CONTINUAÇÃO DA QUARTA PARTE DO ARTIGO
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A frase “Inglaterra enriqueceu” precisa ser contextualizada. Além da nação Inglaterra ter enriquecido, seus empresários, banqueiros e sua população também enriqueceram. Atitudes de Ricardo Arkwright, como a de construir vilas operárias próximo às fábricas que construiu, e cursos de alfabetização para seus funcionários, melhoraram bastante a vida da população inglesa na totalidade.
Em 1798, Monsieur Decroix criou a primeira máquina circular que produziu a malha, foi a primeira forma a se produzir tecidos de forma diferente. Inicialmente essas máquinas foram usadas para fabricação de meias, com o tempo os tecidos de malha.

A Malharia firmou raízes no sul do Brasil, talvez pela forte presença de descendentes de germânicos. Malwee, Hering e muitas outras são exemplos, a própria Hering foi fundada em 1880. Falar sobre tecelagem é algo sem fim. Como veem, em 1880 já tínhamos malharias, Getúlio Vargas só governou o Brasil a partir de 1930, percebem que essa história da industrialização ter começado com ele não bate?
Citamos aqui apenas alguns homens que revolucionaram o setor têxtil, existem muitos outros, a todos eles nossa eterna gratidão, por melhorarem as nossas vidas.
O que temos sobre nossos corpos não são apenas peças de roupas feitas com tecidos, são produtos criados a partir de uma evolução tecnológica ímpar, evolução e produção de tecnologia, que envolveu diversas pessoas, conhecimentos diversos produzidos por gerações.
Cada peça de roupas tem dentro de si muita história, muita tecnologia. Histórias que se confundem com a história da própria raça humana. Tecelagem é um assunto apaixonante, explicá-lo demandaria livros e não um artigo simplório, pensem nisso.
As fábricas de tecidos em Magé e Petrópolis.
Magé foi o primeiro município com vocação industrial do Brasil e do Rio de Janeiro, sua proximidade com a capital, com as posteriores linhas da Leopoldina, a existência dos portos de Magé, e a água abundante de seus rios, fez com que diversas fábricas de tecidos se instalassem no município, possibilitando com facilidade a chegada de matéria-prima e a saída do produto acabado.
Sobre o município de Magé, uma informação de extrema importância. Foi em Magé que surgiu a primeira indústria do Brasil, uma fábrica de farinha de mandioca, que funcionou com a ajuda dos índios. Nossa miscigenação começa ali, o Padre Jose de Anchieta, que esteve no local, cita isso em seus escritos.
Tecidos Santo Aleixo.
Localizada no distrito de Santo Aleixo, em Magé, foi inaugurada em 1847. Começou fabricando, sacos para os produtos agrícolas produzidos em Minas Gerais. Esses produtos chegavam ao Rio pela estrada de ferro Leopoldina, posteriormente adaptou sua linha de produção para a fabricação de tecidos mais finos.

Companhia de Fiação e Tecidos Mageense.
Rebatizada Santo Amaro e posteriormente fábrica Itatiaia, a fábrica foi construída em 1891.
Foi a única construída na área urbana da cidade.
Fábrica de Tecidos Pau Grande.
Foi construída em 1878.
Companhia de Fiação e Tecidos Andorinhas.
Foi construída em 1890.
Cia América Fabril.
Foi mais uma fábrica de tecidos na região, inaugurada em 1875, essa fábrica tem histórias interessantes. Foi construída em uma localidade chamada de pau grande, no atual município de Magé, e lá trabalhou Mané Garrincha, que também morava na localidade. A partir da saída do Sr. Ademar Bebianno, da empresa, na época um dos diretores, ele fundou posteriormente a Cia Nacional de Tecidos NOVA América, e levou com ele os teares de madeira do início do século que eram extremamente barulhentas. que funcionavam onde hoje ficam as Lojas Americanas e a Casa e Vídeo, no Shopping Nova América
Fábrica de Tecidos Cometa.
Foi fundada em 1903 por Manuel José amoroso Lima, pai de Alceu Amoroso Lima, que foi Presidente da Academia Brasileira de Letras e usava o pseudônimo de Tristão de Athayde.
Cia Petropolitana de Tecidos.
Foi fundada em 1873, por empresários cubanos, quem diria.
Fábrica de Tecidos Santa Helena

