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Desdobrando a pergunta 3, algumas perguntas também pertinentes.

Pergunta número 3.1: “E quem vai bancar a manutenção dessa linha pós-reforma, ou reconstrução. O trem turístico vai arrecadar o suficiente para pagar isso?”

Pergunta número 3.2: Se no trecho de interesse para implantação de trem turístico existir uma linha operada por uma concessionária, já foi negociado com a concessionária a possibilidade de se usar esse trecho? A concessionária concordou?

Ferrovia na Região da Costa Verde, onde chegou a ser combinada e firmada uma parceria com a concessionária que transporta cargas e a cessão do trecho para operação de um Trem Turístico, que infelizmente não foi à frente por outros motivos. Foto: Daddo Moreira, 2018

Portanto, nosso nobre leitor, amante das ferrovias (com ou sem referências, como quiser, não foi nossa intenção o trocadilho) que ao ver trechos abandonados ou não acha que com sua bondade (vejam definição de Bonzista na primeira postagem dessa série, não se encaixe nessa definição!), boa vontade e boas ideias, acredita poder conseguir o retorno desse trecho, ou que também com seu enorme altruísmo conseguirá defender as girafas da Amazônia, fica a pergunta básica recorrente, que no contexto tem tudo a ver com as 3 perguntas já feitas e as outras perguntas complementares: De onde sairá o dinheiro?

Se você é mais um daqueles que acreditam que o governo pode participar desses projetos, fica aqui, mais uma pergunta: você realmente acredita que sua prefeitura ou o governo do seu Estado poderá ajudar? (se você acredita certamente a noite entra no guarda-roupa e vai para sua casa em Narnia).

Já mostramos aqui a inépcia reinante no interior de nossos governos. Se prefeituras como a de Petrópolis ignoraram patrocinar um dos melhores e mais emblemáticos grupos vocais que existiram no Brasil, “as meninas cantoras de Petrópolis”, cujo valor de patrocínio seria ínfimo se comparado com uma operação ferroviária, você sinceramente acredita que vão apoiar projetos ferroviários? Há casos e casos, mas sejamos realistas. E aqui nos referimos genericamente às prefeituras em geral.


As meninas cantoras de Petrópolis

Grupo vocal formado em 1976 pelo maestro Marco Aurélio Xavier e dissolvido pela ausência de patrocínio em 2016.

O desprezo com a cultura e o patrimônio chegou ao ponto em que uma atração turística de Petrópolis, como o Relógio das Flores, chegou a ser abandonada devido a atos de vandalismo (vigilância não seria suficiente?) e falta de manutenção.

Fonte: Tribuna de Petrópolis.

Outra pergunta: Esse entusiasta, que defende em todos os fóruns e junto a amigos e autoridade, ser possível reativar linhas para uso turístico, mesmo sem entender nada de turismo, também acredita no Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa, acha mesmo que as prefeituras vão investir em projetos assim? Pois é, é muito, muito, mas muito difícil isso acontecer…

Encerramos então o nosso retorno e passeio ao ensino fundamental interpretando a frase número 3.


 

FRASE NÚMERO 3

“funcionando exclusivamente com função turística.”

Não é viável, face às características econômicas do Brasil, bem diferentes dos Estados Unidos, a implantação desenfreada de trechos ferroviários de uso exclusivamente turístico, pois as possibilidades para isso são bem pontuais e com possibilidade de sucesso em pouquíssimos trechos.

Automotriz estacionada em Governador Portela, Miguel Pereira, após a não concretização de um projeto turístico entre esta estação e Miguel Pereira. Foto: Daddo Moreira, 2020

A iniciativa, de forma mais ampla, só se viabiliza, além do transporte de turistas, com o transporte de cargas incluindo lixo e passageiros, ou com projetos globais envolvendo setores diversos, setores da própria cidade. Diferente disso, as chances de fracasso são enormes.

Querer transpor para o Brasil projetos turísticos ferroviários, como existentes nos Estados Unidos, é uma falta de conhecimento do setor turístico, e um desconhecimento da realidade econômica do Brasil. Nossas características de turismo interno são bem diferentes das dos americanos, nos falta também uma classe média maior e mais capitalizada.

Somos um país pobre com uma renda per capita menor que a do Uruguai.

VEJA TAMBÉM  Projetos inadequados e suas aplicações equivocadas 2 – Pavuna x Arco Metropolitano

Um dos diversos exemplos onde isso é possível é o trecho para Petrópolis, que atenderia a todos os segmentos: carga, passageiros e turismo, além de despertar interesse no empresário de ônibus, que é alguém que sempre deve ser convidado a participar de tais projetos.

