades da Zona Oeste e deixou marcas que ainda podem ser encontradas nas ruas do bairro
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Quando Campo Grande era servido por bondes
Quem circula atualmente pelas ruas de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, dificilmente imagina que o bairro já contou com uma extensa rede de bondes responsável por conectar o centro da região a localidades que hoje fazem parte de uma das áreas mais populosas da cidade. Décadas depois do encerramento desse serviço, porém, alguns vestígios permanecem escondidos sob o pavimento e reaparecem sempre que o asfalto sofre algum desgaste ou passa por intervenções.

A história dos bondes em Campo Grande começou ainda no século XIX. Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), os veículos entraram na paisagem da região em 1896, inicialmente utilizados principalmente para transportar capim entre a estação ferroviária de Campo Grande e a localidade de Santa Clara, pela Estrada do Monteiro. O transporte de passageiros começou posteriormente, em 1908.
A implantação dos bondes transformou gradualmente a mobilidade da então Zona Rural do Distrito Federal. Em 1917, o sistema passou a contar com veículos elétricos e suas linhas foram ampliadas, estabelecendo conexões entre Campo Grande, Pedra de Guaratiba, Ilha de Guaratiba e Rio da Prata.

Uma rede que alcançava diferentes pontos da região
A existência dessas linhas ajuda a compreender como os bondes desempenharam um papel importante na integração de Campo Grande com localidades que, naquele período, possuíam características predominantemente rurais.
As linhas não se limitavam ao deslocamento dentro do núcleo mais urbanizado do bairro. O sistema alcançava áreas como Pedra de Guaratiba, Ilha de Guaratiba e Rio da Prata, formando uma rede que permitia aos moradores circular por uma região muito mais extensa do que aquela atendida pelo transporte coletivo da época. Curiosamente, com a chegada dos ônibus e lotações das décadas de 1950 e 1960, os bondes não foram erradicados imediatamente: segundo informações, em 1962 o sistema transportou aproximadamente meio milhão de passageiros.
O historiador e escritor André Luis Mansur, que há décadas pesquisa a história da Zona Oeste, também registrou diferentes episódios relacionados aos antigos bondes de Campo Grande. Em uma pesquisa publicada pela Associação Empresarial de Campo Grande, Mansur relata, por exemplo, que os trabalhos para implantação das linhas de Campo Grande para a então chamada Povoação da Pedra e para a Ilha de Guaratiba começaram em janeiro de 1916. No ano seguinte, foi construída a oficina de manutenção dos bondes na Estrada do Monteiro.
Essa antiga oficina permanece como um dos principais testemunhos materiais dessa história.
A antiga oficina ainda existe
A construção localizada na Estrada do Monteiro foi erguida em 1917 e abrigava a antiga usina e oficina de bondes. O imóvel é reconhecido pelo município como patrimônio cultural, tendo sido tombado pelo Decreto Municipal nº 15.216/1996.
Atualmente, o espaço é administrado pela Comlurb e continua relacionado à memória do sistema de transporte que durante décadas fez parte do cotidiano de Campo Grande. O próprio IRPH identifica o local como a antiga estação de bondes do Largo do Monteiro e destaca sua importância histórica e arquitetônica.

Mas não é apenas a construção que sobreviveu.
De acordo com o Museu de Campo Grande, grande parte dos antigos trilhos dos bondes ainda existe, embora esteja coberta pelo asfalto. Isso significa que determinadas intervenções nas vias podem revelar estruturas que permaneceram no local mesmo depois de décadas de abandono do sistema.
Trilhos que reaparecem quando o asfalto cede
É justamente essa característica que torna os antigos trilhos de Campo Grande um dos vestígios mais curiosos da história dos transportes da Zona Oeste.
Quando o pavimento se deteriora, quando uma obra interfere na superfície das ruas ou quando algum trecho do asfalto cede, podem aparecer segmentos das antigas linhas. São estruturas que permaneceram incorporadas ao espaço urbano, mesmo depois que os bondes deixaram de circular.
O fenômeno também revela uma particularidade do processo de transformação urbana do Rio de Janeiro: em determinadas áreas, a substituição de um sistema de transporte por outro não significou necessariamente a remoção completa de sua infraestrutura. Em Campo Grande, os trilhos permaneceram sob as camadas posteriores de pavimentação e acabaram se tornando uma espécie de registro arqueológico da mobilidade urbana.
A existência desses vestígios permite imaginar como eram os deslocamentos na região antes da consolidação do modelo baseado predominantemente nos ônibus e no automóvel.
O fim dos bondes em 1967
O sistema de bondes de Campo Grande sobreviveu por boa parte do século XX. Segundo registros históricos reunidos pelo Museu de Campo Grande e por pesquisadores da região, os serviços chegaram ao fim em 1967.
A última viagem é associada a 30 de outubro daquele ano. Um relato publicado por André Mansur descreve o momento em que moradores da Estrada do Monteiro se organizaram para registrar fotograficamente a passagem do último bonde que seria recolhido à oficina.
O encerramento colocou fim a uma história que havia começado mais de sete décadas antes e que acompanhou importantes transformações de Campo Grande.
A antiga rede, entretanto, não desapareceu completamente. A oficina permaneceu de pé, parte dos trilhos continuou enterrada nas ruas e documentos, fotografias e relatos preservaram a memória dos veículos que circulavam pela região.
Uma memória que ainda provoca discussões sobre mobilidade
O reaparecimento dos trilhos também desperta uma discussão contemporânea. Em registros divulgados por André Mansur sobre a história dos bondes, moradores chegaram a manifestar o desejo de que o sistema voltasse a ser utilizado como alternativa aos ônibus e ao trânsito cada vez mais intenso da região.
Naturalmente, a recuperação de um sistema de bondes histórico não pode ser tratada simplesmente como uma questão de recolocar trilhos onde eles existiam. A configuração urbana, a demanda atual, as características das vias, os custos de implantação e operação e a integração com os demais modos de transporte seriam elementos fundamentais em qualquer eventual projeto contemporâneo.
Ainda assim, a existência dos trilhos antigos oferece uma oportunidade para refletir sobre a própria evolução da mobilidade em Campo Grande. A região já contou, no passado, com um sistema sobre trilhos que conectava diferentes localidades e atendia deslocamentos cotidianos de sua população.
Hoje, esses trilhos permanecem silenciosos sob o asfalto. Quando reaparecem, entretanto, deixam de ser apenas estruturas antigas e passam a funcionar como fragmentos materiais de uma época em que o bonde fazia parte da paisagem e da vida cotidiana da Zona Oeste.
Fonte (em negrito): O Globo, Museu de Campo Grande; Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH); André Luis Mansur, Blog Memórias de Campo Grande
Imagem de capa: Bonde Monteiro, reprodução da internet (colorizada por IA)