Companhia Têxtil São Pedro de Alcântara.
Fundada em 1875, a pedido de D. Pedro II
Fábrica de Tecidos D. Isabel, em Petrópolis.
Foi fundada em 1889, seu nome era uma homenagem à Princesa Isabel.
Tecidos Aurora
Informações não disponíveis, aparentemente foi uma das primeiras fábricas de tecido de Petrópolis, tendo sido construída no século XIX. Essa empresa ficava próxima à rua Teresa e nada tem a ver com sua homônima, que fica em Americana, município paulista.
É preciso fazer algo por Petrópolis, nossa cidade imperial está abandonada pelo poder público estadual.
Estamos falando bastante das tecelagens, é um assunto apaixonante, e foi a base da economia do estado do Rio de Janeiro durante anos e hoje é inexpressiva na composição de nosso PIB.
Nosso estado já foi grande produtor de Jeans, tricoline, popeline, tergal, viscose, linho. Tínhamos fábricas de tecidos em diversos municípios, disso tudo sobrou apenas uma pequena fábrica de seda em Petrópolis, a Werner.
Antes de passarmos para o próximo tópico, onde falaremos de corantes têxteis, vamos explicar o seguinte: historicamente os processos de obtenção dos pigmentos para pintura e dos corantes têxteis eram e ainda são os mesmos, o que mudava e muda são as bases diferentes para cada aplicação. E isso acontece até hoje, vejam as várias aplicações das tintas da Acrilex.
Usos diferentes, com bases diferentes. Água, óleos especiais e outras.
Amanhã é Dia de Branco.
Nosso “agradecimento muito especial” a todos os que dizem ser essa frase racista. Ao escutarmos pela primeira vez essa frase dentro desse novo contexto, resolvemos escrever esse texto e mostrar o quanto essa ideia é sem sentido, ideia esdrúxula que acabou gerando todo esse artigo. A todos os que falam e divulgam essa sandice, nosso “muito obrigado”.
Mais uma vez, a turma que procura pêlo em ovo diz que essa frase é racista. Quanta ignorância. Essa frase remete a mais uma fibra vegetal usada na tecelagem, o linho, que, por ser na época uma fibra barata, era muito usada na confecção de ternos, no passado.

Mas e as cores dos tecidos? Vamos entender essa história.
Em 1856, Willian Henry Perkin um cientista inglês, foi o primeiro cientista a sintetizar um corante.

Em 1863, foi fundada a Bayer, famosa empresa alemã que hoje atua em diversas áreas da indústria química e farmacêutica. Ela inicia suas atividades fabricando corantes têxteis, em 1896 chega ao Brasil, importando produtos. Apenas em 1958 inaugura sua mega fábrica em Belford Roxo, município da baixada fluminense, passando então a fornecer com regularidade e a bom preço os corantes têxteis.
Em 1923, foi fundada no Brasil a Bellandi & Cia, indústria química especializada em corantes têxteis, posteriormente rebatizada de Guarany, uma homenagem do fundador da empresa, sr. Bellandi, aos índios Guarany que dominavam o tingimento artesanal. Para quem vive dizendo que as indústrias no Brasil começam com Getúlio Vargas, acabamos de mostrar mais um exemplo de muitos de que isso é uma balela.
Qualquer um que já tenha tingido em casa uma peça de roupa usando aquela panela enorme da mamãe ou da vovó deve conhecer essa marca.
Naquela época início da década de 40, época dos ternos brancos, ainda não existia um fornecimento regular com produção nacional de corantes têxteis só de alvejantes, além de não existirem fabricantes nacionais de caldeiras e tanques de tingimento, quase todo o tecido de linho produzido e outros tipos de tecidos eram brancos por conta dos alvejantes, essa frase “amanhã é dia de branco” remete ao fato de que amanhã, fosse qual fosse o dia da semana, seria dia de trabalho e dia de usar o terno branco de linho. Amanhã é dia de branco, significa que amanhã é dia de trabalhar.
Homem também segue moda, usar terno branco de linho virou moda, para uma população que se acostumou a usar ternos escuros por não existirem alvejantes o terno branco passou a ser usado por ser novidade.
Esclarecimento aos palpiteiros: o uso intensivo pela população masculina do terno de linho branco nunca foi “uniforme” como muitos falam, era apenas moda.
Já se produzia corantes como bege e cinza, mas nada comparado à cartela de cores existentes atualmente. A diversidade de cores disponíveis para tingimento de tecidos era muito limitada. Daí que, em fotos da época, embora sejam fotos em preto e branco, se percebe nas roupas um ambiente monocromático.
Compareçam a lojas como as da Leroy Merlim, e várias outras também tem isso, que dentro das lojas encontraram máquinas que produzem a cor pedida pelo cliente, para pintura de veículos e de residências, vejam a cartela de cores e a enorme quantidade de cores disponíveis, algo inexistente na década de 40, entendem que usar o branco foi significativo para aquelas pessoas, o branco por conta dos alvejantes era uma nova cor.
O próprio exército só começa a usar o tradicional verde-oliva depois da Segunda Guerra Mundial, até então usava o bege, pelas limitações tecnológicas das indústrias químicas nacionais, que ainda não produziam o verde de forma intensiva e nem tinha como fixar as cores nos tecidos.
O azul e o vermelho dos uniformes históricos eram produzidos em pequenas quantidades, o bege e seus diversos tons eram os mais usados por ser o corante mais fabricado.

