Violência ao longo dos trilhos expõe a fragilidade da operação ferroviária no Rio de Janeiro

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✍️ Redação Trilhos do Rio, com informações do site Agenda do Poder
📆 21/12/2025
⏱️ 14h02
📷 Marcelo Carnaval, Agência O Globo

Uma análise do mapa da malha ferroviária do Rio de Janeiro revela um dado alarmante, já conhecido há décadas, que ajuda a explicar a instabilidade do serviço de trens urbanos na região metropolitana. As linhas que transportam diariamente cerca de 300 mil passageiros em cinco ramais principais e três extensões atravessam ou margeiam ao menos 179 comunidades atualmente sob influência de facções criminosas e grupos armados, como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro, a facção Amigos dos Amigos e organizações milicianas. A proximidade com áreas conflagradas transformou a operação ferroviária em um serviço constantemente vulnerável a episódios de violência e insegurança.

Segundo levantamento divulgado pela concessionária e confirmado por dados do poder público, apenas nos dez primeiros meses de 2025, ocorrências relacionadas à segurança pública — incluindo trocas de tiros, furtos de cabos, roubos de equipamentos e atos de vandalismo — resultaram em 682 cancelamentos ou paralisações de viagens. Na prática, isso representa uma média de duas ocorrências por dia afetando diretamente a circulação dos trens, com impactos significativos na rotina de milhares de trabalhadores e estudantes.




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Trilhos que cruzam territórios dominados

As comunidades localizadas nas proximidades das linhas férreas estão majoritariamente concentradas na Zona Norte da capital, onde se encontram 104 dessas áreas. Há ainda trechos sensíveis no Centro do Rio, na Zona Oeste e em municípios da Baixada Fluminense. Ao todo, o sistema conta com 104 estações distribuídas ao longo de aproximadamente 270 quilômetros de trilhos, conectando a cidade do Rio de Janeiro a outros 11 municípios da Região Metropolitana.

Entre janeiro e novembro de 2025, foram registradas 16 trocas de tiros que interferiram diretamente na circulação dos trens, o equivalente a um episódio a cada 20 dias. Em diversas situações, os confrontos armados levaram à suspensão completa do serviço em determinados trechos, obrigando passageiros a buscar alternativas improvisadas de transporte, muitas vezes mais caras e demoradas.

De acordo com especialistas em mobilidade urbana, a vulnerabilidade da malha ferroviária em áreas dominadas por grupos armados é um problema histórico no Rio de Janeiro, agravado pela falta de políticas integradas de segurança e pela própria configuração urbana da cidade, onde bairros densamente povoados cresceram ao redor das linhas férreas ao longo de décadas.

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Interrupções prolongadas e prejuízos diários

O impacto dessas ocorrências vai além do número de episódios. O tempo de paralisação varia de alguns minutos a períodos extremamente longos. Houve casos em que o serviço ficou interrompido por mais de 18 horas, comprometendo completamente a operação de um ramal inteiro.

A maior interrupção registrada no período ocorreu no ramal Belford Roxo, após um tiroteio atingir a rede aérea de energia logo nas primeiras horas da manhã. Quatro estações precisaram ser fechadas, e a circulação só foi plenamente restabelecida no dia seguinte. Segundo a concessionária, danos à rede elétrica aérea exigem reparos complexos e rigorosos testes de segurança antes da retomada do serviço.

Os usuários do ramal Gramacho–Saracuruna figuram entre os mais afetados. Nove trocas de tiros foram contabilizadas em apenas 11 meses no trecho entre a Central do Brasil e Saracuruna. A maioria dos episódios ocorreu nas proximidades de estações situadas no chamado Complexo de Israel, na Zona Norte, região marcada por disputas armadas recorrentes e operações policiais frequentes.

Medo e incerteza na rotina dos passageiros

Para quem depende diariamente do trem, a insegurança já se tornou parte da rotina. Passageiros utilizam redes sociais e aplicativos de mensagens para alertar uns aos outros sobre disparos, paralisações inesperadas e interrupções súbitas ao longo das linhas. A incerteza constante obriga muitos trabalhadores a sair de casa com antecedência excessiva, na tentativa de criar uma margem de segurança para não perder compromissos profissionais.

Outros ramais também registraram impactos relevantes. No ramal Belford Roxo, foram contabilizadas seis interrupções provocadas por tiroteios, sobretudo em áreas próximas a grandes complexos de comunidades da Zona Norte. Já no ramal Deodoro, uma troca de tiros nas imediações de uma estação resultou na suspensão do serviço por mais de duas horas.

Apesar da forte presença de grupos milicianos em áreas da Zona Oeste, não houve registro de paralisações causadas por disparos de arma de fogo nessa região ao longo do ano, segundo dados oficiais divulgados pelas autoridades.

Mudança de operador e expectativa de reformulação

Em meio a esse cenário de instabilidade, o sistema ferroviário fluminense se aproxima de uma mudança estrutural relevante. Um leilão judicial previsto para janeiro deverá definir o novo operador que substituirá a atual concessionária. O modelo de contrato em discussão prevê uma permissão com duração inicial de cinco anos, renovável por igual período, e introduz mudanças significativas na forma de remuneração, que passará a ser calculada com base no quilômetro rodado, e não apenas na arrecadação tarifária.

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Segundo técnicos do governo estadual, o novo modelo busca ampliar o controle do poder público sobre tarifas, reduzir conflitos contratuais decorrentes da queda de demanda e criar mecanismos mais eficientes de fiscalização. A expectativa é que a nova operadora assuma a operação a partir de abril do próximo ano, após sucessivas prorrogações do contrato vigente.

Enquanto a transição não ocorre, a Polícia Militar informa que mantém patrulhamento dinâmico ao longo de toda a malha ferroviária, com equipes posicionadas em estações, plataformas e trens, além de reforço nos horários de maior movimento. Já a concessionária destaca que o furto de cabos continua sendo um dos principais entraves à operação e afirma adotar medidas para dificultar a revenda do material, como a aplicação de revestimentos especiais que facilitam a identificação de equipamentos recuperados.

O retrato que emerge dos trilhos fluminenses evidencia que a crise da mobilidade ferroviária no Rio de Janeiro vai além de questões técnicas ou contratuais. Trata-se de um desafio estrutural, onde segurança pública, planejamento urbano e política de transportes precisam caminhar de forma integrada.


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    O Departamento de Pesquisas e Projetos Trilhos do Rio surgiu como um grupo de amigos, profissionais, entusiastas e pesquisadores ferroviários que organiza, desde o ano de 2009, eventos, atividades e pesquisas, tanto documentais quanto em campo, sobre a história e patrimônio ferroviário do estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de resgatar, preservar e divulgar a história e memória dos transportes sobre trilhos fluminenses.
    Entre os anos de 2014 e 2021 fomos formalizados como uma ONG, a Associação Ferroviária Trilhos do Rio, e desde 2024 fazemos parte, como um departamento, da Associação Ferroviária Melhoramentos do Brasil

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