Para complementar, lembramos de um Projeto de Lei, elaborado no ano de 2012 por um grupo de políticos, que visava à implantação de trechos ferroviários para fins turísticos no Estado do Rio de Janeiro. Entretanto, apesar da aparente boa ideia, os trechos sugeridos demonstravam a total falta de conhecimento nas áreas de história, transporte ferroviário e mobilidade em geral, além de desconhecimento em vários aspectos do próprio estado do Rio de Janeiro. Alguns absurdos propostos foram:

  • Reativar uma ferrovia que era utilizada para transporte urbano;
  • Que foi desativada e teve o trecho inundado para a construção de uma represa;
  • trechos que não têm cenários ou atrativos turísticos;
  • Até mesmo linhas em áreas particulares!
Fonte: http://www.alerj.rj.gov.br/Visualizar/Noticia/42581

Estes foram alguns dos trajetos sugeridos, o que, de qualquer forma e com os fatores apresentados, não cabe a nós acrescentarmos, observar ou comentar mais nada. Apenas destacamos que o subtítulo deste artigo se encaixa perfeitamente no exemplo acima.


 

TRANSCRIÇÃO DAS TRES PERGUNTAS, Apesar de que são mais…

Não confundam as frases pinçadas com as perguntas feitas, por isso abaixo transcreveremos apenas as perguntas. Reflitam sobre elas separadamente aqui e sobre as possíveis respostas, e após isso vejam se suas ideias são exequíveis ou não.

Aproveitamos também para pedirmos que abram a mente para opiniões e pensamentos previamente criados ou enraizados anteriormente, tentem analisar a situação de uma forma diferente do que você possivelmente já pensa, sabe ou talvez imagine que saiba. Não somos os donos da verdade, mas apenas pedimos que abram a mente e pensem de forma diferente para possibilitar que a informação, ideias e opiniões, tenham ao menos uma chance de ser analisada ou considerada. Individualmente, após ler, dê sua opinião, não comente ou opine sem antes ler e visualizar as informações sob outro ângulo ou aspecto.

Pergunta número 1: O trecho turístico que você defende tem potencial para se pagar, funcionando apenas de quinta a domingo? Ou menos? E em quantos meses no ano?

Pergunta número 2: “O trecho turístico que você defende usará que tipo de máquina para tracionar os vagões/carros, que tipo de vagões/carros vai ser usado, de onde eles virão? E o mais importante: o volume de passageiros transportados vai custear isso?”

Pergunta número 3: “Quem vai pagar a reconstrução dessa linha considerando custo de até R$ 500.000,00 por km? Ou quem vai bancar uma eventual reforma da ordem de R$ 250.000,00 o km.” (Preços estimados para bitola métrica)

O volume de passageiros transportados vai bancar isso?

Pergunta número 3.1: “E quem vai bancar a manutenção dessa linha pós-reforma, ou reconstrução? O trem turístico vai arrecadar o suficiente para pagar isso?”

Pergunta número 3.2: se no trecho de interesse para implantação de trem turístico existir uma linha operada por uma concessionária, já foi negociada com a mesma a possibilidade de usar esse trecho? A concessionária concordou?

Resumindo: Sem a participação do empresariado e sem um projeto viável, nada acontecerá.

Iniciamos o texto falando que faríamos apenas 3 perguntas, mas acrescentamos mas algumas que transcreveremos abaixo:

De onde sairá o dinheiro?

Quem vai manter e quem vai operar?

Esse entusiasta, que defende em todos os fóruns e junto a amigos e autoridade, ser possível reativar linhas para uso turístico, mesmo sem entender nada de turismo, também acredita no Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa, acha mesmo que as prefeituras vão investir em projetos assim?

VEJA TAMBÉM  O motivo do fracasso das ferrovias no Brasil (1) – Os custos de construção

Você realmente acredita que sua prefeitura ou o governo do seu Estado poderá ajudar?

Só para lembrar, se essas propostas de trens turísticos que aparecem por aí corriqueiramente fossem realmente boas, algum empresário já as teria abraçado.

Portanto, amigos leitores, quando ouvirem pessoas cheias de boas intenções propondo Trens Turísticos, pensem em tudo o que está descrito aqui. Além disso, é importante que se informem se quem faz tais propostas já geriu algum negócio na vida, há chances tanto que sim quanto que não, mas confirmem.


 

TRAZENDO SÓCRATES PARA O SETOR FERROVIÁRIO

Quando ouvir alguém fazendo, ou estiver pensando em fazer, esse tipo de proposta, lembre-se de Sócrates e das três peneiras da sabedoria.

Temos a impressão de que o responsável pelas ilustrações e imagens deste artigo se empolgou com essa história de “Trazendo Sócrates para o setor ferroviário”. Parece, não?

Para o setor ferroviário, fazer essas perguntas funcionam como as três peneiras da sabedoria de Sócrates, que veremos mais abaixo. Evitam muitos problemas, e feitas no momento certo teriam evitado muitos equívocos ocorridos no passado e, inclusive e, por exemplo, atualmente o que está acontecendo em Miguel Pereira.

Até a publicação desse texto, duas semanas depois do primeiro artigo e vários meses após as primeiras opiniões dadas a respeito do edital originalmente lançado, a Prefeitura de Miguel Pereira, em sua terceira tentativa, não conseguiu ainda interessado(s) em operar o trem com a Locomotiva a vapor.

