Após crescimento expressivo, VLT Carioca registra queda no número de passageiros em 2026
Entre janeiro e julho, foram cerca de 14 milhões de passageiros, abaixo dos 14,6 milhões registrados no mesmo período do ano passado.
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O VLT Carioca, um dos principais sistemas de transporte sobre trilhos da região central do Rio de Janeiro, apresenta em 2026 uma redução no volume de passageiros depois de registrar crescimento significativo no ano anterior. A informação foi apresentada a investidores da Motiva, antiga CCR e atual controladora da concessionária, na terça-feira (11), indicando uma mudança no comportamento da demanda do sistema. Segundo os dados divulgados, o modal teria transportado cerca de 14 milhões de passageiros entre janeiro e julho de 2026, abaixo dos 14,6 milhões registrados no mesmo intervalo de 2025. A companhia vem acompanhando o desempenho do VLT em um cenário no qual mudanças nos padrões de deslocamento urbano, especialmente a expansão do trabalho remoto, podem estar afetando a circulação de pessoas pelo Centro do Rio.
A redução ocorre depois de um período de forte expansão da demanda. Em 2025, o VLT Carioca havia registrado crescimento de 11,2% no número de passageiros transportados em relação ao ano anterior, alcançando 25,2 milhões de embarques ao longo dos 12 meses. O resultado foi considerado um dos principais destaques da plataforma de trilhos da Motiva, que reúne outros sistemas metroferroviários operados pelo grupo. Naquele ano, o desempenho do VLT chamou atenção justamente por apresentar o maior crescimento percentual entre os modais da plataforma, consolidando uma trajetória de recuperação e expansão da utilização do sistema.
Os dados operacionais publicados pela própria Motiva ajudam a dimensionar a mudança observada em 2026. Entre janeiro e junho, o VLT Carioca transportou 11,845 milhões de passageiros, contra 12,435 milhões no mesmo período de 2025, correspondendo a uma queda de 4,7%. O desempenho não foi uniforme ao longo dos meses: em março, por exemplo, o sistema registrou 2,18 milhões de passageiros, 8,3% acima do mesmo mês do ano anterior, mas o resultado acumulado do primeiro trimestre ainda apresentava redução de 7,2%. Em abril, foram 1,922 milhão de passageiros, contra 1,959 milhão em abril de 2025, enquanto maio registrou 2,111 milhões, ante 2,195 milhões no mesmo mês do ano anterior. Em junho, a diferença foi menor, com 2,011 milhões de passageiros em 2026 contra 2,029 milhões em 2025.
A comparação também evidencia que a retração de 2026 ocorre sobre uma base de passageiros que havia crescido consideravelmente no ano anterior. Em julho de 2025, o VLT transportou 2,198 milhões de passageiros, elevando para 14,633 milhões o acumulado de janeiro a julho. No mesmo período de 2024, o sistema havia transportado 12,455 milhões, o que representou crescimento de 17,5% em 2025. Dessa forma, mesmo com a redução registrada neste ano, o volume de passageiros do VLT continua em patamar superior ao observado em períodos anteriores à expansão mais recente da demanda.
Uma das hipóteses apontadas para explicar a retração é a transformação dos hábitos de deslocamento provocada pela consolidação do trabalho remoto e híbrido. Como o VLT possui forte presença na região central da cidade e atende áreas com concentração de escritórios, instituições públicas, comércio e serviços, uma redução na frequência de trabalhadores que precisam se deslocar diariamente até o Centro pode produzir impacto direto sobre a demanda. A relação entre ocupação dos escritórios e utilização do transporte público, entretanto, deve ser tratada como um possível fator explicativo, e não como causa isoladamente comprovada da queda registrada em 2026.
O comportamento da demanda também precisa ser analisado dentro das transformações recentes da rede de mobilidade do Rio de Janeiro. Desde 2024, o VLT passou a contar com uma conexão estratégica com o Terminal Intermodal Gentileza, ampliando as possibilidades de integração com o BRT e outros serviços de transporte. A expansão da rede e a integração entre diferentes modos foram consideradas fatores importantes para o crescimento observado anteriormente. O sistema chegou a 23,9 milhões de passageiros transportados em 2024, crescimento de 18% em relação a 2023, segundo dados oficiais analisados em levantamento anterior do Trilhos do Rio.
A atual retração, portanto, não significa necessariamente uma perda estrutural da importância do VLT para a mobilidade carioca. O sistema continua desempenhando papel estratégico na ligação entre o Centro, a região portuária, a Rodoviária Novo Rio, o Aeroporto Santos Dumont e o Terminal Intermodal Gentileza. A questão que se coloca para a concessionária é entender se a redução observada em 2026 representa uma oscilação conjuntural ou se indica uma mudança mais permanente no padrão de deslocamento dos usuários.
Motiva passou a controlar praticamente todo o VLT Carioca
A mudança no cenário de passageiros ocorre pouco mais de um ano depois de a CCR, atual Motiva, assumir o controle praticamente integral da concessionária responsável pelo VLT Carioca. A operação para aquisição da participação que ainda pertencia à Invepar foi concluída em 28 de março de 2025. Com a transação, a companhia passou a deter 99,9% do capital social da concessionária, adquirindo uma participação de 4,7273% que permanecia nas mãos da antiga sócia.
O negócio havia sido anunciado em dezembro de 2024 e previa o pagamento de R$ 67 milhões no fechamento da operação, além de uma parcela adicional de R$ 30 milhões, atualizada pelo IPCA e condicionada a determinadas condições previstas no contrato, entre elas o reequilíbrio econômico-financeiro da concessão. A operação também incluiu a cessão dos direitos creditórios que a Invepar possuía em relação à concessionária.
A concentração acionária ampliou, portanto, o controle da Motiva sobre o empreendimento justamente em um momento de transformação da demanda pelo sistema. Para a concessionária, a evolução do número de passageiros será um dos indicadores importantes para avaliar o desempenho operacional do VLT e os efeitos das mudanças no perfil de deslocamento da população carioca.
É importante destacar que os dados públicos disponíveis da Motiva consultados para esta reportagem apresentam detalhamento consolidado até junho de 2026. Os números de aproximadamente 14 milhões de passageiros entre janeiro e julho e a variação mencionada aos investidores foram considerados a partir das informações divulgadas na comunicação citada na reportagem original. A diferença entre os dados acumulados até junho e o número informado para julho reforça a necessidade de acompanhar a divulgação oficial dos indicadores mensais para avaliar com precisão o comportamento da demanda ao longo do segundo semestre.
O VLT Carioca chega, assim, a uma nova etapa de sua trajetória. Depois de anos de crescimento e de sucessivos recordes de utilização, o sistema enfrenta em 2026 uma redução na demanda que precisa ser analisada à luz das transformações do mercado de trabalho, da dinâmica do Centro do Rio, das alternativas de transporte disponíveis e dos efeitos das próprias mudanças na rede integrada de mobilidade. Mais do que um simples recuo estatístico, os números podem oferecer um importante retrato de como os hábitos de deslocamento na capital fluminense continuam se transformando.
Fonte: Tempo Real RJ, com informações da coluna Capital, de O Globo; Motiva; Invepar; Poder360; Reuters
Imagem de capa: Daddo Moreira, 2026