O que aparece nessa pintura não é uma realidade histórica, os uniformes nunca tinham essas cores vividas.
Sobre os alvejantes vamos falar da sua descoberta.
Em 1774, o cloro foi descoberto pelo cientista sueco Carl Wilhelm Scheele, o cloro é matéria-prima básica na produção de alvejantes. Uma curiosidade, esse cidadão abaixo, o Scheele, foi um dos maiores cientistas que já existiu, infelizmente pouco crédito se dá a ele e poucos o conhecem. A química atual nada seria sem as descobertas dele.

Em 1785, o químico Frances Claude Louis Berthollet, a partir das descobertas de Carl Wilhelm Scheele inventou o primeiro alvejante líquido, a partir dali ele revolucionou a indústria têxtil, que passou a produzir tecidos brancos, bem diferentes dos tecidos escuros até então majoritariamente fabricados pela ausência de alvejantes e de corantes. Posteriormente, quando os corantes artificiais foram inventados, o alvejante ganhou importância para descolorir e preparar os tecidos para o tingimento.

Em 1934, foi construída no Brasil a primeira fábrica a produzir cloro, matéria-prima dos alvejantes. A Eletroquímica Fluminense, em Alcântara, São Gonçalo, no Rio de Janeiro, foi o pontapé inicial para as roupas brancas.
A Johnson & Johnson já tinha uma pequena unidade produtora de alvejantes para suprir suas próprias necessidades, uma delas era a de tratar o algodão.

A cor clara nas roupas começa a aparecer a partir da década de 40, a roupa branca se alastrou pelo país. Foi uma novidade, principalmente para uma cidade quente como o Rio de Janeiro. Observem fotos e pinturas históricas. Posteriormente, com as indústrias de corante já estabelecidas, mas fabricando poucas cores de corantes, começando a fabricar novas e variadas cores, a cor do vestuário foi mudando. Tudo se resumiu a uma questão de moda.
Lembrem-se, aquelas túnicas branquíssimas, mostradas em filmes mostrando o Império Romano e sua elite, são licenças poéticas, não existiam alvejantes naquela época.
O Vanish produzido pela Reckitt & Benckiser é considerado o primeiro alvejante não clorado, por não ter cloro em sua composição.
Já que falamos da Johnson & Johnson, vamos falar de uma concorrente dela que ficava aqui em nosso estado, em Petrópolis e que surgiu no pós-guerra, a FAGAN, que significava Fábrica de Ataduras, Gases e Algodões Medicinais. Graças a inauguração da Eletroquímica Fluminense que fornecia os alvejantes. Ela se tornou uma das maiores fornecedoras de ataduras do Brasil, que infelizmente fechou.

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