Para não cometermos injustiças aguardamos a publicação de um novo edital do projeto, mas infelizmente algo parece ocorrer, e do jeito que nós e vários grupos já tinham previsto desde antes até de 2020, com o projeto anterior: “algo de errado não está certo” diriam os bem-humorados, mas neste caso não devemos fazer piada, o assunto é sério.

Estação ferroviária Professor Miguel Pereira, em 2018 Foto: Daddo Moreira

Fomos informados que recentemente aconteceu uma reunião para implantação de um circuito ferroviário em Vassouras, entre a nova diretoria do IPHAN e o prefeito da cidade, que possui uma belíssima estação ferroviária hoje ocupada e mantida por uma Universidade e para outros usos culturais. Trata-se de projeto antigo, apoiado por empresários da região, para fomento do turismo local que inclui inclusive restaurar a ferrovia até Conservatória, na cidade vizinha de Valença, já citada aqui neste artigo.

Foto de 10 de junho de 2021, divulgada via Facebook.

No encontro, o prefeito Severino Dias apresentou a intenção de realizar um projeto para viabilizar um circuito de passeio ferroviário na região do Vale do Café. A ideia é mobilizar na ação outras prefeituras da região, além do IPHAN, Secretaria Estadual de Turismo e a Agência Nacional de Transportes Terrestres. 

Contudo, nos causa apreensão que dentre os presentes à reunião estivessem autoridades sem nenhum conhecimento pleno da área ferroviária, mas, sim e apenas, de patrimônio e conservação. Esperemos que as pessoas consultadas posteriormente sejam efetivos conhecedores do setor, que vejam a ferrovia como negócio e que os empresários locais participem do projeto evitando frustrações como ocorridas anteriormente em outros lugares no Rio de Janeiro.

Antiga estação ferroviária de Vassouras. Foto: Daddo Moreira, 2018

Que fique bem claro novamente: nós apoiamos e esperamos ver diversos trechos operando com trens turísticos. Mas os empreendimentos têm que ser viáveis, e não certas utopias que alguns defendem, e que com seu fracasso comprometem todo o setor, desmoralizando-o. Estamos fartos de ver isso acontecer, e apesar de podermos ser considerados “formadores de opinião” não é neste caso uma opinião nossa, mas um senso comum: podem perguntar para pessoas mais esclarecidas ou fora de determinados círculos as suas respectivas opiniões. Sério!

VEJA TAMBÉM  O motivo do fracasso das ferrovias no Brasil (6) — Os egressos da RFFSA no futuro das ferrovias

Nós aproveitamos para informar que temos um projeto chamado de Ferrovia Centro-Sul Fluminense, e que engloba essa proposta da prefeitura, estando à disposição dos interessados.


 

AS TRÊS PENEIRAS TRILHOS DO RIO, Uma Breve História

Um rapaz procurou nossos técnicos e disse que tinha uma ideia fantástica e maravilhosa para um serviço de trem turístico. Mediante isso, disseram os técnicos:

– O que você vai me propor já passou pelas três peneiras?

– Três peneiras? Indagou o rapaz.

– Sim! A primeira peneira é a VIABILIDADE. O que você quer me propor é viável, você fez as contas e essa sua proposta se paga? Caso não tenha feito isso, e não tenha certeza da sua viabilidade, a coisa deve morrer aqui mesmo.

– Mas suponhamos que seja viável. Deve, então, passar pela segunda peneira: a INVESTIBILIDADE. O que você propõe é algo que interessa a investidores? É uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho e a fama do próximo? Vai dar lucro a quem investir? Ou, como muitas pessoas pensam, você está pretendendo que o governo pague a conta? Para ser colocada em prática, poderá interferir em outras pessoas? Como a locomotiva retirada de Grussaí que servia aos comerciários e que agora está parada em Miguel Pereira, não servindo a ninguém?

– Se o que você quer propor é coisa realmente muito boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Ou vai atender apenas a sua vaidade e de seu grupo de amigos?

– (…)

– Se passou pelas três peneiras, proponha! Tanto nós como você iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo!


 

ABAIXO AS REAIS TRÊS PENEIRAS DE SÓCRATES

Um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar algo sobre alguém. Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou:

– O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?

– Três peneiras? Indagou o rapaz.

– Sim! A primeira peneira é a VERDADE. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, mas não tem certeza da sua veracidade, a coisa deve morrer aqui mesmo. Suponhamos que seja verdade.

– Deve, então, passar pela segunda peneira: a BONDADE. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo?

– Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?

Arremata Sócrates:

– Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu como você iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo!

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Agradecemos a leitura, até a próxima!

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Autor

  • Mozart Rosa

    Iniciou sua carreira profissional em 1978 trabalhando com um engenheiro que foi estagiário da RFFSA entre 1965 e 1966, que testemunhou o desmonte da E.F. Cantagalo e diversas histórias da Ferrovia de Petrópolis. Se formou Engenheiro Mecânico pela Faculdade Souza Marques em 1992, foi secretário-geral Trilhos do Rio no mandato 2017-2020 e atualmente ocupa o cargo de redator do site, assessor de contatos corporativos e diretor-técnico.

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